14 jul 2015

O elitismo e a meritocracia no meio ~ humanizado ~.

Post por Isabela Kanupp às 02:50 em Feminismo, Maternidade

O elitismo e a meritocracia andam de mãos dadas nos espaços maternos. É algo fácil de observar, onde procuramos conforto e conselhos a respeito da gestação e maternidade encontramos uma enxurrada de “é só querer”. Além do discurso meritocrático e elitista, podemos encontrar também a culpabilização da mulher, sem ver o contexto social no qual ela está inserida.

Não sou militante do parto humanizado, não é algo que eu me envolva de corpo e alma, como a maternidade feminista, por exemplo. Mas acredito na importância do parto humanizado, a luta contra a violência obstétrica, da questão da via de nascimento, as tantas “opções” existentes (natural, domiciliar assistido ou não, parto normal hospitalar, etc), acredito nas evidências científicas que provam que parto via vaginal é a melhor opção, e sei de todos os benefícios a respeito dos já citados, assim como sei dos malefícios e os por quês da cesárea não ser benéfica, do por quê de não se querer um parto hospitalar. Entendo todas essas questões e me considero uma ativista pela causa, porém o fato do ambiente ser algo extremamente elitista e meritocrático é um dos motivos de eu não ser tão ativa assim.

Eu acredito que não é fácil “peitar” um médico cesarista, não é mesmo. É necessário muita coragem – e isso não significa que quem não o faça, não a tenha – e principalmente informação de qualidade. Mas só “peitar” o médico resolve algo?

Então vamos por partes?

Primeiro precisamos entender que apesar de vivermos em um mundo altamente tecnológico, onde as informações estão ao alcance de um “compartilhar”, isso não é sinônimo de informação de qualidade. É necessário disseminar as informações de qualidade, aquelas que atingem a todos e como fazer isso? Como atingir quem mais precisa? E quem é que mais precisa?
Quem mais precisa não tem acesso a essas informações, quem mais precisa de empoderamento são as pessoas que tiveram o acesso a informação de qualidade negado a vida toda, as mulheres pobres, as mulheres periféricas, as mulheres negras. Alias, quantas mulheres negras você conhece que tiveram um parto humanizado domiciliar planejado e assistido? E quantas mulheres pobres? Quantas mães solteiras e da periferia conseguiram ter um segundo parto, sendo um parto humanizado domiciliar?

Elitismo e a meritocracia

Empoderar uma mulher é dar poder a ela, e dar poder se da através da informação de qualidade. Primeiro precisamos pensar e dialogar a respeito de como é possível dar essa informação de qualidade para quem mais precisa. Existem ótimos blogs que fazem isso, porém quantos blogs conseguem transformar todas essas informações e evidências em algo acessível, em uma linguagem acessível?

Outro ponto importante é que informação não é tudo, informação é algo extremamente necessário mas isso dentro de uma sociedade capitalista não resolve muitas coisas. E por isso não é “só querer”.
Você pode querer muito, do fundo do seu coração, ter tido informação de qualidade, lido a respeito, brigado com o médico cesarista na consulta pré natal, mas se você não tiver dinheiro para pagar por uma equipe humanizada, muito provavelmente você não conseguirá ter um parto humanizado, não com dignidade – coisa que deveria ser intrínseco no humanizado.

Quando eu estava grávida da Beatriz, em 2009, minhas consultas de pré natal eram realizadas na maternidade de Campinas, e um dos motivos de ser lá e não em um centro de saúde, era porque eu era uma gestante de alto-risco. A cada consulta – primeiro mensalmente e depois no final semanalmente – eu era atendida por um médico diferente, eu não sei o nome do obstetra que realizou minha cesárea e lembro vagamente do rosto dele, nunca foi me dito o nome dele, nunca fomos apresentados, assim como toda a equipe. E essa é a realidade da maioria das mulheres que são atendidas através do sistema único de saúde (SUS). Como você vai “peitar” o doutor cesarista se só o conhece dentro do centro cirúrgico?

Muito se fala que o parto humanizado é para todas, que vai muito além de somente se falar de parto normal e parto normal domiciliar, que parto humanizado é o direito de toda mulher. O discurso é ótimo e não tem como eu discordar, porém na prática, as últimas que são acolhidas, são as mulheres dependentes do SUS. Essas mulheres ainda estão parindo na calçada por falta de leito.

Hoje muitas coisas mudaram em relação a 2009, hoje as casas de parto através do SUS existem e são bem mais populares, porém são limitadas. Seja na quantidade de mulheres atendidas, seja no fato de que não são acessíveis. Afinal, algo que só existe em algumas capitais, que é restrito a atender poucas mulheres, não é algo acessível.

Mas ainda hoje existe muita falta de acesso a informação de qualidade por parte de quem depende do SUS, aqui na periferia não existe parto humanizado, em geral as mulheres só conhecem o parto “normatizado”, aquele desde sempre, vezes com mais violência, vezes com menos, mas ela sempre presente. Mas “é normal”, com a mãe foi assim, com a avó foi assim, com a tia foi assim, nascer e fazer nascer dói, é assim que aprenderam. E você quer que elas leiam seu blog com linguagem academicista? Você acha que elas tem acesso a isso?

A luta é sim válida e tem que continuar, mas as pautas dessa luta estão confusas há tempos. Eu não me sinto contemplada por uma luta que foca em permitir a doula entrar em hospital de elite, enquanto a parte pobre das mulheres se quer sabe o que são doulas. Enquanto mulheres pobres e mulheres que depende do SUS ainda estão na luta básica, a luta para não ter uma parto na calçada por não conseguir leito, a luta para que o acompanhante esteja presente na hora do nascimento, a luta para não ter um parto freak. Sei que uma luta não anula a outra, mas é triste ver que toda a mobilização só gira em torno de quem pode pagar por ela, é triste ver que a militância pelo parto humanizado ainda é restrito a quem possa pagar por ele, enquanto as mulheres pobres que se virem com o que tem.

Elitismo e a meritocracia

O porque da minha não militância dentro do movimento do parto humanizado gira em torno da questão: Porque vou lutar pela elite, se a elite não luta por mim? Se minhas lutas tenho que lutar sozinha ou apenas com quem passa pelo mesmo?

A luta pelo parto humanizado não é uma luta de todas, é uma luta de quem pode pagar por ele, de quem pode ter acesso a informação de qualidade. E quem detêm esse poder não está interessado em repassar essa informação de forma acessível, até porque muitas vezes é algo bem distante de sua realidade. Durante um tempo acreditei que essa “compartilhamento de informação” não ocorria por falta de conhecimento, de como falar uma linguagem mais acessível, de até mesmo saber da realidade dessas mulheres. Mas ai vemos militantes muito engajadas em outras causas sociais, que assumem saber de toda a diferença de contexto social, cultural e histórico que existem dentro da nossa sociedade, e mesmo assim continuam não compartilhando essas informações de forma acessível. Então, ingenuidade minha pensar isso.

Quero que vocês entendam que a causa é sim necessária e urgente – principalmente dentro do nosso cenário recordista de cesáreas desnecessárias e violência obstétrica -, a luta é válida sim. Mas a forma como tem sido feita não contempla quem mais precisa. E que apesar de ser uma luta de mulheres não contempla a todas. E o fundamental é entendermos que, por mais que apoiamos uma causa, um movimento ou uma luta, isso não faz com que elas se tornem imune a críticas.

Toda luta social precisa de recorte de classe e raça.
Queremos humanizar o nascimento – e é urgente -, mas como se não humanizamos os tratamentos interpessoais? Se não temos empatia e sororidade com a realidade da outra mulher?

Elitismo e a meritocracia

Escrevo e estou em meios maternos desde 2009, e em todos esses anos eu me deparei com diversos discursos muito problemáticos dentro do movimento de humanização. Relatos de mulheres dizendo que quem quiser paga sim, que é só querer, que doula parcela em 12x, que vendeu o carro para pagar a equipe de parto e que se ela consegue, qualquer uma consegue. Dentro do meio humanizado tem o discurso clássico do: se a elite quer, se a patroa quer, as mulheres pobres começarão a querer também, por ver a patroa e querer imitar. E esse discurso é o pior de todos, por tantos e tantos motivos.

