12 dez 2013

Parto Humanizado: Querer ou poder?

Post por Isabela Kanupp às 19:37 em Feminismo, Maternidade

1

Há um tempinho, em um desses grupos de discussão sobre maternidade do facebook, li uma pessoa dizendo que amava o capitalismo, porque graças ao capitalismo essa pessoa poderia pagar o obstetra humanizado, a doula, e toda a equipe.
E então eu fiquei em choque. Em choque por alguém amar o capitalismo, em choque porque eu na minha ingenuidade acreditava que a militância pela humanização era algo abrangente a todos, e não apenas para quem poderia pagar.

Sabemos não é de hoje como é o SUS. Eu tive a Beatriz pelo SUS e podemos dizer que tive “sorte” por ter sido minimamente atendida, mas sabemos que essa não é a realidade da maioria: mulheres morrem esperando ter um parto normal – que de normal não tem nada -, mulheres tem seus filhos na calçada enquanto esperam uma vaga, mulheres sofrem violência obstétrica que não é exclusividade do SUS, mas com certeza o impacto é muito maior.

Onde está o foco da luta?

Esse é o detalhe do capitalismo:  ele é injusto.
Porque eu vejo algo muito injusto quando uma mulher tem o privilégio de ter acesso a algo, que a maioria das outras mulheres não tem. Ficam a mercê, ficam esperando o mínimo do SUS. Enquanto muitas lutam para doulas entrarem no hospital top.
Claro que uma luta não anula a outra, mas é uma luta majoritariamente elitizada. O parto é humanizado, mas para quem pode pagar.

Conheço algumas pessoas, que escolheram ser doulas mas não exercem a profissão, pois faziam isso de forma voluntária e foram tiradas do “mercado”. Depois de muita sacanagem das outras doulas, coisas infantis como falar mal do serviço da pessoa, somente porque ela não cobrava e isso quebrava o mercado.
Como podemos ser tão incoerentes, quando reclamamos da industria que se tornou ter um filho, do mercado que é tentar parir no nosso País, pois os obstetras optam pelo mais fácil e lucrativo para eles – cesárea, menos tempo de trabalho – quando muitas vezes, quem deveria lutar contra isso, age da mesmíssima forma?

Talvez meu pensamento seja um pouco ingênuo, pois eu realmente acreditava que a luta era para que todas – independente se mora no Morumbi ou na favela – tivesse a opção de um parto humanizado. E que talvez para que isso acontecesse quanto mais doulas, melhor. Mas, sabotam quem quer fazer isso de graça?

Há um tempo eu precisava de uma doula para um trabalho voluntário:  o trabalho era ir em um posto de saúde da periferia dar uma mini palestra para gestantes sobre o que era um parto humanizado. Porque sim, enquanto para nós isso é tão comum, existem mulheres – e digamos a maioria – que não sabem nem do que se trata.
Seria algo simples e que ocuparia apenas algumas poucas horas de um dia  – coisa de no máximo 3 horas – pagaria a alimentação e o transporte. E uma doula super conhecida aqui de Campinas se negou.
Se negou porque disse que era muito ocupada, que nesse tempo ela poderia ganhar mais atendendo uma gestante.

images

Não estou dizendo que a luta pela humanização não é válida, é válida E necessária. Mas acredito que não podemos nos focar só em um ponto.
Sim, você que pode pagar – mesmo que em suave prestações – uma doula e uma equipe, você é privilegiado. Porque tem gente morrendo na fila do SUS para passar com um clínico geral. Tem gente que sobrevive o mês com um salário mínimo, sustentando a família. Como dizer para uma mulher nessa situação que, quem quer consegue e tem doula que facilita?
É o mesmo questionamento que faço: como dizer para essas mulheres que é melhor ter um parto normal porque as evidências comprovam isso? Sendo que elas não sabem nem o que são evidências? Como dizer que quem quer amamentar é só se informar, se essas mulheres com sorte conseguem receber uma informação equivocada do posto de saúde?

A questão é muito mais complexa, a questão é muito mais ampla e social do que imaginamos.
Porque ao meu ver, quando se luta por algo, é para ser benéfico a todos, não somente para quem pode pagar, para quem tem um computador em casa e tem acesso a informação, não somente para os privilegiados. Lutamos, justamente, para que todos tenham esse direito. Então, porque a luta está elitizada?

