20 jan 2014

Rotulando estamos segregando.

Post por Isabela Kanupp às 09:34 em Feminismo, Maternidade

Em 2011 – se não me engano – eu criei uma conta no twitter chamada “Mãe de Merda”. Mãe de merda era um termo usado para designar mães… De merda. Ou mães que não faziam tudo como mandavam o combinado, enfim, era uma forma de ironizar a maternidade.
Na época eu realmente não via problema nisso e em pouco tempo essa conta teve uma notoriedade bacana, alvo de muitas críticas, e tudo mais.

Em 2013 apaguei esse perfil do twitter, fez parte do meu processo de mudar coisas que não achava bacana nessa nova fase da minha vida e do blog.

Termos como mãe de merda, mãe Doriana, menos main, mais main, são termos bem comum na conhecida “blogosfera materna” e principalmente nos grupos de debate sobre maternidade, gestação, criança, maternagem.
Durante muito tempo eu realmente não via problemas nisso. Acreditava que era apenas mais uma foram de ironizar toda essa pressão que sofríamos para exercermos uma maternidade ideal. Claro que esses termos também são usados de forma pejorativa, forma de expor outras mães, e vira tudo um julgamento virtual: “Fulana deu Mucilon para o bebê de 5 meses, menas main total.”

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Pois é, não é uma atitude que nós, ativistas da amamentação e da alimentação natural/saudável/etc concordamos. Mas, ninguém, ninguém, ninguém problematiza a questão do que levou essa mãe a ter essa atitude, qual o nível de informação e instrução que ela tem, ela tem apoio para amamentar? Ela conhece os benefícios da amamentação? Ela tem acesso às mesmas coisas que você?
Ou seja, vira um julgamento que não leva a lugar algum.
Então voltamos à questão que já falei nesse texto: o que é ser mãe?
Porque quando dizemos que alguém é “menas main” fica subentendido que ela é inferior a uma maneira x de ser mãe. Mas, o que é ser mãe?
Qual a intenção de padronizar a forma de maternar?Padronizando fica mais fácil de controlar. Usa dessas “brechas” como forma de cativar as mães, campanhas como culpa não usam dessa tática.

“Tudo bem mãezinha, você não é menas main por dar papinha Nestlé, mas a gente não vai te contar que faz mal, nem te mostrar que existem alternativas, porque somos pagos por eles, apenas vamos dizer que está tudo okay.”

Isso é uma forma de segregar. Enquanto atacamos outras formas de maternar, estamos desunindo, estamos apontando, julgando, atacando outras mães, outras mulheres, enquanto deveríamos atacar o alvo correto: revistas que não informam, que são parciais, que fazem textos contra a amamentação, pediatra que é patrocinado pela Nestlé e não incentiva a amamentação, obstetras cesaristas, o Governo que não da a mínima estrutura educacional e de saúde. O patriarcado está intacto enquanto atacamos umas as outras.

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Sei que é muito complicado não atacar outras mulheres, não cagar regra na maternidade do coleguinha, eu sei. E parece até incoerente a gente dizer que não existe essa de cada um educa seu filho como acha melhor, porque é justamente por isso que existem tantos adultos machistas, por exemplo, e dizer para não criticar. Devemos estar atentos a quem criticar, a ver onde está realmente o problema. Temos de sermos críticos sim, mas não culpabilizar a vítima, não jogar toda a responsabilidade para a mãe, quando existem outros responsáveis.
É um exercício diário: o exercício de não segregar.
Unidas somos mais fortes. Muitas vezes o que falta para alguém é informação, é um abraço, é saber que ela tem uma rede de apoio, de pessoas que entendem o que ela está passando, que divida as angústias e não de pessoas que estão apenas ali para apontar.
Sei que somos desde pequenas ensinadas a odiar outras mulheres, isso vem desde as brincadeiras, no convívio social, nos desenhos (afinal, a madrasta odeia a enteada, o bruxa tem inveja da princesa, etc), sei que é questão de toda uma cultura que a todo tempo ensina que devemos ser rivais, devemos duelar entre nós, devemos desunir.
Mas podemos fazer diferente.

 

Somos todas mulheres, mães, que passamos por dificuldades, algumas não escolheram ser mães, outras escolheram, vivemos em situações diferentes e não sabemos o que levou alguém escolher algo diferente de nós, e principalmente, é direito dessa mulher a escolha informada.
Ninguém é péssima mãe ou uma ótima mãe por atitudes isoladas.
Podemos não segregar.

 

 

5 comentários para "Rotulando estamos segregando." | Adicione o seu »

  1. jan 23, 2014 @ 08:40 {Responder}

    Oi, Isabela!