Essa semana a página “O Renascimento do Parto – O Filme” publicou esse print, quem está envolvido no meio “materno” muito provavelmente viu essa imagem circulando por aí, se eu for problematizar ficaria aqui horas, mas de forma resumida: sendo verdadeiro ou não (há quem diga que seja falsa), essa mulher é uma vítima, é notável sua falta de informação de qualidade – dizer que amamentar faz o peito cair, que parto normal deixa a vagina larga-, também é notável como o machismo age com as mulheres em nossa sociedade, com a busca de um padrão de beleza por vezes inalcançável. Resumidamente, essa mulher é apenas uma vítima. Porém essa página resolveu publicar assim como está na imagem aqui, apenas com uns emojis que creio eu, seja para mostrar indignação. 
Indignada estou eu pela falta de responsabilidade dessa página, que principalmente por não ser a primeira vez, novamente instiga as pessoas a culpabilizarem mulheres, sem propor nenhuma forma de reflexão, de problematização. Sem ver nada além de sua realidade privilegiada – assim como retrata o próprio filme.
Nos comentários podemos ver diversas pessoas conhecidas dentro do movimento da humanização e ativistas comentando barbaridades, culpabilizando essa mulher, ignorando todo um fator histórico, cultural e social. Assim como também há profissionais de saúde, esquecendo totalmente sua ética profissional.

Será que é mais fácil promover o linchamento virtual de uma mulher, do que promover um debate em relação a qualidade de informação que recebemos e transmitimos? É mais fácil culpabilizar do que promover a reflexão dentro do público leitor daquela página?

renascimento

Não é a primeira vez que isso acontece nessa página e creio eu não será a última, eu particularmente já tentei entrar em contato, já comentei em diversas publicações, mas o ego que existe ali e a ausência de auto crítica faz com que seja impossível uma retratação.

Sabemos da industria da cesárea que existe, da mercantilização – transformar algo em mercadoria – do nascimento. Mas será que o discurso e as ações dentro do movimento da humanização do parto também não estão passando pelo processo de mercantilização? 

Sei que existem as exceções. Em todos os casos existem. Mas como essas exceções vão lutar sozinhas? Como elas não serão engolidas por todas as academicistas que estudam sobre o tema mas não pisa na periferia?

A mulher da periferia precisa saber que não existe apenas o parto freak normatizado, ela precisa entender que aquilo não é normal – apesar de comum – e é assim que ela gerará demanda por parto humanizado no SUS, mas como fará isso se para ela só existe essa alternativa? Se para ela é isso o que tem pra hoje?

Quando vão parar de embasar seus argumentos com discursos meritocráticos e elitistas? Quando a luta será por todas as mulheres e não apenas por quem pode pagar? Quando o foco mudará?
Quando a linguagem será acessível para qualquer mulher conseguir compreender um texto informativo?

Lutar pelo parto humanizado é necessário, lutar para que toda mulher tenha direito de escolher – ou seja, haja opções acessíveis – onde irá ter seu filho, é necessário. Lutar para acabar a violência obstétrica é necessário. Mas o elitismo e a meritocracia no discurso não é.

 

 

 

 

Outros artigos sobre esse tema:

Parto Humanizado: querer ou poder?
Porque é necessário falar de feminista no espaço materno.
Porque muitos não querem mães informadas?

 

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91 comentários para "O elitismo e a meritocracia no meio ~ humanizado ~." | Adicione o seu »

  1. jul 14, 2015 @ 08:57 {Responder}

    Oi Isa, tudo bem? Bom faz um tempo que eu leio o blog e acho muito interessante a abordagem dos seus textos, por vezes me fazem enxergar um ponto que eu não via. Enfim, em relação a humanização do parto, que é algo que hoje esta me aflingindo muito e faz parte da minha vida. Estou gravida e em busca de um parto humanizado e quando comecei a busca não imaginava que era tão dificil ter acesso. Eu que achava que ter as informações, assisti o doc ” O renascimento do parto” e li tantos e tantos livros e artigos na internet, relatos de partos e acreditava que isso bastava para ir atras de um parto humanizado e descobri que não. Não sou negra e não utilizo o SUS, tenho um plano de saúde bom, um dos beneficios que tenho no meu trabalho. E no movimento muito se diz sobre médicos que só fazem a cesarea pelo valor repassado pelo plano e que absurdo, mas ninguém diz que a consulta com um médico humanizado é um absurdo de caro e não cobre pelo plano, que o parto com o mesmo é o valor de um carro e que não existe outra forma: ou você paga ou não tem parto humanizado. o próprio humanizado deixa de humanizar se não tem dinheiro, assim como os cesarista que tanto eles falam. Eu já tive muitos pesadelos e já chorei muito por pavor de uma nova cesárea e o meu médico do plano já fez um discurso cruel sobre o parto “normal” que ele faz ( ELE FAZ –‘). Então quando eu vi o print na pagina do filme, primeiro julguei e depois parei para pensar que eu estou quase tentando um empréstimo no banco também para poder ter o parto humanizado. Posso dizer que não sou essa mulher que você diz que deva ser atingida pela humanização mas sou a mulher que mesmo tendo sido atingida, me sinto de mãos atadas em relação ao parto. Como se só fosse direito meu um parto humanizado a partir do momento que eu tenho dinheiro caso contrario não tenho como.

    • Isabela Kanupp
      jul 14, 2015 @ 14:13 {Responder}

      Marina, obrigada pelo seu comentário e por abrir um pouco da sua vida aqui.
      É exatamente isso, e dai a gente fica a pensar: se eu que estou em uma situação financeira, melhor do que muitas mulheres, não consigo bancar isso… e essas mulheres?

      Claro que dentro da humanização estão profissionais que estudaram para isso, que é uma prestação de serviço como qualquer outra e que por isso eles tem que cobrar sim. Mas porque cobrar tanto, no sentido de que dá para notar sim, que lucram muito, que aproveitam o nicho que abriu no mercado? Então porque reproduzem o discurso de que é só querer, sendo que não é só querer?

      A luta do parto humanizado tem que ser para todas as mulheres – o que basicamente é um parto não violento -, porém o que chega no sus, o que chega para as classes mais baixas, é só o restinho da luta, só para não ficar feio.

      Eu espero que você consiga seu parto humanizado, e espero que, daqui uns anos, isso seja tão normatizado que ninguém precise se preocupar em vender até a alma para pagar um!

      Beijos

      • Lívia
        jul 20, 2015 @ 11:52 {Responder}

        Concordo com vc, mas seus posts tb pressupõem que todo mundo sabe o que são alguns termos…Exemplo: o que é parto freak?!

        • Isabela Kanupp
          jul 21, 2015 @ 00:53 {Responder}

          Lívia, no próprio texto eu explico o que é um parto freak. :)

    • HALLANA MIRANDA
      jul 14, 2015 @ 23:18 {Responder}

      Gente, estou me sentindo por um lado grata e por outro, triste. Sou gestante do SUS em Ponta Grossa/PR, cidade na qual o trabalho do parto humanizado é tão denso e compromissado por alguns profissionais de saúde que conseguimos ter parto domiciliar com atendimento humanizado no SUS e com equipes hospitalares no SUS mais especializadas em humanização. O único lugar em que não se consegue ter um parto humanizado é no plano de saúde, em que os médicos não o fazem! Minha cidade tem 400 mil habitantes e somente dois médicos fazem o atendimento humanizado! Os dois atendem pelo plano de saúde, mas são absurdamente criticados. Aqui a humanização não se trata de elitismo das gestantes, mas de elitismo dos profissionais…É uma realidade triste e nesse ponto concordo com o artigo do blog que a humanização do nascimento não pode ser reservada à apenas uma parcela. Aqui em PG criou-se uma ONG de proteção à maternidade, fundada pelas doulas e obstetrizes, em que todas as camadas são orientadas. É um trabalho bem inicial, mas eles já conseguiram por em votação muitas leis à favor das gestantes…o que dá amplitude ao trabalho. É sim um assunto a ser tocado, debatido, discutido e amplificado. Se não o debatermos porque ele está, na maioria das cidades, reservado à uma minoria com acesso ao dinheiro…a maioria que não tem esse acesso nunca terá esse direto? Na verdade o que temos não é um grande problema na saúde, dos padrões de nascimento, nas crenças. Nem um obstetra particular que não tenha profundo comprometimento, nem um do plano de saúde ou um do SUS terá comprometimento em aguardar um trabalho de parto. Não passa apenas pela questão do dinheiro, mas pela cultura do nascimento…Quem se comprometerá verdadeiramente conosco gestantes?? Afinal o profissional ganha muito mais se não o processo for célere! A mim, graças a Deus, isso será possível, sem que eu tenha que ter mais ou menos dinheiro…mas isso porque aqui existem profissionais que se dedicam a esse trabalho. Minha crítica não é a quem opta pela humanização e pode pagar mais caro, mas ao profissionais da medicina e obstetrícia que não se comprometem conosco em tornar respeitosa a nossa grande passagem pelo parto e pela maternidade!!

