15 jul 2014

Violência obstétrica é violência de gênero. Ou até quando vamos tolerar misoginia?

Post por Isabela Kanupp às 14:24 em Feminismo

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Mais um relato de violência obstétrica. Eu – Isabela – nunca fui uma pessoa sensível e eu não consegui ler o texto de primeira. A questão é: desde que eu comecei a enxergar a violência contra a mulher essa questão se tornou muito mais grave para mim.

Ainda há quem acredite que a violência obstétrica não tenha relação com o machismo e o patriarcado. Não tenha relação com o fato de que, socialmente, nós mulheres somos vistas como inferiores e incapazes. O próprio ato de tirar o protagonismo da mulher de um ato fisiológico que pertence a ela, é uma forma de provar essa questão.

O combate ao machismo é também um combate a violência obstétrica.
Hoje se magicamente os homens começassem a gerar e a parir, vocês acreditam que haveria violência obstétrica contra eles? Homens são muito mais respeitados, ouvidos, não são silenciados e muito menos agredidos verbalmente, psicologicamente e fisicamente nessas situações médicas do que uma mulher.

Nesse relato da para notar muitos viés do machismo. Escrachado ou não. Sabemos que o machismo assim, escrachado é muito mais fácil de identificarmos e combater, porém o machismo sutil por vezes passa sem notarmos, acreditamos que é só mais um detalhe. É detalhe essa mulher pedir pelo filho e negarem a ela, porém entregarem a criança ao pai dela? Porque o homem teve voz em uma situação que, claramente, a mulher tinha esse direito? Porque a reação do oprimido – ainda mais nesse caso, sendo uma mulher – é visto como exagero, loucura, histeria?

Somos violentadas todos os dias. Desde que nascemos somos tratadas como “o segundo sexo”. Violência é normatizada na vida da mulher e não é a toa que muitas delas não reconhecem quando são violentadas: seja pelo parceiro, seja uma violência obstétrica. Quantas mais sofrem com isso e acreditam que faz parte do procedimento? Quantas mulheres da periferia passam por isso constantemente ser entrar para as estatísticas? Quanta misoginia ainda vamos tolerar?

O ódio pelas mulheres – e por tudo que consiste em “ser mulher” dentro da nossa sociedade – é algo reproduzido, ensinado, normatizado desde sempre na nossa sociedade patriarcal. É comum aprendermos a não confiar em mulher, a não gostar de nada que venha a ser de mulher – menstruar, “sentimentalismo”, etc, etc, etc – inclusive, quando um homem chora ele é acusado de ser o que? Mulherzinha. Ser mulher não é bom. É pejorativo!Já falei aqui do obstetra misógino que é amado pelo ativismo do parto humanizado. Um absurdo ao meu ver, porque até quando misoginia é bom quando “serve” para algo do nosso interesse? Um homem que claramente tem um discurso de ódio contra mulheres, o que o diferencia do obstetra que cometeu o crime do relato acima?

Ali tem muito mais coisas do que violência obstétrica, tem também estupro!Não somos ensinadas sobre o que é estupro, mas desde cedo somos ensinadas a evitá-lo, como se tivéssemos esse poder – ai ó, culpabilização da vítima -, mas por vezes não sabemos de fato o que é estupro. Estupro não é só na rua escura com um desconhecido. Estupro acontece também entre marido e mulher – marital -, estupro não precisa de introdução de um pênis. Ai, nesse relato de violência obstétrica também há um relato de estupro.

E fica bem claro quando lemos o relato de forma fria, como para toda aquela equipe médica aquela mulher era apenas um objeto a ser explorado: sem vontade, sem querer, sem autonomia. Ou vocês acreditam que a questão do médico se achar protagonista de um parto, tem apenas relação com o fato do endeusamento do mesmo? Ou tem relação com o fato de que, em sua grande maioria, é comum tirar o protagonismo da mulher?

Muitas mulheres alegam que já sofreram  inclusive violência obstétrica partindo de outras mulheres. Sim, e isso não deixa de ser por conta do machismo, do mesmo sistema patriarcal que ensina a odiar mulheres. Mulheres reproduzem isso em uma tentativa de deixar de ser “o outro”. Sabe, quando estamos na escola e preferimos ser amigas dos meninos do que ser zoada pelos meninos? Então, é quase que uma defesa. Mas o fato de eu andar com os meninos não me faz ser um deles. Eu continuo sendo a classe oprimida, por mais que por vezes eu entre na brincadeira e acaba reproduzindo a opressão.
Então essas mulheres que reproduzem essa opressão contra outras mulheres, não deixam de ser vítimas do mesmo sistema. Porém toda opressão deve ser combatida.

