13 nov 2014

Toda mulher nasceu para ser mãe…Sério mesmo?

Post por Isabela Kanupp às 01:48 em Feminismo, Maternidade

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Nunca quis ser mãe, a maternidade era algo que jamais passava pela minha cabeça. A verdade é que ela só passava naqueles momentos de aposta com o acaso: se nada der certo até os 25 anos eu tenho um filho! Falava isso não como algo que eu almejada em determinada época da minha vida, mas algo que eu achava tão surreal e louco, que só mesmo como um desafio…

Mas me tornei mãe de forma compulsória. Aprendi – e aprendo todos os dias – a ser o que socialmente chamamos de mãe, vou construindo aos poucos aquilo que acredito ser a maternidade ideal para a minha vida.

Durante muito tempo ouvi que toda mulher nasce para ser mãe. Que logo logo eu pegaria o jeito. De fato peguei, mas não porque nasci para ser mãe, mas porque depois de tanto errar a gente aprende. A prática leva a perfeição, não?
Somente com o feminismo eu entendi o que existia por trás do que diziam ser vocação para ser mãe, como se todas as mulheres nascessem para ser mães apenas porque…. tem útero. Como se nossa biologia nos definisse, nos determinasse. Como se fôssemos apenas biológicos e não sociais.

Elisabeth Badinter afirmava em seu livro Um Amor Conquistado que o instinto materno é um mito. Digo mais, instinto materno é uma forma de escravizar a mulher, é uma forma machista de tornar a exploração da mulher naturalizada.
Já disse em outros textos mas repito aqui: instinto todos nós temos, quando um bebê chora – independente de ser do sexo feminino ou masculino – é instinto, quando o pai pega a criança que está chorando no colo é instinto, quando a criança procura o seio da mãe pelo cheiro… é instinto.
Todos nós temos instintos. Dizer que a mulher tem um instinto diferente que faz com que ela exerça determinadas atividades com maior perfeição, ou que por ter esse instinto ela automaticamente tem que suportar qualquer situação, é absurdo e machista.
Identificar o choro de um filho não é instinto, não é sexto sentido, é prática. É vínculo. É conhecer sua cria. É algo que qualquer pessoa que conviva com a criança pode aprender, assim como a mulher-mãe aprende. Então, porque geralmente as mulheres-mães desempenham melhores as atividades em relação ao cuidado dos bebês do que os homens-pais? Simplesmente porque elas exercem mais aquela função, por conta de uma divisão machista de tarefas.
É claro que se você troca mais vezes a fralda do seu filho, do que seu marido troca, você saberá trocar de uma forma melhor e mais ágil.

A ideia de que alguém nasceu para algo – como uma determinação biológica, nesse caso – é uma forma de naturalizar a opressão que muitas pessoas sofrem, naturalizar exploração, e nesse caso, naturalizar uma maternidade compulsória. Quem se beneficia com isso? Uma sociedade patriarcal e capitalista que necessita que a mulher seja dominada. Uma mulher-mãe é muito mais fácil de dominar, é muito mais fácil de segregar, é muito mais fácil de controlar o seu corpo.

Pierre Bourdieu diz em seu livro A Dominação Masculina:

A lógica, essencialmente social, do que chamamos de vocação, tem por efeito produzir tais encontros hamoniosos entre as disposições e as posições, encontros que fazem com que as vítimas da dominação simbólica possam cumprir com felicidade as tarefas subordinadas ou subalternas que lhes são atribuídas por suas virtudes de submissão, de gentileza, de docilidade, de devotamento e de abnegação.

 

E o que é a maternidade – de acordo com o que a sociedade nos impõe – além de abnegação e abdicação?
O que é da maternidade compulsória, além de nos condicionarem a acreditar que tudo ficará bem, que nascemos para isso e logo iremos nos adaptar, que temos que cumprir nossa função com felicidade?

Cansei de ouvir e ler frases como: a maternidade me fez mulher, só é feliz quem é mãe, só conhece o verdadeiro amor quem tem um filho. Isso nada mais é do que dizer que a mulher que não passa por esse experiência que é a maternidade, não é mulher suficiente, não entende nada da vida, não sabe o que é amor verdadeiro e por aí vai. Sendo que, como indivíduos, podemos nos realizar de diversas maneiras. Sou feliz sendo mãe? Sou. Mas com certeza seria feliz também não sendo. Porque minha felicidade não é exclusivamente porque sou mãe, mas por diversos fatores da minha vida, que faz com que eu me sinta realizada.

Mas, se formos partir do ponto de que toda mulher(cisgenero) nasceu para ser mãe – afinal, ela tem ovários, tem útero, tem seios, tem o poder de produzir leite -, porque não dizemos também que todo homem nasceu para ser pai? Afinal, eles tem espermatozoides!