      • Isabela Kanupp
        jul 14, 2015 @ 23:37 {Responder}

        Hallana, muito obrigada pelo comentário e contar um pouco de como é aí. Sim, alguns locais pelo Brasil estão anos luz do que outros.

        A questão não é a crítica a pessoa que pode pagar pelo humanizado, pelo domiciliar. Mas pelo fato de que, na maior parte do Brasil, só tem acesso quem pode pagar, então o discurso do “humanizado para todos” se torna um discurso demagogo, entende?

        Abraços.

  2. Tainá
    jul 14, 2015 @ 10:08 {Responder}

    Grata pelo texto. Diz muito do que acredito. E me faz lembrar de espaços, projetos e mulheres que estão na humanização da periferia. Aqui em Brasília, existem projetos que tramitam para exigir que hospitais públicos com maternidade tenham plantão de doulas, inclusive parte de uma das formações de Doula daqui exige um estágio em hospitais públicos. Existem rodas na periferia, a grande maioria das todas na cidade não são pagas, existem aulas gratuitas de yoga em hospital público e fisioterapia também, e tem mulher que poderia pagar que acaba optando por utilizar o sistema público por ser tanto melhor (mais humanizado) que o privado. E algo interessante que pouco se fala no discurso da humanização são as parteiras tradicionais, profissionais que provavelmente estão mais próximas das periferias do que qualquer outra para tratar de parto, será que não falam porque? Porque quando cobram, cobram manos do que se pagaria por uma compra no mercado? Enfim… Trago esses exemplos não para desvalidad o texto. Muito pelo contrário. É para mostrar que existe SIM maneiras de lutar por todas. E que o parto e a gestação não pode nem deve ser elitizado, muito menos almejado como um novo sapato ou corte de cabelo, ditado pelas elites ou estrelas (atrizes, modelos…), de cima para baixo como uma moda que já já passa, superficial e rasa, ou seja, completamente distante do que uma experiência de parto pode proporcionar.

    • Isabela Kanupp
      jul 14, 2015 @ 14:33 {Responder}

      Tainá, eu já pensei sobre tudo isso, eu tenho exemplos próximo de mulheres da família – acredito que todas nós temos – que tiveram muitos filhos com o auxílio da tradicional parteira. Durante um tempo eu ouvi muito o discurso de que isso não era correto, porque as parteiras não tinham formação, hoje esse discurso não é mais tão presente, mas ainda acontece. E eu sempre pensava isso que você disse: porque será que desvalorizam tanto as parteiras tradicionais? Sem contar que por si só já é um elitismo, porque para ser algo válido tem que pagar, tem estudos teóricos e não vivência?

      Quando coloquei o tema lá na fanpage do blog, uma moça muito ativa na humanização, comentou exatamente esse “argumento” que sempre usam, que vai vir de ciam para a baixo, que a mulher pobre vai ver a rica fazendo e querer também, e isso é tão absurdo de tantas maneiras, que olha!

      Obrigada por comentar e compartilhar um pouco do seu conhecimento comigo. Acredito sim que a luta tem que continuar, mas que a luta tem que ser principalmente na periferia para as mulheres que mais precisam. Espero que um dia essa luta não seja mais a exceção.

      Beijão.

  3. Pri Rocha
    jul 14, 2015 @ 10:20 {Responder}

    Concordo com muitas partes do seu texto. Que o movimento precisa ser para todos, é fato. Agora não entendi bem essa crítica quanto a indignação compartilhada pela página renascimento do parto. É algo que indigna mesmo, o nível de futilidade, ao meu entender, para se procriar o essencial é ser bicho, se entregar a sua essência mamífera e bicho de fato não se preocupa com certas futilidades, muito pelo contrário, focaliza sua energia em manter a cria viva e forte, que para nós humanos significa também ser alimentos de amor e afeto positivo. Posso estar equivocada, mas o egocentrismo dessa mulher dificultará sua entrega a maternidade. E é por isso que quem escreve o renascimento ser indigna. E acredito que o movimento só é elitista por ter origem elitista e com isso tem e terá por muito tempo esse ranço. O que não quer dizer não pode crescer e abraçar a todos. Apenas um relato breve, quando quis parir em casa a três anos atrás, não tinha casa nem dinheiro mas conseguiu, pari na casa da enfermeira obstetra que conheci e aceitou me receber já com quatro cm de dilatação, sabe pq consegui isso? Pq quis muito, tanto, que o universo conspirou!!!!

    • Isabela Kanupp
      jul 14, 2015 @ 14:20 {Responder}

      Pri, tudo bem?
      Bom, não sei se conseguirei te explicar tudo aqui nesse comentário, porque é realmente complicado.

      Sim, eu entendo que parir, passar por uma gestação, é se conectar com nossa essencia, que essas questões estéticas são futilidades e tudo mais. Isso, ao meu ver. Porém eu não posso ignorar que vivemos em uma sociedade machista, onde objetificam o corpo da mulher desde que ela nasce praticamente, onde somos bombardeados por todas as mídias que temos que ter um “corpo ideal”, que mulher bonita é dentro daquele padrão pré-estabelecido. Então sim, a grande maioria das mulheres – se não todas – buscam esse padrão: seja consciente ou inconscientemente. Então, esse print ai, ´so mostra como essa mulher é apenas mais uma vítima dessa sociedade machista, afinal, ela quer fazer algo por um padrão de beleza, apenas isso.

      Porém também notamos como essa mulher não teve um acesso a informação de qualidade, afinal, se tivesse saberia que não é o ato de amamentar que faz o peito cair e nem o parto normal faz “alargar” a vagina. Então, dá para notar que ela não tem informação de qualidade, o que expliquei nesse texto mesmo, que é um problema sistêmico e social. Sim, ela também é vítima.

      Basicamente é isso, mas tem tantas coisas ai nesse meio. E o principal: qual a necessidade de colocar mulheres uma contra as outras, nesse eterno julgamento de “não é digna de ser mãe”? Como a página de um documentário sobre uma visão diferente do parto, não deveriam informar ao invés de colocar mais lenha na fogueira sem nenhuma reflexão?

      E por fim: não podemos basear toda uma sociedade em uma exceção, alias, isso é justamente meritocracia. O fato de UM conseguir – por n motivos – não faz com que seja “só querer que qualquer um consegue”. Fico muito feliz por você ter conseguido mesmo com tantas situações desfavoráveis. Mas tenho certeza absoluta que não foi só porque você quis muito, você tinha informação, tinha contatos, no mínimo isso. Sem contar outras questões. E mesmo se fosse uma questão de super esforço, é injusto colocar isso para todas as mulheres, como métrica de sucesso.

  4. jul 14, 2015 @ 11:35 {Responder}

    Adorei.
    Eu me considero bem ativista do parto humanizado, é uma causa que gosto muito, leio muito, converso com amigas tentantes e grávidas. Mas concordo com tudo que tu falou.
    No fim das contas o parto dos sonhos, não está nas mãos de Deus, na força de vontade da mãe e sim está na grana. Todos os relatos lindos de parto pode reparar: a mulher contrata a Obstetra, a enfermeira, a doula e o pediatra. Isso seja um parto domiciliar ou hospitalar. Uma grana do caramba!
    Eu por exemplo, não tenho como pagar por nada disso. Eu tenho convenio e vou tentar a sorte com um plantonista. Eu não me sinto acolhida nos grupos de parto humanizado, porque o “certo” é contratar equipe, ter em casa com equipe particular ou ter no SUS. Escrevi sobre isso aqui: http://bruniceseafins.blogspot.com.br/2015/06/porque-precisamos-que-o-obstetra-que.html
    Adoro seu blog, bjs.

    • Isabela Kanupp
      jul 14, 2015 @ 14:22 {Responder}

      Carolina, tudo bem?
      Esse é o ponto né? Na teoria é muito legal, válido e uma luta bacana. Mas na prática, ainda é somente quem possa pagar. E os militantes mais notórios dentro do movimento, mal fazem algo pela periferia, no sus, etc. E dai o sus fica na mão de quem depende do sus. Faz como?

      Vou ler seu texto, obrigada por compartilhar.

      Beijos

      • Leila
        jul 17, 2015 @ 09:29 {Responder}

        Deixa eu ver se eu entendi: Você tem compaixão pelas mulheres negras, mulheres de baixa renda, da periferia, mulheres da elite que tem acesso a informação e gastam com cesárea pra preservar o corpo, mas não tem COMPAIXÃO pelas pessoas que estão enfiadas até o talo no movimento, fazendo tudo que podem dentro do limite delas porque você ACHA que elas poderiam fazer mais? Entendi você. Num ato assim, simplista, como você entendeu as ativistas. Quem está colocando mulheres contra as outras ?