Violência obstétrica também é um fruto do machismo.

coragem

Sei que é muito complicado se reconhecer como vítima, como “enganada” por alguém, de certa forma somos culpabilizadas por isso a todo o tempo. Mas não se cale, se você passou por violência obstétrica se faça ouvir, relate, conte, denuncie. Seja histérica! Não vamos tolerar ou normatizar formas de machismo, de opressão contra a mulher, é violência!

 

Até quando vamos acreditar que violência obstétrica não tem relação com machismo, e pior, tentar combatê-la com as armas que o patriarcado usa?

 

Por isso precisamos de maternidade crítica e feminista.

 

 

 

 

4 comentários para "Violência obstétrica é violência de gênero. Ou até quando vamos tolerar misoginia?" | Adicione o seu »

  1. jul 15, 2014 @ 14:57 {Responder}

    […] Violência obstétrica é violência de gênero. Ou até quando vamos tolerar misoginia? […]

  2. jul 16, 2014 @ 16:16 {Responder}

    Confesso que ainda não sei o que pensar do relato dessa mãe que foi dada como louca e outros apelidos pejorativos. Isso infelizmente me dá muito medo de ter um filho um dia. Porém ainda tenho esperança de que um dia essa violência obstétrica irá acabar. Eu realmente espero!
    Beijos.

    • Isabela Kanupp
      jul 16, 2014 @ 17:23 {Responder}

      Thamyris, é muito assustador. Eu falo que “sorte” que quando eu tive minha filha eu era meio ingênua em relação a tudo isso, eu não tinha o menor conhecimento e não tive tanto medo do que me esperava. Sofri violência obstétrica, o que notei apenas anos depois. É a triste realidade.

      Todas nós esperamos.
      Beijos

  3. ago 09, 2014 @ 17:48 {Responder}

    […] 19)  Violência obstétrica é violência de gênero. Ou até quando vamos tolerar misoginia? – “Ainda há quem acredite que a violência obstétrica não tenha relação com o machismo e o patriarcado. Não tenha relação com o fato de que, socialmente, nós mulheres somos vistas como inferiores e incapazes. O próprio ato de tirar o protagonismo da mulher de um ato fisiológico que pertence a ela, é uma forma de provar essa questão. (…) É detalhe essa mulher pedir pelo filho e negarem a ela, porém entregarem a criança ao pai dela? Porque o homem teve voz em uma situação que, claramente, a mulher tinha esse direito? Porque a reação do oprimido – ainda mais nesse caso, sendo uma mulher – é visto como exagero, loucura, histeria? Somos violentadas todos os dias. Desde que nascemos somos tratadas como “o segundo sexo”. Violência é normatizada na vida da mulher e não é a toa que muitas delas não reconhecem quando são violentadas: seja pelo parceiro, seja uma violência obstétrica. Quantas mais sofrem com isso e acreditam que faz parte do procedimento? Quantas mulheres da periferia passam por isso constantemente ser entrar para as estatísticas? Quanta misoginia ainda vamos tolerar? (…)  É comum aprendermos a não confiar em mulher, a não gostar de nada que venha a ser de mulher – menstruar, “sentimentalismo”, etc, etc, etc – inclusive, quando um homem chora ele é acusado de ser o que? Mulherzinha. Ser mulher não é bom. É pejorativo! Ali tem muito mais coisas do que violência obstétrica, tem também estupro!Não somos ensinadas sobre o que é estupro, mas desde cedo somos ensinadas a evitá-lo, como se tivéssemos esse poder – ai ó, culpabilização da vítima -, mas por vezes não sabemos de fato o que é estupro. Estupro não é só na rua escura com um desconhecido. Estupro acontece também entre marido e mulher – marital -, estupro não precisa de introdução de um pênis. Ai, nesse relato de violência obstétrica também há um relato de estupro. (…) Até quando vamos acreditar que violência obstétrica não tem relação com machismo, e pior, tentar combatê-la com as armas que o patriarcado usa?Por isso precisamos de maternidade crítica e feminista.“ […]

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