20 mai 2014

Sobre o amor romântico e as relações parentais.

Post por Isabela Kanupp às 11:30 em Feminismo, Maternidade
Amore Materno - Fausto Zonaro

Amore Materno – Fausto Zonaro

Durante muito tempo me vi tendo de provar a todos o amor que eu sentia pela minha filha. Por vezes me via tentando provar esse amor que eu sentia, para mim mesma.
Nunca entendi muito bem a frase “ser mãe é padecer no paraíso”, e sempre achei no mínimo estranho o fato de que, porque ser pai não era? Como funcionava essa relação entre ser mãe e ser pai? Porque havia essa diferenciação?

Foi somente após ler muito a respeito de maternidade por um viés feminista que eu comecei a compreender melhor essa questão. Claro que ser mãe é padecer no paraíso, para a nossa sociedade você só é mãe “de verdade”, se sofre, se passa a noite em claro, se dá o sangue. Qualquer coisa fora disso sai do padrão “boa mãe” e pode cair logo para a categoria “mãe monstro”. 

Demorei um bom tempo para entender que eu era uma mãe, assim como qualquer outra mãe, só que com minhas peculiaridades. E que essas peculiaridades não fazia a menor diferença na minha maternagem, ou melhor, não fazia  menor diferença quanto a quem sou.
Demorei mais tempo ainda para afastar a visão de amor romântico da minha relação com a minha filha. E o que é o amor romântico?
O amor romântico, basicamente é aquele amor idealizado, aquele amor que sofre, conquista, que vence tudo pelo amado. Sabe romance? Então.
E para ser sincera com vocês, na maternidade existe pouco romance e muita realidade.

Quando comecei a desconstruir a ideia de amor romântico na minha vida – além da minha vida como mãe – foi quando comecei a notar a influencia dele em todas as nossas relações. Inclusive na relação com nossos filhos. E como isso pode nos aprisionar, criar expectativas e consequentemente nos frustrar.

Foi – e é – um processo entender como se dá as relações além da idealização. Além do que eu espero da minha filha e além do que eu espero como mãe da Beatriz. É um processo longo e até mesmo dolorido. Mas é muito libertador.
Liberdade foi o que senti quando percebi que bom, aquele amor que é imposto as mulheres-mães sentir é somente mais uma imposição da nossa sociedade, apenas mais uma forma de nos aprisionar e nos responsabilizar. 

Afinal, a mulher que opta por um aborto, é porque não ama aquele bebê. A mulher que opta por abandonar aquela criança que ela não desejou ter, é acusada de ser um monstro. A mulher que decidiu não ser mãe, não sabe o que está perdendo e não será completa. A mulher que não é mãe, não sabe o que é amor verdadeiro.

Sempre me incomodou essa última frase em particular. Sabe porque? Porque quando minha filha nasceu, eu não senti brotar nenhum amor extraordinário que me falaram tanto que aconteceria. Não houve nenhum amor incondicional. Muito pelo contrário: acredito que o meu amor pela minha filha tem suas condições.

Amor é construção. É algo construído no dia a dia. 
Não existe isso de olhar alguém na rua a automaticamente amá-la. Assim como não existe isso de uma criança nascer e você automaticamente amá-la. Você pode – e é o que acontece – idealizar essa amor, criar expectativa quanto a ele. Mas amar, você não ama. Amor é construção.

Lembro de uma matéria a respeito de um bebê com uma doença rara, no qual a mãe estava abrindo mão dos seus direitos como mãe, porque não tinha condição de cuidar desse bebê. Eu realmente achei uma história muito triste e mais triste a reação das pessoas em relação a mulher.
Dizendo que se essa mulher fosse mãe de verdade, ela aceitaria. Dizendo que o amor de mãe supera tudo.

Gente, amor de mãe não supera necessidade financeira. Não supera falta de comida na mesa. Amor de mãe não supera emocional não preparado para lidar com uma situação complicada. Não tem essa.

Acredito que o amor romântico só faz com que mulheres se sintam mais presas e condicionadas a uma maternagem automática. A uma maternagem sem suas peculiaridades e consequentemente, leva essas mulheres ao sofrimento. A se sentirem incapazes, incompletas, sentirem que não são mães o suficiente.
Sentirem que o fato de não amar de forma instantânea, faz com que automaticamente elas não amem. E não é assim.

Durante muito tempo eu me declarei pró aborto, porém que eu particularmente não abortaria. Então um dia me questionei – e questionei um amigo – o porque disso? Porque eu era pró aborto e eu não abortaria? Por causa de um julgamento moral no qual eu sofreria?

E foi então que eu percebi que o que eu sentia, quando pensava que um dia poderia ter abortado, é que eu amava menos minha filha. Esse sentimento foi colocado em mim, vivendo na sociedade em que vivemos, que se por acaso o aborto passou pela minha cabeça, automaticamente significa que não amo a minha filha.

 

Mas amo.