        • Isabela Kanupp
          jul 17, 2015 @ 16:29 {Responder}

          Leila, em momento algum eu digo que de forma pessoal as pessoas poderiam fazer mais, acredito que voc~e precisa entender melhor sobre interpretação de texto.

          A questão aqui está no coletivo/social e não no individual. O movimento, por si só, é elitista. As pessoas dentro dele, podem ou não ser, podem ou não fazer. Assim como ao final do texto eu contemplo as pessoas que de fato, fazem. :)

          Alias, o movimento – infelizmente – não é composto apenas de mulheres, então não dá para avaliar uma texto crítico como forma de colocar “mulheres como mulheres”.

  5. Tatiana Dimov
    jul 14, 2015 @ 12:03 {Responder}

    Oi Isa, eu sou do Forum pela Humanização do Parto de Campinas. A gente tem feito essa discussão enquanto fórum e seria legal se vc pudesse contribuir. Temos lutado pela implementação de um forum perinatal no municipio de campinas, que é o espaço legitimado pelo ministerio da saude, onde o controle social pode se posicionar em suas reivindicações diante da gestão e dos trabalhadores (ou seja, onde as mulheres usuárias do sus poderiam colocar suas pautas enquanto usuárias dos serviços de atenção ao pré natal e parto). Mas não temos tido muita adesão das mulheres nesta luta. Além disso, esse ano estamos realizando curso de formação de duas turmas de 50 doulas comunitarias, para poder acompanhar e fazer a formação política das mulheres que são usuárias do SUS. Apostamos nessa ação para que as mulheres possam conhecer seus direitos e ter maior acesso à informação.

    • Isabela Kanupp
      jul 14, 2015 @ 14:08 {Responder}

      Tatiana, eu fiquei sabendo desses foruns que estão sendo realizados, fiquei sabendo ontem através de uma leitora do blog. E dai eu fico pensando: se eu que me considero alguém com acesso a informação, fiquei sabendo disso apenas ontem, e quem não tem esse acesso?

      Entra em contato comigo para conversarmos – inclusive sobre o lance de doulas comunitárias -, porque tenho interesse tanto em participar dos foruns quanto colaborar como possível. :)

      Abraços.

  6. jul 14, 2015 @ 12:13 {Responder}

    Disse tudo. O movimento pela humanização do parto, pelo menos aqui no Rio de Janeiro, tem como foco as mulheres que tem plano de saúde ou muito dinheiro para pagar um parto em casa. Eu costumo dizer que não existe parto humanizado e sim parto elitizado. Digo que a concepção do que é do humano está sendo banalizada. Humano tem a ver com o que é coletivo, somos humanos por fazermos parte de uma humanidade, no discurso da humanização do parto virou algo individual e privilegiado. Eu pari em uma maternidade pública dita humanizada, aqui no Rio e vi mulheres (adolescentes) sendo mal tratadas ali dentro. Entretanto as mulheres brancas de classe média que não conseguem parir na rede privada tem nessa maternidade um local de refúgio. O próprio SUS discrimina com base na cor e classe social e o movimento ignora isso ao ficar elogiando essa maternidade.
    Também vejo muita contradição na atuação das doulas, ora são militantes, ora formadoras de um nicho de mercado. Isso é confuso. Eu tive o privilégio de ter doula (é caro, mesmo parcelando tá fora da realidade das mulheres pobres) e sofri discriminação pois no Rio dificilmente as doulas querem vir no bairro em que eu moro. Minha doula e a doula de backup eram de outras cidades.

    • Isabela Kanupp
      jul 14, 2015 @ 14:28 {Responder}

      Guaraciara, há um ano mais ou menos, fui em um evento contra violência contra a mulher na Unicamp, era organizado pelo movimento negro e foi lá – depois de anos conhecendo e no meio humanizado – que ouvi pela primeira vez uma problemática sobre violência obstétrica pelo viés da mulher negra. Nunca tinha ouvido antes e nem fazia ideia, de como a violência obstétrica com a mulher negra é totalmente diferente – tem aquela coisa de deixar a mulher negra e não atender, porque mulher negra é “forte” e “naturalmente aguenta mais a dor” -e até hoje foi em pouquíssimos ambientes que ouvi essa problematização, ignoram completamente e colocam todas as mulheres no mesmo pacote, como se a luta abrangesse a todas elas.

      Eu não teria condições de pagar uma doula nem em outra vida, até mesmo as mais em conta que já achei – pesquisando sobre o tema e conversando – eu não conseguiria pagar. Acredito sim que é o trabalho delas, que custou grana o curso, que o tempo é dinheiro e tudo mais. Mas mesmo assim, acredito que está muito acima do que deveria ser cobrado e do que a maioria das mulheres podem pagar.

      Beijos

      • jul 14, 2015 @ 16:05 {Responder}

        Sim. A violência obstétrica é bem específica para a mulher negra. Aliás enquanto a mortalidade materna entre as mulheres brancas diminuiu entre as mulheres negras cresceu. Está em 60%!!!!. O movimento pela humanização utiliza-se de um argumento no qual o sofrimento é de todas e só luta pelas mulheres da classe média. Vi que na programação do SIAPARTO não havia nenhuma mesa sobre a questão da mulher negra.

        Uma das coisas que eu não gosto no discurso sobre as doulas é o de você ter que ter uma para não sofrer violência obstétrica. Isso é persuasão. As mulheres não devem depender de uma doula para isso. O parto respeitoso deve ser um direito independente de com quem a mulher esteja na hora do parto. Acho que a profissão doula se for séria deve visar o próprio fim, já que se o empoderamento das mulheres realmente acontecer (mesmo que em um longo prazo) elas terão condições de se apoiar e de se sentirem seguras sem ter a obrigatoriedade de ter uma doula. Essa questão do preço, eu acho que tem a ver com o público para o qual as doulas se voltam que é a classe média, acho que não está no horizonte delas atender mulheres pobres, só se for na hora do estágio…então acho que não tem jeito…

        • Isabela Kanupp
          jul 14, 2015 @ 16:41 {Responder}

          Guaraciara, concordo com tudo. Mas só um adendo: eu acredito que, com o empoderamento da mulher, deveria ter o empoderamento também para que todas fossem doulas. Mas não essa coisa que só é doula quem paga caríssimo para isso, mas a amiga que dá amparo emocional e por ai vai. Todas deveriam ter esse preparo para ajudar outras mulheres, assim como acontece em aldeias, assim como acontecia com nossos antepassados.

          • Anônimo
            jul 15, 2015 @ 10:55 {}

            É verdade. O conhecimento que as doulas possuem é um conhecimento que tem que ser de todas, porque é de todas, foi apropriado… Bem lembrado…gostei desse toque…

  7. Dulce
    jul 14, 2015 @ 14:25 {Responder}

    Eu acho válida a sua reflexão, mas pelo menos aqui em Florianópolis a luta pelo parto humanizado é pra todas sim. A luta tem sido levar o parto com respeito e com protagonismos da mulher para dentro do sus, hospitais públicos… E isso já está acontecendo. Outra luta bastante democratizadora é em relação ao projeto de lei que tem pra permitir a presença da doula nos hospitais públicos. Ou seja, se está promovendo o acesso a todas as mulheres – as que têm plano de saúde e as que utilizam o SUS.

    • Isabela Kanupp
      jul 14, 2015 @ 14:39 {Responder}

      Dulce, eu vi as fotos de uma palestra sobre isso que rolou em Florianópolis e em vários locais do Brasil, realizada por uma pessoa bem conhecida no movimento: não existia uma mulher negra na plateia.

      Então não, ainda não é para todos. O que vemos no SUS é tão pouco e pequeno, é tão restrito, é tão difícil acesso, que continua não sendo para todas.

      Claro que existem lugares que a luta está bem mais evoluida e implementada no SUS do que em outros lugares, mas será que todo lugar é assim? Será que a´te mesmo ai, na periferia, é tão igual quanto no bairro rico?

      Beijos

      • Anônimo
        jul 18, 2015 @ 21:55 {Responder}

        Não estou dizendo que todas já têm acesso a isso. Mas estou dizendo que a militância é para que o parto humanizado, respeitoso, seja pra todas, sim! Sei que isso não acontece em todos os lugares, mas não se pode generalizar o parto humanizado como parto elitizado. A luta é “por todas as mulheres e não apenas por quem pode pagar”. Esse é o ideal que se quer alcançar, que quem é ativista almeja. Então há que se ter cuidado para não menosprezar a militância dizendo que esta “embasa seus argumentos com discursos meritocráticos e elitistas”. Não é o que eu vejo.