    Eu concordo com você quando você diz que é preciso ver mais a fundo, é preciso saber do contexto das coisas, é preciso conhecer as pessoas, mas, mesmo sabendo do contexto, das dificuldades e tudo mais, não me parece ok dizer que tá tudo bem dar mucilón, chupeta, mamadeira, etc. E não falo isso porque sou “a certinha”. Não sou! Acabei de escrever um texto dizendo que dei chupeta pra Artur. Sim, tive dificuldades e falta de apoio, mas isso não torna o ato de dar chupeta uma coisa bacana, entende? Eu não funciono com auto-defesa e acho importante a culpa materna/paterna (ou qq outra). Caso contrário, a gente sai fazendo besteira e achando que tá tudo bem. Não gosto de isentar-me. Prefiro assumir meus atos e culpar-me sim. A teoria da culpa zero é priorizar o adulto sempre. Então, sim, eu me culpo e tenho certeza de que não estou fazendo o melhor. :-(
    Vi seu comentário dizendo que a Bia perdeu o interesse na chupeta aos 7 meses! Ai, como eu quero que isso aconteça aqui. Torça por nós! Bjs.

    • Isabela Kanupp
      jan 25, 2014 @ 16:16 {Responder}

      Dany, eu também não concordo. Meu posicionamento com isso é bem claro. Porém, eu sei que muitas vezes a mãe que da mucilon por exemplo, pode não ter informação suficiente para saber que aquilo não é legal, saudável, etc. Ela pode não ter uma rede de apoio, como mãe auxiliando de forma sem intervir, marido que apoia. Talvez ela não tenha empoderamento ao ponto de enfrentar essa questão cultural que vemos de “o leite é fraco” ou apenas não tem informação de qualidade.
      Porque para nós as vezes é bem simples assimilar uma explicação, entender uma teoria, procurar no google algo científico sobre os benefícios do leite materno, porém, acredito que isso não é acessível para todos.
      Temos de lembrar que ainda muitas mães, usam como veículo de informação revistas segmentadas que sabemos que são compradas por quem anuncia.

      A questão é que sempre estamos culpando a mãe, apontando o dedo para a mãe, quando o problema está no sistema: muitas mulheres saem da maternidade sem saber da banho no próprio filho, sem saber se a “pega” está correta, muitas mulheres dentro da própria maternidade são afastadas dos seus filhos e impedidas de amamentar na primeira hora de vida do bebê. Muitas mulheres, na primeira consulta com o pediatra, é recomendado leite artificial e sabemos que a maioria dos casos a indicação não há necessidade.

      Então vejo que na maioria das vezes, essa mulher é também uma vítima.
      O problema é que não estamos somente NOS culpando, estamos culpando outras mulheres sem saber se elas tiveram as mesmas oportunidades, informações e empoderamento que nós.
      Sendo que poderiamos sim estar de alguma forma tentando passar essa informação de qualidade, tentando mostrar de forma “mastigada” para as pessoas nossas ideias, sendo irmãs e não apontando entende? Porque a sociedade já faz isso, já massacra as mulheres diariamente por diversos motivos, acredito que não precisamos de uma guerra entre nós, sabe? E claro, podemos dizer que não é legal dar chupeta de uma forma sem segregar essas mulheres.

      A Beatriz chupou chupeta, como te contei. E cara, eu praticamente obriguei ela a chupar chupeta. Porque para mim era algo muito claro: crianças chupam chupeta. Acredito que nunca havia tido contato com alguma criança que nunca havia chupado chupeta. Então na minha cabeça crianças tinham de chupar chupeta.
      Eu tinha internet em casa, já tinha o blog, tinha amigas mães, sempre levava a Beatriz ao pediatra e não tinha as informações necessárias para saber que a Beatriz não precisava de chupeta alguma.
      Eu sou culpada? Não me sinto culpada.

      Beijo

  2. jan 23, 2014 @ 09:50 {Responder}

    Em muitos casos falta empatia. Falta sentar de cara lavada e conversar, se colocando na mesma altura da pessoa, sem querer estar um nível acima.

    Ao invés disso… o que se vê são dedos apontados na cara de outra mãe, que pode estar frágil por N motivos, que pode não ter o mesmo conhecimento, que pode outras mil coisas.

    É um grande exercício o clichê do “se colocar no lugar do outro”. Mas enfim, é muito útil.

    E destaque para a frase:

    “O patriarcado está intacto enquanto atacamos umas as outras”.

    Ótima observação. Sigo refletindo sobre o assunto. Seguimos juntas.

    Beijos!

    Ananda

    http://www.projetodemae.com.br

  3. jan 26, 2014 @ 22:25 {Responder}

    […] post da semana é para refletir. A Isa, do Para Beatriz, publicou Rotulando estamos segregando. É uma visão muito interessante, pelo viés feminista, sobre rótulos como “menas […]

  4. mar 18, 2014 @ 14:14 {Responder}

    […] sociedade JÁ nos padroniza, para que precisamos endossar esse comportamento que só serve para segregar mulheres? É a mesma coisa quando separamos “mulher para casar” e “mulher para […]

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