Porque nos empenhamos tanto para divulgar a vakinha da fulana, que deseja um parto domiciliar, mas muitas vezes negamos de dar uma palestra sobre parto humanizado na periferia? Ah, porque mulher da periferia não pode pagar o parto humanizado! Sim, eu já ouvi essa justificativa.

Então é tudo comércio? Informamos para depois conseguir “cliente”? Somente por isso?E não para que todas as mulheres tenham informação e se empoderem, sejam donas do seu corpo e das suas decisões?

 

Quando foi que o discurso de que todas as mulheres tenham o direito de um atendimento humanizado, para que todas as mulheres que possam pagar tenham o direito de um atendimento humanizado?

 

 

9 comentários para "Parto Humanizado: Querer ou poder?" | Adicione o seu »

  1. roberta
    dez 12, 2013 @ 20:19 {Responder}

    como sempre,ótimo texto.

  2. dez 12, 2013 @ 22:31 {Responder}

    Oi, Isa. Excelente reflexão. Eu acho que a militância ainda é elitizada, mas eu sinto que o discurso tem mudado e que há um crescente interesse das militantes em se discutir a humanização do parto e a violência obstétrica, de um modo geral, também no Sus. Acho que esse também é o nosso papel como feministas, lembrar que as maiores vítimas desse sistema falido são as mulheres que não tem assistência particular. Essa entrevista é muito boa: http://www.viomundo.com.br/denuncias/alaerte-martins-a-morte-materna-invisivel-das-mulheres-negras.html

  3. Hellyabe Seixas
    dez 13, 2013 @ 08:59 {Responder}

    Absolutamente incrível esse texto, qe análise mais precisa, confesso qe eu jamais tinha refletido dessa forma. Vale a leitura, a divulgação e a reflexão desse texto maravilhoso! PARABÉNS

  4. Ana Paula
    dez 13, 2013 @ 10:02 {Responder}

    Perfeita reflexão. Eu não sou militante. Me aproximei dos debates do parto humanizado, mais como leitora, depois que me tornei mãe e vi desajustes na forma como minha filha nasceu (cesárea) e como fui tratada no pós-parto (falta de humanização).
    E a constatação que sempre fiz é esta mesma: só tem parto humanizado quem tem dinheiro para bancá-lo. Sempre achei muito injusto isto, porque na prática todo mundo tem o direito de ser bem tratado, acolhido.
    Eu gostaria muito de passar por um parto respeitoso na minha segunda gravidez e de ser protagonista, mas sinto que o fato de morar em uma cidade pequena é um empecilho a minha escolha. Aqui não tem médico humanizado. Doula? Talvez nunca ninguém ouviu falar. O hospital particular, que atende plano, esta quase fechando. O municipal, que atende SUS, não esta na sua melhor fase…
    Como viabilizar algo onde não se tem as ferramentos necessárias para tal? Esta é uma questão que sempre me faço. Por enquanto, vejo que meu sonho de parto humanizado esta longe de ser real.

  5. Flávia Borba Silva
    dez 13, 2013 @ 13:40 {Responder}

    Uma das melhores reflexões que já li!!
    Como muitas mulheres me informei quando me vi grávida do meu primeiro filho,devorava relatos de parto e me emocionava e ainda me emociono com os vídeos de nascimentos. Bom a base de muito custo consegui um médico humanista,aos 4 meses de gestação que atendia a 160 km da minha cidade, tinha lido tudo sobre ele, mas não rolou empatia. Já na primeira consulta os valores… 6 mil para parto com uma banheira inflável no hospital e 2 mil para fazer por fora,(ele cobraria pelo plano e pagaríamos pra ele depois pelo parto normal hospitalar) e mais 1 mil da doula (que ele só aceita aquela para trabalhar com ele)foi um balde de água fria. Ele atende pelo convênio,mas o parto só pagando por fora. E eu não tinha 3 mil.Me sentí muito mal com isso, revoltada até. Temos plano de saúde porque é empresarial, da firma que marido trabalha e pra quem ganha pouco, não tem como parcelar o parto. Descontinuei o pré-natal com ele,e nesse meio tempo tive Trabalho de parto prematuro e por isso passei o pré-natal para outra cidade um pouco mais próx. (70km ).Resumindo…Não tive parto humanizado,mas tive o melhor parto que eu pude ter,normal,rápido e sem dor.2 hrs depois de a bolsa estourar,sendo 1hr de viagem, sem dor das contrações, meu filho nasceu, escorregou e eu pude ter meu parto, ser protagonista com as condições que eu tinha, com minha realidade financeira. Tenho muita dó das mulheres que de certa forma se encantam com tudo isso,se informam e depois não conseguem ter seus bebes porque não tem dinheiro. É ainda muito triste e comum! É lindo pra quem tem 13 mil pra ter seu parto humanizado feito em casa, ou 9 mil pra quem quer um normal hospitalar, sorte mesmo são aquelas que moram perto de casas de parto, pelo SUS.Mas espero com muita ansiedade que logo todas nós possamos ter parto digno, sem ter que vender um rim pra isso!