        • Isabela Kanupp
          jul 19, 2015 @ 02:38 {Responder}

          Anónimo, quando os discursos são rodeados de “é só querer”, “vende seu carro”, “faz uma rifa”, “mulher tem que se informar, se sofreu VO é por que não se informou”, então sim, são discursos meritocráticos e elitistas. Claro que existe sim uma parcela do movimento no qual faz recorte de classe e raça, mas isso ainda é muito raro, a grande parte se baseia nisso. E é incoerente, por que, se buscamos a humanização para todos – e sei que o discurso e a vontade é essa -, ai que critico no texto, o foco está errado e deixando tudo bem incoerente. Já que a solução não é simplesmente criar alternativas para que não sofram isso no SUS, e deixar quem depende – e só tem o sus como opção – se fodendo. Sim, existem as mudanças sendo trabalhadas no SUS, mas é algo tão recente – sendo que, a militância está ai sim, há mais de uma década, agora está apenas mais popularizada por questões da internet – que da para notar que não é uma prioridade do movimento.

          O argumento é que, começa pelas classes mais altas, para a classe mais baixa ter vontade por ver a “patroa tendo bebê em casa”, ou até mesmo a modelo/atriz. É a teoria da demanda. É óbvio que é necessário demanda para o SUS e os nossos governantes fazerem algo, porém existem outras maneiras de criar demanda sem ser de uma forma absurdamente elitizada. Uma maneira é levando informação de qualidade a quem mais precisa, quem depende do SUS, para com a consciência, essas mulheres se tornarem demandas.

          Abraços.

    • jul 14, 2015 @ 16:21 {Responder}

      Eu acho que essa melhoria do SUS não vai adiantar se não considerarmos que dentro desse sistema existe preconceito racial e de classe. Aqui no Rio por exemplo o SUS tem uma só maternidade e uma só casa de parto humanizadas, mas a diferença de tratamento que dão as mulheres é gritante. Se você chega com doula é tratada de um jeito, se você chega sem doula e é pobre e é negra é tratada de outro. Então a questão da humanização é muito mais complexa do que só equipar o SUS, do que só deixar a mulher ter doula e parir na posição que quiser, e o movimento tem que entender que precisa fazer o recorte. Aliás não sei até que ponto o movimento é responsável pelas iniciativas no SUS, já que as mulheres negras denunciam a violência obstétrica e o racismo institucional no SUS há anos, e a ONU vem cobrando o governo brasileiro quanto a alta taxa de mortalidade materna e cesarianas há muito tempo também…

  8. jul 14, 2015 @ 15:35 {Responder}

    Oi Isabela, tudo bem? Excelente texto! Até ler seu texto eu não conseguia verbalizar meu incômodo em relação a esse discurso do parto humanizado. Você deu nome aos bois, elitismo e meritocracia, e tocou num ponto que muita gente prefere fechar os olhos e pensar que a humanização do parto é para todas; que basta querer, basta se informar, basta peitar como você mesma disse acima. Sabemos que a vida não se basta, que não é preto no branco. Culpar a mulher, ridicularizá-la e diminuí-la só aumenta o fosso da diferença social e cultural em que muitas delas se encontram.
    Eu tive doula, pari naturalmente num hospital bacana, mas sempre me soube uma exceção. Os meios que circulei pra ter esse parto me mostraram que isso tudo estava longe de ser para uma massa.
    Nem tampouco me acho diva, foda ou qualquer outra coisa que o valha por ter parido com doula,sem anestesia, sem episio e por ter amamentado meu filho. Esse endeusamento da mulher que passa pelo parto natural humanizado também me incomoda.
    Acho extremamente válida a discussão e todo movimento de humanização do parto, mas talvez o movimento (ou algumas pessoas dentro dele) tenha perdido um pouco da essência primeira, talvez o feminino e a mulher estejam num segundo plano, talvez…
    Um forte abraço e obrigada por ter esse blog!

    • Isabela Kanupp
      jul 14, 2015 @ 16:43 {Responder}

      Oi Gabriela!

      Então, eu acredito que essa essencia que você citou, ficou na teoria e nunca foi colocada em prática, talvez algumas exceções apenas. O fato é que, enquanto não houver dentro desse movimento um recorte de classe e raça, não haverá mudanças. Porque mulheres não são todas iguais, como o movimento coloca que seja, tem sim suas diferenças sociais e culturais.

      Abraços e obrigada. :)

  9. Ana Rachel
    jul 14, 2015 @ 18:57 {Responder}

    No estágio em que se encontra o capitalismo hoje tudo se torna ou se tornou mercadoria. É impossível não acharmos a mão do mercado em qualquer momento da nossa vida. Queria chamar atenção para algo que acho extremamente importante na medida em que nos propomos sair da superfície das coisas, buscando nos aproximar da realidade concreta aonde as relações humanas acontecem. Fiz recentemente um curso de formação em doula, e o que me chamou atenção foi a presença frequente do termo empoderamento. Para mim ficou claro nos 04 dias de curso, e agora lendo seu texto com as críticas (muito bem vindas) acerca do viés elitista do parto humanizado, e sabedoras de que todas as mulheres sofrem opressão, por conseguinte, e apesar do seu caráter privatista na medida em que somente algumas (as que podem pagar) terão acesso ” a sua boa hora”, ainda assim, para estas, o conceito empoderamento se mostra limitante, como seja. Vou melhorar isto: dado ao seu próprio traçado individualista, o EMPODERAMENTO (mais parece uma criança mimada que ignorando o contexto a sua volta, sobre, sob, de um lado, do outro, fica a esbravejar pelos ares), em si tratando das mulheres trabalhadoras, seria risível, se fosso trágico. O problema é que atribuímos poder demais a informação, como se tudo dependesse dela, de se ter acesso a ela e tal.Mas coisa se torna perversa quando nos referimos as mulheres que se encontram em situação de maior fragilidade social(negras, pardas, por excelência) já que, NÃO BASTA ser informada, tem que ter a boa informação. Esse é o caráter limitador desse conceito. Ele não dá conta da realidade das mulheres numa sociedade regida pelo patriarcalismo a milhares de anos, e que no Capitalismo assume seu caráter mais opressor, mais violento, mais misógino na medida em que machismo, racismo se torna instrumento de primeira ordem para a extração de mais valor mais valia/valor.Estamos falando de “poder” numa sociedade em que não podemos. Daí chamo atenção para a fragilidade/superfície desse conceito. É isso. O feminismo numa perspectiva pequena burguesa não passa de perfumaria.

    • jul 15, 2015 @ 13:30 {Responder}

      Obrigada Ana Rachel. Também tenho um incomodo com o termo empoderamento mas não consigo explicar.
      Esse texto da Isa está lindo. Não paro de pensar nele. Já tá dando tilte na minha cabeça.

  10. Luna
    jul 15, 2015 @ 00:57 {Responder}

    Sabe, fico pensando se essa elitização na luta e assim, na concretude da possibilidade do parto humanizado, não está relacionada ao fato do movimento ser composto e tocado, basicamente, por profissionais da área. Que acha?
    Me incita muito a discussão e a importância de tentarmos entender que a luta pelo parto digno vai além deste período de gestação, puerpério e pos parto. É direito da mulher, da criança que nasce, do grupo familiar que pertencem e da sociedade que compõem!
    Gratidão pela partilha das ideias =)

    • Isabela Kanupp
      jul 15, 2015 @ 04:19 {Responder}

      Luna, mais ou menos isso. Rolou aqui nos comentários sobre o fato de muitas doulas não reconhecerem as parteiras tradicionais, como alguém capaz de auxiliar em um processo de parto, e dai entra o academicismo né? Porque não aceitam? Por elas só terem vivência e não terem pago (caríssimo, diga de passagem) por um curso de doula? O movimento é composto por seus principais militantes e nomes, que são pessoas que fazem parte da elite, pessoas com mil graduações (e que nunca pisam na periferia) e por ai vai. É ingenuidade nossa esperar que não fosse elitizado né?

  11. Luna
    jul 15, 2015 @ 01:01 {Responder}

    Claro que a elitização tem diversos outros componentes, além da composição do grupo. A forma de organização politica e econômica está diretamente relacionada nas reproduções da segregação. Porra de mundo bosta!

