06 jan 2017

Ter filhos é cansativo e nem sempre recompensador.

Post por Isabela Kanupp às 01:01 em Feminismo, Maternidade

Pode parecer cruel, mas a maternidade nem sempre é aquilo que fizeram a gente acreditar.
Apesar da Beatriz ter entrado na minha vida há um pouco mais de sete anos, costumo dizer que me tornar mãe é algo constante e por vezes questiono o que é ser mãe.
Para mim ser mãe não foi uma escolha, mas sim algo imposto, algo que acabei sendo levada a ser e a partir do momento que vi que não tinha mais volta, tentei dar o meu melhor. Porém, nem sempre o nosso melhor é o bastante, até mesmo para nós.

A maternidade é um grande “expectativa x realidade” e confesso que às vezes me sinto muito rabugenta, principalmente quando vejo publicações de amigas recém-mães de primeira viagem.
Sim, o seu bebê é fofo, ele é lindinho, talvez tenha puxado mais a você do que ao pai e eu super entendo que você publique nas suas redes sociais que é maravilhoso ficar a noite toda acordada porque ele está com cólica, mas amiga, deixa eu te contar, isso são os hormônios!

Não me lembro exatamente quando foi que eu percebi que C-A-R-A-L-H-O A MATERNIDADE NÃO É TÃO LEGAL ASSIM.
A verdade é que a nossa sociedade romantiza a maternidade e caímos muito bem nesse conto. Fica até chato às vezes contar algumas coisas que não achamos tão legais assim, rola um enorme tabu mesmo entre mães de falar sobre algumas mazelas do ser mãe.

ter filhos é cansativo
Por muitas vezes finalizamos um dia cansativo e estamos exaustas. Não temos força nem para lavar o cabelo, mas estamos em paz: em paz porque a criança dormiu e temos um pouco de tempo para nós. Entretanto também nos sentimos frustradas, frustradas porque esperamos aplausos que não acontecem, esperamos o reconhecimento que nem sempre vem. A maternidade nem sempre é recompensadora e chega um momento em que um sorrisinho não faz tudo valer a pena.

Em sete anos eu perdi as contas de quantas vezes me senti frustrada como mãe, de quantas vezes desejei ter meus pensamentos livres de Beatriz, porque mesmo na sua ausência, eu estou preocupada com ela, estou pensando em questões que a envolve. Às vezes sentimos falta de ser só a gente, se preocupar só conosco, se responsabilizar somente pelas nossas atitudes. Maternidade é algo absurdamente cansativo.

Lembro que assim que me separei e voltei a ter um pouco de vida social, além dos questionamentos constantes sobre onde estava a minha filha, me perguntavam como eu me sentia quando ela estava com o pai. Por muitas vezes – e pela intimidade que permitia – fui extremamente sincera: me sinto aliviada. Apesar das reações de julgamento, nunca me arrependi de ser sincera com as pessoas e principalmente, nunca me arrependi de ser sincera comigo mesma.
Cuidar de outro ser humano é extremamente cansativo, não existem férias, não existe remuneração no fim do mês, não existe horário de almoço e descanso. É como se tivéssemos um emprego 24 horas por dia, 7 dias por semana e o chefe é um carrasco. O chefe, nesse caso, se chama sociedade.

Ao contrário de um trabalho convencional onde temos a nossa “recompensa” no fim do mês, na maternidade não vemos recompensa tão cedo e muitas vezes, não há recompensa alguma. Claro que não devemos fazer nada pensando que haverá uma recompensa, porém, confesso que se houvesse um pote de ouro no fim desse arco-iris, tudo seria mais simples e fácil. Se houvesse uma certeza que todo o trabalho de formiguinha traria resultado, seriamos mais felizes.

A maternidade além de tudo é um emprego ruim. Temos um chefe carrasco, não temos férias, não temos remuneração e ainda nossos colegas de trabalho são absurdamente críticos. É como se tudo que fizéssemos estivesse absurdamente errado e mesmo quando acertamos, “poderíamos ter feito melhor”.