Por fim o que quero dizer é que mulher alguma precisa ser mãe, a mulher tem que QUERER se mãe. Que uma mulher pode ser feliz, realizada e completa mesmo sem nunca ter sido mãe. Além da nossa biologia somos seres sociais, somos seres com quereres, com vontades, com desejos, com realizações pessoais, o que te faz feliz pode não ser o que faz o outro feliz. E o outro pode ser feliz mesmo não tendo passado pelo mesmo que você. Vamos problematizar mais o que nos colocam como normal, como comum, como aceitável. Vamos questionar.
Muitas não nasceram para ser mãe, mas escolheram ser. Outras tantas foram impostas.

7 comentários para "Toda mulher nasceu para ser mãe…Sério mesmo?" | Adicione o seu »

  1. nov 13, 2014 @ 01:55 {Responder}

    […] Toda mulher nasceu para ser mãe…Sério mesmo? […]

  2. Ana
    nov 13, 2014 @ 11:20 {Responder}

    Oi Isabela, td bem? Acompanho seu blog há um tempo e acho muito pertinentes seus questionamentos a respeito da sociedade em que vivemos. Porém, estive em um seminário esse mês com a terapeuta Laura Gutman que me fez ver a maternidade por um outro ângulo, bem mais amplo do que até então eu via. Achei que talvez vc gostasse de ler os textos nesses links, eles foram muito bem escritos pela minha amiga Anna Galafrio e descrevem um pouco a visão da Laura sobre o patriarcado. Talvez vc até já conheça, de qq forma são esses:
    http://annagallafrio.com.br/2013/11/07/laura-gutman-e-o-poder-do-discurso-materno/
    http://annagallafrio.com.br/2014/11/02/laura-gutman-e-a-biografia-humana/
    Espero que goste. Um abraço.
    Ana

  3. Victória Costa
    nov 13, 2014 @ 13:36 {Responder}

    Ótimo texto, Isa! Dá vontade de imprimir várias cópias e distribuir pra esse povo chato que fica de mimimi mulher só é boa quando é mãe. Por um mundo mais livre <3

    Esse texto me lembrou isso: http://extra.globo.com/famosos/tania-mara-cria-polemica-ao-opinar-sobre-maternidade-acho-absurdo-mulheres-que-nao-querem-engravidar-13507255.html

  4. nov 15, 2014 @ 10:28 {Responder}

    Isabela,
    Muito bom! Acrescento, ainda, que à imposição de fora, soma-se a imposição de dentro. As nossas autocobranças. Por isso, é tão importante desnaturalizar os discursos.
    Publiquei um texto que também fala sobre isso: http://maeperfeita.wordpress.com/2014/11/15/o-filho-e-so-da-mae-ou-a-galinha-pintadinha-e-o-pinguim/
    Beijos!

  5. nov 25, 2014 @ 14:59 {Responder}

    Isa, não te achei no facebook, então vou deixar um pequeno texto que postei lá para vc:

    O PAI E A MATERNAGEM SATISFATÓRIA Winnicott para Isabella Kanup

    A maternagem satisfatória inclui os pais, mas eles devem me permitir o uso da palavra ‘maternagem’ para descrever a atitude global em relação aos bebês e o cuidado a eles dispensado. O termo ‘paternal’ tem, necessariamente, de chegar um pouco depois do termo ‘maternal’. Gradualmente, o pai torna-se um fator significativo enquanto homem. Depois vem a família, cuja base é a união de pais e mães, compartilhando a responsabilidade por aquilo que fizeram juntos, aquilo que chamamos de um novo ser humano – o bebê.
    Deixem-me mencionar a provisão maternal. Hoje sabemos que é importante o modo pelo qual se promove o ‘segurar’ e o manuseio do bebê, que é importante quem está cuidando do bebê – se é de fato a mãe ou outra pessoa. Em nossa teoria a respeito dos cuidados com a criança, a continuidade do cuidado tornou-se uma característica central do conceito de ambiente facilitador. Percebemos que é unicamente pela continuidade da provisão ambiental que o novo bebê em estado de dependência pode ter uma continuidade em sua linha de vida, e não um padrão de reação ao imprevisível e ao repetitivo. Refiro-me ao trabalho de Bowlby: a reação da criança de dois anos de idade à ausência da mãe (mesmo que temporária) caso se prolongue além da capacidade de o bebê manter viva sua imagem. [em outro texto, W. fala em ‘duas horas’ o tempo de ausência para o bebê apagar a imagem da mãe]

    abraço, saudades

    • Isabela Kanupp
      nov 26, 2014 @ 01:22 {Responder}

      Oi Thelma. Obrigada por enviar por aqui. Estou para ler Winnicott faz tempo, apesar de achar algumas coisas bem problemáticas, gosto de ler, vocÊ sabe. Alias, os livros que você me mandou da última vez, ainda não comecei a ler, mas será o próximo da fila e vou te mandando minhas impressões.

      Abraços.

  6. Olívia Colares
    dez 01, 2014 @ 20:54 {Responder}

    Obrigada!

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