  12. Julia
    jul 15, 2015 @ 07:18 {Responder}

    Só não gostei da parte em que vc não está presente na luta.
    Fui bastante contemplada pelo seu texto e é isso que mais me aflige na luta pelo parto humanizado. Me capacitei como doula há pouco tempo exatamente por ver que as mulheres que mais precisam de informação são as que menos possuem acesso.
    Querer não é poder. E a mercantilismo do parto humanizado me incomoda ao extremo! Relega a mulher pobre e negra a violência e a de classe média (que não é tão média assim) que paga plano à cesarea desnecessária.
    Bjo e nos vemos na luta!

    • Isabela Kanupp
      jul 15, 2015 @ 19:23 {Responder}

      Julia, eu estou presente na luta. Mas da minha maneira, da maneira que encontrei e onde consigo levar a informação que tenho para quem não tem. Não vejo como acréscimo minha presença nos meios de humanização, onde quem pensa como eu, é uma minoria. Assim como não vejo como acréscimo ir manifestar na paulista para doula entrar no bairro rico, dentro de um movimento que acho elitizado e que não tem me contemplado. Mas aqui no meu bairro, na minha região, na minha “área” tenho tentado sim fazer mudanças mesmo que pequenas.

      Eu já pensei em me capacitar como doula, mais para aprender mesmo e conseguir transmitir o ensinamento. Mas novamente, é elitizado, porque custava muito caro, não era viável para mim. Espero um dia conseguir fazer sim – apesar de não ser o grande objetivo da minha vida -, mas com esse intuito de conseguir transmitir a informação com mais propriedade.

      Beijos Julia.

  13. jul 15, 2015 @ 09:47 {Responder}

    Por essas razoes fui silenciada, bloqueada por ativistas bem reconhecidas… esse post que ja compartilhei ja foi tb silenciado…

    Ja questionei tb muito a pagina e os atos do renascimento do parto, sobre inclusivo a maneira do filme sendo distribuido de maneira comercial e exclusiva e apesar de ter conseguido muita grana das usuarias…

    • Isabela Kanupp
      jul 15, 2015 @ 19:24 {Responder}

      Regine, isso também é um ponto né? Claro que fazer um filme daquele porte vai uma grana, mas houve colaboração de quem tinha interesse em vê-lo né? E hoje é um super comercio, com certeza um lucro absurdo devem ter. E para nem ser tão bacana assim.

  14. jul 15, 2015 @ 09:52 {Responder}

    Isabela, parabéns pela coragem de falar deste assunto, com tanta propriedade!
    À luta sempre, irmã, por todas!!

    • Isabela Kanupp
      jul 15, 2015 @ 19:24 {Responder}

      Deborah, na luta sempre! <3

  15. Telma
    jul 15, 2015 @ 11:29 {Responder}

    Parabéns pelo texto, Isabela! Conseguiu realmente olhar para o assunto com olho clínico, como deve ser visto e abordado. Muito tranquilizante saber que a luta tem pessoas conscientes como você. Continue escrevendo.

    • Isabela Kanupp
      jul 15, 2015 @ 19:20 {Responder}

      Obrigada Telma, fico feliz que tenha te ajudado, esse é o objetivo do texto. Beijos

  16. Silvia
    jul 15, 2015 @ 12:11 {Responder}

    Oi Isabela!
    Há uma luz no fim do túnel! O município do Rio de Janeiro conta com um programa incrível que promove o parto humanizado nas maternidades públicas da cidade, que atende juntamente as mulheres negras e pobres. Uma amiga pariu lá e fiquei muito impressionada com o que vi. Mulheres sendo tratadas com muito carinho e respeito, um ambiente limpo e acolhedor. O parto da minha amiga foi humanizado, com pouca luz, sem anestesia etc. Além disso aqui no Rio tem uma casa de parto pública em um bairro da periferia, onde só são feitos partos humanizados. E obviamente atende principalmente a classe menos favorecida. Tudo isso foi conquistado por muita luta de mulheres feministas dentro e fora da Secretaria Municipal de Saúde. Concordo com você que esse é o caminho: sairmos do papel e ganharmos voz. O Rio é o exemplo de que isso dá certo!

    • Isabela Kanupp
      jul 15, 2015 @ 19:26 {Responder}

      Oi Silvia!

      Então, se não me engano na cidade de São Paulo também rola isso, esse caso do Rio de Janeiro uma moça comentou na fanpage do blog de como rola, e achei bem legal. Mas assim, fora isso, não há mais nada. São o que? Duas, três casas de parto, que ñao dão conta da quantidade de mulheres que temos.

      E acredito que a maior luta, mais do que a luta teórica, a luta ali nas leis, é a luta da população que se faz presente. E para se fazer presente, é necessário estar consciente, consciente da violência que sofrem, consciente que existe alternativa, consciente que não precisa sofrer pra ter filho. Mas para elas deterem esse conhecimento, alguém precisa passar a elas. E como? Se quem tem mais conhecimento para isso não se sujeita a pisar na periferia? Dai fica difícil né? :/