Quando minha filha era um pequeno bebê que não dormia a noite por algum motivo, lembro de uma conversa que tive com a avó paterna dela, onde ela me disse que a Beatriz começaria a dormir direito após os 4 anos. Tive uma pequena crise de pânico com essa revelação e realmente ela estava certa. Hoje fico feliz de não ter essa conversa sobre a necessidade de descanso retroativo com ela, pois sei a resposta: não existem férias na maternidade.

 

ter filhos é cansativo

 

 

Não sou contra as pessoas lerem esse texto – e tantos outros – e mesmo assim decidir ter filhos. Mas acredito que precisamos iniciar com urgência um movimento que fale a realidade da maternidade, a realidade de verdade, aquela coisa hardcore, aquela coisa que ninguém quer falar sobre. Porque quando falamos somos taxadas como monstras-sem-coração-que-não-amam-os-próprios-filhos.
Eu tenho certeza que se as mulheres se tornassem mães sem essa visão romantizada, sem essa expectativa que criam e nos induzem a criar, essas mulheres seriam felizes e como consequência seus filhos também.

Desconstruir a visão romantizada da maternidade é um trabalho diário, é inclusive desconstruir essa ideia de que haverá uma recompensa, e essa história de recompensa é viciante, você começa a acreditar que um sorrisinho faz tudo compensar e logo logo estará frustrada. Porque um dia o sorrisinho só vai te lembrar de como ser mãe era mais simples e você não dava valor.
Desconstruir a visão romantizada da maternidade é também entender que vamos nos sentir uma merda de mãe – mas não somos! -, vamos nos frustrar porque somos humanas e vamos chorar no banheiro.
Desconstruir a visão romantizada da maternidade é um trabalho diário e dói. Dói porque descobrimos a nossa humanidade e ao contrário da expectativa descobrimos que não somos super-mulheres. Somos apenas mulheres, com nossas bagagens, medos, dores, frustrações, desejos e sono acumulado.

Desconstruir a visão romantizada da maternidade é entender que no fim do dia não haverá aplausos pelo trabalho incrível que você realizou não surtando e dando comida de verdade para seu filho. E mesmo sem os aplausos se sentir incrível e ligar o foda-se para a ausência de aplausos.

 

Muitas vezes não irá compensar, muitas vezes no fim do dia você vai chorar muito e querer dar um pause na vida. Não posso te garantir que isso passa ou que um dia chegará a recompensa tão esperada, mas posso te dizer que vez ou outra acontecerá coisas que te encherá de orgulho, orgulho por ser a mãe que você é, do seu jeito, na sua peculiaridade. Chegará o dia que você não irá mais chorar no banheiro e nem esperará mais os aplausos.

 

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2 comentários para "Ter filhos é cansativo e nem sempre recompensador." | Adicione o seu »

  1. jan 06, 2017 @ 02:28 {Responder}

    […] post Ter filhos é cansativo e nem sempre recompensador. aparece primeiro no Para Beatriz – Maternidade e […]

  2. Ingrid
    jan 10, 2017 @ 15:42 {Responder}

    Oi mamãe Isabela, tudo bem?
    Li todo seu texto e achei fantástico, bem escrito. Eu me senti tocada a lhe escrever. Também sou geminiana e mãe a 1ano. Eu já não escrevo nada bem, sou pessima rsss
    Mas, enfim.. falando de todo seu texto eu resumiria em 1 motivo a fazer e refazer todos os dias as mesma coisas e as vezes 10.. 20.. 30 vezes! O aMor e pelo aMor. Oque as vezes as mamães precisam é só de um ABRAÇO E ALGUMAS PALAVRAS que diz o qanto o filho(a) e mamãe são importante ao lar.
    Hoje é você que precisa de um colo..
    Um grande beijo e fica com Deus.
    IngridB.

    Não quis entrar aqui no fato, de existir mais publicacoes da realidade da materdidade.
    Do lado ruim. Pq tudo na vida existe o lado bOm e ruim.

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