  6. Lívia
    dez 16, 2013 @ 07:22 {Responder}

    Oi Isabela!Muito interessante sua reflexão…Mas gostaria de fazer algumas ponderações. Sou assistente social e estudo há muitos anos a questão relações de trabalho, capitalismo e serviço voluntário. Realmente este comentário que o capitalismo que permite a pessoa ter acesso a um parto humanizado é totalmente equivocado!Pelo contrário, é o capitalismo que exclui as outras pessoas, que não são privilegiadas, de terem acesso ao parto humanizado. Se não fosse pelo capitalismo, todas as mulheres teriam acesso a um parto digno pelo SUS. O problema é que não podemos culpabilizar as profissionais que recusam-se em fazer serviço voluntário. São trabalhadoras como qualquer outra pessoa e devem ter seu serviço pago!O que é dever de TODOS os cidadãos é pressionar o governo por um SUS realmente universal e humanizado. E não somente esta politica de humanização repleta de slongans vazios que existe hoje. Precisamos de mais Hospitais como o Sofia Feldman de BH, precisamos de mais Casas de Parto e precisamos que estes não fechem os olhos para a possibilidade de VBAC’s, já que existem evidências científicas que provam o ínfimo risco do procedimento. Hoje vivemos em meio ao neoliberalismo, que prega a necessidade do voluntarismo como forma de desonerar o Estado, passando a responsabilidade deste para sociedade civil. Temos que lutar contra isso!Não é com ONG’s e serviço voluntário que iremos conseguir um sistema social mais justo e sim exigindo do Estado que ele faça o que já está previsto na nossa Constituição!!
    Abraço!!
    Lívia

    • Isabela Kanupp
      dez 16, 2013 @ 09:16 {Responder}

      Lívia, eu concordo em partes com você. Porque a questão citada no caso, não era que a pessoa trabalhasse voluntariamente a vida toda, mas sim perdesse 4 horas do seu dia dando uma palestra para conscientizar, apenas isso. :( Alias, isso acontece muito em Campinas, pessoas que desejam ser voluntárias como doulas etc, e é de uma certa forma excluida por quem cobra, por ser acusada de “quebrar o mercado”.

      E é exatamente isso que vejo, poucos são quem pressionam o SUS – que seria algo mais abrangente -, porque poucos dessas pessoas utilizam o sus, é algo meio que ” garanti o meu, então foda-se o resto”.

  7. Camila
    dez 17, 2013 @ 09:40 {Responder}

    Eu estou grávida. E queria ter um parto humanizado, mas não vou ter, e já sei disso exatamente por causa dos valores que estão sendo pedidos. Não tenho como pagar e não vou me descabelar por causa disso. Já ralo muito para pagar um bom plano de saúde, de mim, não vão tirar quase 4 mil a mais.

  8. dez 24, 2013 @ 08:16 {Responder}

    Isa, flor, só hoje consegui ler o seu post. E achei completamente diferente essa sua crítica pontual e informada, às críticas genéricas e paternalistas das BF, sabe? Você focou e explicicou, está conversando com as ativistas… E elas me pareceram querer impor uma voz de autoridade que eu achei ridícula! Seu post está muito bom!

Deixe um comentário





  • * obrigatório

Warning: Parameter 1 to W3_Plugin_TotalCache::ob_callback() expected to be a reference, value given in /home/parabeatriz/www/wp-includes/functions.php on line 3327