      Beijos

      • Paula
        jul 16, 2015 @ 14:26 {Responder}

        Oi Isabela, bom texto, ótima discussão pós post. Partilho de vários desconfortos que cita, e acho ótimo poder me questionar o qto agrido ou já fui e sou agredida, mas como disse umas das meninas isso é um mal social q está arraigado, por enquanto espero. Para mim só encontro a forma de começar por mim, tb não me sinto a vontade em me unir a grupos como oq cita, mas acredito em fazer da forma q eu puder, sei q assim é trabalho de formiguinha, que atingir aqui minhas primas, amigas,colegas e aquelas pessoas q encontro sejam homens ou mulheres q creem em muitos mitos por falta de informação, álias sou a chata para alguns mas não vejo pq guardar a informação para mim se noto abertura falo e incentivo, não pq sou melhor mas pq sei q existe algo a diferente doq foi citado, como mulher, como agente humana não posso aceitar discurso de violencia por falta de informação, sei q eu mesma o faço mas qdo informada disto vou refletir e tentar mudar oq for necessário por isso meu interesse por seu texto, pode ser pouco para alguns, mas vejo q pode ser a partir da demanda crescente na perifiria q tenho acesso onde moro q a coisa se espalhe viralmente e q o SUS e os outros se vejam obrigados a buscar outros caminhos. Partilhando um pouco do meu ponto de partida Eu cai de paraquédas do encontro com as possibilidades e o gde amor q pode ser vivenciado no parto antes de ser mãe por simples interesse como mulher em entender o Amor, a não competição, o encontro e o auxilio e daí de forma interessante descobri voluntariado em hospital público me perguntei q será isso, não sei mas mesmo se for só para pegar na mão estar ao lado e olhar no olho qro estar, como pode uma mulher passar todo o parto sozinha, fui como acompanhante amiga e só depois de um tempo após pressões. E a invasão da pressão mercantilista. Eu fiz uma formação de doulas q não acho q é mais necessária doq a experiencia e a busca por conhecimento, álias mesmo q muuuitas discordem não acho q está certo classificar a doula como profissional da saúde, isso elitiza e desclassifica o papel daquela q qr cuidar e poiar, como citou bem, fui para a formação ciente q somente necessitava do certificado para poder entrar em alguns hospitais publicos do interior e apoiar voluntariamente quem me quizesse e eu pudesse acolher e tb para evitar ser agredida por outras mulheres e profissionais q ali estão q possuem a necessidade d perguntar(daí para mais) “escuta q se ta fazendo aqui, tem formação do que!” Como se dissesse a gestante q estava comigo escuta ela não tem certificado então não tem como te apoiar, eu escolhi gastar grana pq realmente é caro pq qria na hora q qria o curso, paguei em não sei qtas parcelas e acho isso nada legal, mas foi oq deu certo para mim, mas aqui em minha região descobri q se esperasse o tempo q o Hospital local desejasse eu poderia ter este bendito certificado de graça, mas a pressa me corroía. Mas até hj me indigno pq para que esse certificado, sério? Claro foi bom o curso, mas me confirmou td q já havia me informado fora do curso, foi ótimo confirmar pontos cientificos, só q no fim só a prática e o desejo de apoiar traz a doula em mim, e sinceramente existem muiiitas q pegaram esse tal e não sou doulas mesmo. doula no sentido da palavra a Q apóia é cuidadora, busca junta é amiga e acolhe e no fim isso é o papel da doula, onde me responde pq ter doula? olha quem não qr uma companhia segura e amorosa do lado no momento, q te de um abraço, um olhar se for oq der para passar, sim pq muitas vezes nem a gestante nem os familiares sentem se seguros ou conhecedores, no meio de médicos e profissionais endeusados, assim ter alguém q não está nem ai com isso só qr estar ao seu lado e vai te apoia acalmar e qdo alguém comentar algo ruim nesse momento frágil pode te ajudar para q isso não te atinja. Me respondo Aquelas q ainda não descobriram o qto isso é bom, aconchegante amoroso, oq alguns chamam d mimo é necessário e salva vidas, não importa quem seja doula é a pessoa q assume este papel. Assim só a titulo de informação para alguns para as(os) agressores, OIII doula não é profissão classificada, registrada, ainda graças a Jah viu, infelizmente já colocaram um adendo nisso e uma hora será(gostaria ao menos q mudassem o nome então sei lá, Acompanhante Perinatal classificaria melhor e poderíamos não perder o sentido da inicial da palavra q da idéia d Amor da palavra, onde doula na origem está no grupo de mulheres q apoiavam a mulher noo parto ainda com as parteiras, trocando os panos, dando amor, rindo junto é tão lindo, q é pena perder isso e aceitar a mercantilização), mas por enquanto ainda não é! então vcs ainda não podem exigem e por favor não agridam aquelas que dizem minha doula foi minha mãe, uma gde amiga q buscou me apoiar, q me conhece e conhece sobre parto, q veio questionar junto e buscar junto por informação para que no fim eu pudesse tomar decisões e aceitar psicologicamente, emocionalmente e com consciencia aquelas q não tenho escolha devido a minha situação q é x,q é um saco, e isso devido ao sistema ainda(e desejo q por pouco tempo) não nos da escolha, mas não se sentir culpada já é um gde alivio. Pq ela está certa. Oq posso dizer tb é q fico feliz com o questionamento do texto, hj estou gestante pela primeira vez, me encontro no quadro da parda de quadril largo e gde, a tal da parideira e sério se eu deixar me colocam em cada situação, ui é muito esforço mesmo, muito chato as vezes até penso será q a ignorancia evitaria meu desgaste, mas ser mulher nesta sociedade e não ser agredida sempre possui esforço, pelo menos em minha realidade. Mas ai vejo minhas conhecidas totalmente desiformadas e q não qrem se informar( por isso as respeito e não dou pitaco) arrancando os cabelos e só as ouço dizendo pq isso ou aquilo, triste e desesperadas??? e penso pelo menos eu sei pq eu estou passando isso ou aquilo e consigo desviar, transformar, encontrar formas, correr átras e/ou aceitar e já é alguma coisa. Mas desejo mesmo q todas as mulheres q desejarem possam saber e encontrar suas formas e pqs e q todas consigamos pressionar o sistema. Otimistamente acredito em tomarmos de volta o nosso parto, tanto q olha nós várias mulheres questionando e assim nos agarrando a mudança. Felizmente neste momento encontrei algumas amadas profissionais parteiras e não profissionais, em São Paulo, Campinas, Americana e Piracicaba q gratuitamente no caso de necessidade acolhem, lutam e me acolhem e até viajam as malucas gostosas, para acolher e partejar. A todas essas agradeço e a meu DOULO amado esposo, e espero q logo a gde perifiria e todas as mulheres encontre dentro delas e fora delas como eu encontrei oásis no meio do deserto. Por fim falando da questão da palavra Empoderamento, a uso por não saber uma melhor para citar o qto é transformador a mulher informada e descobri q existe a necessidade da mulher ser ativa, consciente de sua pré gestação, gestação e pós parto, assim como ser ativa consciente e tomar para si sua vida enquanto mulher q nos é tão retirado durante toda vida. Mas gostaria de uma melhor pq existe um ruído forte com ela q para muitos pode trazer todas as questões de meritocracia, mas até hj é a que mais resume isso, quem se incomoda com esta palavra se tiver outra melhor por favor cite. E a todas vcs q estão na busca, q ainda se encontram com situações q parecem sem saída, acolho a dor de vcs e por enquanto ainda é mó role para se encontrar com essas situações q deveriam ser de todas, mas sistema d crença capitalista, machista, agressor tem isso, dá trabalho, mas mulheres vamos superar. Bijos Isabella obrigada partilhar e eu por poder partilhar.

  17. Nanda
    jul 15, 2015 @ 12:20 {Responder}

    Perfeito!!! Faz tempo que me sinto assim em relação ao parto humanizado, domiciliar (e também em relação à assuntos como veganismo, alimentação orgânica, etc…). É a gourmetização do parto, triste ver tanto julgamento. Se tivesse condições eu teria tido meu filho em casa, com toda equipe humanizada, mas cadê o dinheiro? Já me disseram que se a gente se planejar consegue pagar mas como se planejar se a gravidez veio no susto? Outra coisa que me deixa cabreira é o desdém de muita gente “humanizada” pelo parto normal, feito em hospital. Me deram sorinho sim, me fizeram episio sim, mas também tive muitas experiências e lembranças positivas do meu parto e escolhi ficar com a alegria e não me apegar a um susposto trauma. Parece que se tu não faz um parto normal humanizado no padrão Gisele Bündchen, tu não está à altura e nem merece nem um pouquinho de humanização.

    • Isabela Kanupp
      jul 15, 2015 @ 19:29 {Responder}

      Nanda, você tocou em um ponto muito importante: como vamos falar de nascer bem, se ainda a maioria dessas gestações são de forma compulsória? É preciso falar da maternidade compulsória também, que atrapalha e muito a mulher a conseguir ajuda (afinal, se não aceitamos uma gravidez, se não queremos, se estamos ali sem querermos estar, como vamos conseguir absorver a informação de qualidade?). Acredito que para falra de humanização tem que se falar de todos os tratamentos serem humanos, inclusive, entender a maternidade compulsória, a maternidade “no susto” e tudo que isso implica.

      Outro ponto que você falou é o parto normal hospitalar. Deveriam sim lutar por ele e para a melhoria dele – no sentido de menos violência obstétrica, etc -, porque é isso o que a maioria das mulheres tem acesso, e está muito precarizado, tem mulheres morrendo por atendimento negligenciado, tem mulheres sofrendo mutilações genitais.

      Como fazer uma mudança efetiva na sociedade, se não começarmos da base?

  18. Jane Adélia
    jul 15, 2015 @ 14:36 {Responder}

    Olá, muito importante seu texto e as colocações. Apenas discordo que aqui em BH seja totalmente assim. Tive dois partos humanizados no SUS. Eu não tenho condições de pagar pela equipe humanizada. O que fez a diferença no meu caso foi o meu interesse e a busca de informações. Sei que sou exceção. No país a regra não é a mulher procurar a informação e recebe-la da melhor forma e principalmente verdadeira. Mas, também vejo que a cultura é muito impactante. Para ter meus filhos da forma que tive, fui no contra fluxo. Fui taxada de várias maneiras e tive muitas vezes que me fazer de surda. Vejo seu texto como uma força para abrir o entendimento das pessoas. O filme O Renascimento do Parto me ajudou muito também. Eu pari naturalmente em 2010 e em 2013. Sabe, vejo que muita gente prefere deixar a responsabilidade na mão do medico e depois reclama do próprio destino. Também vejo muitas mulheres que desejam a cesariana e não tem coragem de assumir isso; Cada ser é único. O que é bom para um, pode não ser bom para o outro, se assim ele desejar. O problema é que muita gente só percebe que fez a escolha errada, depois que não dá mais para voltar. Eu creio que querer é o primeiro passo para fazer, mas, realmente entre querer e realizar há muito a se buscar.

    • Isabela Kanupp
      jul 15, 2015 @ 19:20 {Responder}

      Jane, o SUS não é uma coisa só, depende das administrações do municipio e do estado, então por isso existe essa diferença de uma localidade para outra.
      Sim, quem vai no contra fluxo é taxada, mas quem taxa, não é tão culpado como parece ser, também é vítima do mesmo sistema que faz você ser. Então essa é a visão que temos que ter, essa visão avaliando o contexto que estava inseridos. É muito fácil falar que a responsabilidade não está na mão do médico, sendo que, para a maioria das mulheres não existe outra alternativa, é o que comentei no texto, ela pode ter informação de qualidade, mas como sair se ela não tem contato, não tem dinheiro?

      Enfim, obrigada pela sua colaboração. Beijos

  19. Sara
    jul 15, 2015 @ 17:26 {Responder}

    Obrigada blogs de linguagem academicistas. Obrigada organizadores do filme. Obrigada médico particular que, na contramão dos colegas, buscou informações. Obrigada doula por tudo, até pelo parcelamento do valor. Obrigada por quem repassou a informações, da forma que foi. Obrigada profissionais que podiam receber dinheiro de inúmeras outras formas e optaram por recebê-lo através do amor, da informação, do atendimento humanizado.