 

 

 

9 comentários para "Sobre o amor romântico e as relações parentais." | Adicione o seu »

  1. mai 20, 2014 @ 11:38 {Responder}

    […] Sobre o amor romântico e as relações parentais. […]

  2. Paloma
    mai 20, 2014 @ 15:04 {Responder}

    Adorei o texto, estou nesse momento de desvendar maternidade. Já notei o quanto os papeis sociais mais satisfatórios e esperados pela sociedade podem afetar a cada um de nós, é triste!

  3. juliana
    mai 20, 2014 @ 22:13 {Responder}

    Muito bom Isa. No começo da minha vida como mãe , pude perceber tudo isso que vc esta dizendo , pude perceber tbm que além da cobrança em relação a esse amor que tem que ser instantâneo que vc diz , tbm pude observar que ao longo da minha gravidez n teve , de verdade, nenhuma mulher que me dissesse, nem mesmo minha mãe, algo “ruim” sobre a maternidade , no sentido de dizer : Olha talvez seus peitos rachem no começo e doí pra caralho , olha vc n vai mais conseguir nem ir ao banheiro direito , pra tomar banho vai ser difícil , olha vc vai ficar um poco deprimida no começo e é normal , olha vc não vai sentir desejo sexual tão cedo, poxa, dai pude perceber que além desse amor romântico que nos é imposto a nós mulheres, existe tbm uma cultura muito forte de não poder dizer as verdadeiras realidades sobre ser mãe , e sempre somos obrigadas a dizer: olha ser mãe é lindo , olha ser mãe é tão prazeroso , olha vc vai sentir um amor nunca antes sentido etc etc. Então a partir desses momentos vividos e tbm de entrar em contato com muita leitura , qdo algumas colegas de faculdade e até amigas minhas mesmo , vem perguntar sobre o que é ser mãe? eu sempre digo as verdades que eu senti, e digo que ser mãe é se entregar , que ser mãe doí as vezes , e que é necessário muita paciência.

  4. mai 22, 2014 @ 23:55 {Responder}

    Ótimo texto, Isa!

    Acho essa ideia de amor compulsório, instintivo e instantâneo muito esquisita, inclusive. Vejo várias mães recém saídas da sala de cirurgia (pq né) chamando o bebê de “minha vida” “razão de existir” e só não entendo. Na maioria das vezes deve ser vomitação de senso comum: é esperado delas que digam aquilo. Já o pai, ah, normal não ficar se derretendo em sentimentalismos, tem que esperar uns meses pra criar o vínculo, né.

    Eu nunca quis ter filhos. Descobri minha gravidez aos quatro meses, não dava mais pra usar cytotec sem ser perigoso. Cogitei ter e dar pra adoção (em Juno é tão fácil), cogitei socar a barriga até abortar, no fim aceitei e tento ser a melhor mãe que posso. Mas aí quando alguém ouve essa história não diz “poxa, que legal que voce aceitou, deve ter sido um processo complicado”, eles dizem “E SE VOCÊ PUDESSE VOLTAR NO TEMPO, AINDA ABORTARIA?”, como se eu tivesse que me envergonhar por ter pensado nisso, sabe? Infelizmente a maioria das pessoas não faz questão de pensar muito além do que o papo furado diário permite. Que bom que existem pessoas influentes como você sempre incitando o debate e a desconstrução. Te adoro! Beijos.

    (não sei se você conhece, mas vai aí uma indicação de livro que tem tudo a ver com essa discussão: http://www.redeblh.fiocruz.br/media/livrodigital%20(pdf)%20(rev).pdf )

    • Isabela Kanupp
      mai 23, 2014 @ 00:59 {Responder}

      Quando me perguntam sobre voltar no tempo, bom eu abortaria SIM. Acredito que, se tivesse minha filha HOJE em 2014 tanto ela, quanto eu, seríamos mais felizes nos nossos primeiros momentos se conhecendo!

      Antes de abrir o link eu já tinha certeza que você tinha indicado Badinter! Sim, já li – e pretendo ler novamente – e os livros dessa mulher são sensacionais, porém a galera da maternagem não curte muito. rs

      Beijo

    • Isabela Kanupp
      mai 23, 2014 @ 01:11 {Responder}

      Meu, te contar: sabia que seu blog não me era estranho. SABIA.
      Tem um texto, nele… que eu SEMPRE compartilho na fanpage do blog, sobre consentimento para crianças. Adoro, sou fã. Acho que sou sua fã desde sempre! 😛

  5. mai 26, 2014 @ 21:52 {Responder}

    Isa, tô ligada! Hahahah, sempre vejo umas visitas lá originadas do seu site.
    Que lindo ouvir isso, valeu! ♥ somos mutualmente fãs então hahaha.

    • Isabela Kanupp
      mai 26, 2014 @ 22:19 {Responder}

      Feliz feliz por isso! <3

  6. Daiane
    jun 07, 2014 @ 18:07 {Responder}

    Esse texto me fez pensar no quanto nos deixamos ser manipulados por tudo. Meu filho tem um mês e tenho sentido o quanto é difícil ser mãe, e que não tenho esse amor incondicional. Não acredito nesse amor, acho que seja construído com o tempo. Abs.

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