12 jan 2017

Se olhar com carinho.

Post por Isabela Kanupp às 10:12 em Maternidade

Quando a Beatriz nasceu foi como se minha vida virasse do avesso, não somente por toda a mudança da rotina que é exigido quando um bebê chega, mas porque tudo que eu sabia ou acreditava saber, havia mudado. Muitas dessas questões foram resinificadas para mim, tomaram outras proporções, mudaram as prioridades e o nível de importância que damos a ela, porém, para além disso, eu me senti desconectada com o mundo.
É normal, é comum. Faz parte do puerpério todas essas mudanças, faz parte da nossa descoberta como cuidador (e não somente como ser que é cuidado), faz parte de toda a transformação que acontece e nossa posição na sociedade que subitamente muda. Ontem éramos filhos, hoje somos mães.

Porém junto com isso, eu senti outras mudanças.
Quando algo novo acontece na nossa vida, quando descobrimos um novo interesse, quando tudo se torna novidade, ficamos em um estado de euforia que faz com que tudo pareça perfeito. Lembro que uma das frases que eu repetia muito quando a Beatriz era bem pequena ainda: “Se eu soubesse que era assim, eu tinha tido filho antes”. Quando olho para o passado e me lembro dessa frase eu só consigo pensar como eu estava louca.

Por tudo ser novidade nem sempre nos atentamos aos detalhes, aos pequenos incômodos diários, nem sempre damos atenção devida àquela tristeza que insiste em permanecer conosco, algo que pode ser um sinal de um problema antigo (como no meu caso, já falei sobre isso aqui) ou algo novo.

se olhar com carinho


Quando Beatriz nasceu, além de eu ser muito nova, eu tinha pouquíssimo contato com outras mulheres que também eram mães. Além disso, pouco se falava desse lado não romantizado da maternidade, então as poucas vezes que questionei alguém sobre o que eu estava sentido ser normal ou não, eu obtive a resposta de que “era assim mesmo”. Hoje sei que não precisa ser assim.

É comum sentir essa desconexão do mundo, esse sentimento de não pertencer mais a determinados ambientes ou círculos sociais. Se você se tornou mãe muito jovem, muito provavelmente suas amigas estão em outra fase, enquanto você está na jornada solitária de ser mãe. Então sim, é comum se sentir assim, mas nem por isso não significa que não precisa de uma atenção mais detalhada, de um acompanhamento, principalmente para a situação não se agravar.

se olhar com carinho

 

Hoje estamos falando mais sobre a versão não romantizada da maternidade, sobre o que chamamos de “lado b”, de que nem tudo são flores (na verdade quase nada). Hoje temos mais liberdade e menos tabus para falarmos de depressão, seja ela pós-parto ou algo que já existia antes do nascimento dos filhos, mas estava de certa maneira adormecido em nós. Hoje é relativamente mais fácil obter ajuda médica, apesar de ainda termos muitos obstáculos pela frente até conseguirmos um atendimento verdadeiramente humano.

Ainda temos que lidar com a noção de que nós, mães, temos que aguentar tudo e abdicar de toda a nossa existência. E isso na verdade acaba, de uma maneira geral, prejudicando demais a situação de quem já se encontra em um quadro de depressão.
É preciso entendermos que somos humanas. E que assim como nossos filhos e como qualquer outro ser humano, precisamos de cuidados, precisamos de tempo para nós, precisamos de um olhar mais atento as nossas necessidades também.

se olhar com carinho


Se sentir triste pode ter se tornado comum para você, mas não precisa ser assim. Assim como você não precisa se sentir completamente grata, feliz e maravilhada apenas por ser mãe. Mas é preciso buscar um equilíbrio, buscar entender as angústias que na maternidade ainda são pouco faladas, é preciso se priorizar, se olhar com carinho.

Um dos meus maiores arrependimentos é ter deixado uma simples tristeza se tornar algo tão grande e inevitável. E isso aconteceu justamente por acreditar que com o tempo passaria, por acreditar que não era nada demais, por acreditar que “é normal”.
Claro que às vezes pode ser algo comum e passageiro, mas nem sempre conseguimos saber isso por si só.

É preciso se olhar com carinho.
É preciso se olhar e se humanizar.

 

 

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2 comentários para "Se olhar com carinho." | Adicione o seu »

  1. jan 12, 2017 @ 10:41 {Responder}

    […] post Se olhar com carinho. aparece primeiro no Para Beatriz – Maternidade e […]

  2. Lili
    jan 13, 2017 @ 08:55 {Responder}

    Atualmente vivo esse dilema de ter ou não filhos.Tenho 31 anos atualmente e sou casada e tenho uma vida financeira estável, ainda que não com folga. Sempre tive vontade de ser mãe, mas tenho histórico de depressão e TOC, que me faz ficar muito reticente a ter filhos. Meu maior medo é uma depressão pós parto ou uma nova crise de ansiedade/pânico. Ao mesmo tempo sei que não dá pra ficar adiando essa decisão, porque a taxa de fertilidade cai com a idade e tb vamos ficando menos dispostas pra lidar com a energia de um bebê/criança. Pra completar oq uadro, meu marido acha cedo porque ele trabalha demais (sem chance de reduzir o tempo), inclusive viajando, e não estaria em casa para dividir as tarefas igualitariamente. Só que sempre foi meu sonho. Eu trabalho meio período apenas, concursada e portanto tenho tempo pra me dedicar. As vezes tenho medo de estar adiando demais e ser tarde depois; as vezes acho que estou romantizando muito a maternidade e realmente o melhor seria não ter…Sei que isso está me deixando muito angustiada!

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