    Por outras realidades: Obrigada militantes, pelas casas de parto, que apesar “serem limitadas”, hoje “são bem mais populares”. Obrigada doulas voluntárias. Obrigada “academicistas”, que fizeram informações de qualidade e baseada em evidências chegarem aos médicos do SUS também. Obrigada àquelas que distribuem informações, mesmo que pela internet – pelas mães que tiveram oportunidade de entender sua fisiologia, sua natureza, sua possibilidades, as problemáticas e lutar por seus direitos. Obrigada pelos cartazes. Obrigada pela problematização. Obrigada pela causa existir. Obrigada por verem.

    Ninguém poderá lutar por todos. Mas obrigada por lutarem.
    Obrigada pela consciência de que TODAS precisam. Que a luta pela humanização para todos, partindo de quem for, como e onde for, prossiga, pois estamos sendo vistas. Estamos! Obrigada por estarem nas faculdades, nas rádios, nos jornais, nos blogs, nas ruas, nas rodas, nos grupos, na família. Vocês estão sim, e estando, estarão em mais e mais lugares…

    • jul 15, 2015 @ 19:30 {Responder}

      Olha Sara, eu te aconselho a uma dose de realidade, com todo respeito. Porque eu não sie onde as casas de partos são bem mais populares, talvez na região onde você viva né? Essa não é a realidade do Brasil. :)

      Você se sente agradecida, porque é contemplada. E todas as mulheres que não são? Não é egoísmo da sua parte?

      • Sara
        jul 20, 2015 @ 21:01 {Responder}

        Usei aspas na expressão “bem mais populares”, pq estou reproduzindo do seu texto.

    • Ana Cristina Duarte
      jul 15, 2015 @ 21:31 {Responder}

      Obrigada Sara pela linda mensagem!!! Muito bacana, abraçando a todos e reconhecendo o mérito de cada um nessa enorme luta.
      Muito amor!!!

      • Isabela Kanupp
        jul 15, 2015 @ 22:52 {Responder}

        Mérito. Exatamente. Meritocracia. Hmmm dai não pode no movimento, não é assim nãããoo.

  20. Ana Cristina Duarte
    jul 15, 2015 @ 21:34 {Responder}

    Fico feliz de saber que a autora do maior blog academicista da história da obstetrícia no Brasil é também autora de um projeto voluntário no SUS que já ajudou 750 mulheres a parirem sem episiotomia, fornecendo inclusive os dados científicos sobre a segurança e ótimos resultados do parto sem episiotomia, que tem sido referência internacional na mudança da prática médica.
    Muito amor por ela e por seu academicismo e pelo lindo projeto voluntário que ela toca no SUS.

    • Isabela Kanupp
      jul 15, 2015 @ 22:52 {Responder}

      Ana, eu não sei na defesa de quem você está saindo, já que, de blog academicistas, a blogosfera está cheia. :) E que bom que esse alguém – que não sei exatamente quem é – está fazendo algo pelo SUS, alguém tem que fazer né?

      Mas não precisa vir defender alguém aqui não, até porque não sei quem você está defendendo, já que o texto foi para toda uma elitizada.
      😉

      • Mariana Bahia
        jul 17, 2015 @ 15:02 {Responder}

        Melania Amorim, Isa.

        • Isabela Kanupp
          jul 17, 2015 @ 16:30 {Responder}

          Mariana, para você ver como alguém está defendendo uma pessoa na qual, o texto nem foi direcionado para ela. Entaõ tá né? Carapuças, carapuças.

  21. Flávia
    jul 15, 2015 @ 23:15 {Responder}

    Meu comentário nem é sobre este texto especificamente, mas sobre todos os textos que eu tenho lido no blog. Toda vez que leio algum texto seu é um tapa na cara e um abraço ao mesmo tempo! Um tapa porque eu vejo que eu ainda tenho que trabalhar na desconstrução do machismo que mesmo não querendo às vezes se faz presente no meu pensamento; e um abraço porque eu não me sinto julgada e sim amparada. Obrigada pelas palavras, tapas e abraços!

  22. Susana
    jul 16, 2015 @ 07:33 {Responder}

    Isa, obrigada por dar voz ao lado mais frágil da corda, o que arrebenta qdo as coisas não funcionam.
    Eu como mulher da periferia, pobre, usuária do SUS, me senti contemplada com esse texto.
    Tem mina ae incomodada e defendendo academicismo, pq pra ela deve ser de boas um movimento lutar em nome de uma pequena parcela privilegiada da sociedade, e colocar as demandas delas em prioridade, acima das nossas, que somos tão mulheres quanto elas.
    É fácil ficar feliz qdo se tem como pagar, pra ser tratada feito gente, enquanto a população pobre vai continuar sofrendo…
    E não venham com mimimi casas de parto e meia dúzia de voluntários que atende pelo SUS. Não dá conta.
    A prioridade vem sendo sim as demandas delas, e as nossas vem se arrastando atrás, lentamente…
    Mais uma vez obrigada! Enfiou o dedo numa ferida que está ficando cada dia mais podre.
    Quem sabe assim finalmente voltem mais a atenção pras simples mortais que não podem pagar, e não querem passar a gravidez – período tão delicado – correndo atrás de possibilidades qse impossíveis, ou atendimento por preço acessível, ou fazendo dividas que levarão meses, até anos, pra serem pagas…

  23. jul 16, 2015 @ 10:13 {Responder}

    Parabéns pelo texto! Estava fazendo um igual. O seu ficou melhor do que eu poderia ter imaginado. :) Sou de Brasília. No início do ano estive num seminário da OAB sobre a violência obstétrica e esse foi um ponto levantado: que, infelizmente, esse tema ainda é restrito a mulheres brancas, de classe média alta (as tais A e B). A questão da informação é realmente terrível: como uma mulher comum, que trabalha sei lá quantas horas por dia, mais de 40km de sua casa (realidade de Brasília, de pessoas de classe C para baixo) pode conseguir essas informações?! Como elas podem “peitar” um saber específico como o do médico?! Principalmente quando mulheres médicas dão preferências à cesárea para elas próprias? Acho que já escrevi isso: individualizar a questão não é possível. Colocar a responsabilidade na mulher por seu “empoderamento” é vitimizá-la mais uma vez – isso acaba se transformando numa nova violência. Quando foi minha vez, li tese de doutorado sobre parto para discutir com minha médica. Quem pode fazer isso?! Por outro ladro, transmitir esse “conhecimento” é complicado… Não tenho legitimidade para passar adiante porque não sou médica. Entre a minha palavra e a dele, quem vale mais? A questão é o sistema… O nosso modelo de atenção e assistência ao parto é assim. O foco deve ser, sim, a mudança no modelo e isso só se faz com políticas públicas efetivas, que devem ter um recorte de gênero, raça e classe social. As mulheres privilegiadas, como eu, que conseguem sair desse modelo só confirmam a regra que existe. Contudo, esse “florescimento” dessas ações de resistência – ainda que elitizadas – tem o condão fazer aparecer a questão. O problema é que elas não devem permanecer só aí. Parabéns pelo texto, mais uma vez. Ah, sim, e só para lembrar: em todo o DF, há apenas 1 casa de parto (integradas ao SUS). Essas talvez fossem mais uma alternativa, mas sofrem constantemente o risco de fecharem, como tem acontecido aqui, o que tem motivado ações junto ao MPDFT, à OAB, ao governo estadual.

  24. Silma Matos
    jul 16, 2015 @ 19:24 {Responder}

    Isa, esse é o texto mais perfeito que já li sobre parto, seja o tipo que for, eu não sou militante, tenho uma visão bem semelhante a tua, parto humanizado é parto elitizado… Em Blumenau foi criado uma lei Municipal que obriga os hospitais a permitirem a presença de doulas, só que para isso os pais terão que pagar, não vem de graça, o SUS não fornece, o pai mesmo tendo uma lei que obriga a presença dele na hora do perto, não respeitada, já deu muitas brigas por conta disso, então não vamos nos iludir achando que tudo muito fácil.
    Fico “P” da vida vendo mulheres massacrando outras mulheres, porque não lutaram, porque não se empoderaram, há se fosse tão simples assim, o buraco é mais em baixo.
    Parabéns pelo texto maravilhoso.
    Bjs

  25. Flavia
    jul 16, 2015 @ 20:12 {Responder}

    Quando eu tava gravida eu quis ver “o renascimento do parto” e nao tava passando no cinema. Entrei em contato com eles perguntando se nao tinha no youtube, dvd (nao tinha ainda). Eles disseram que nao e pronto. Eu me questionei. Pô os caras tem a maior marra pra apontar o dedo na cara dos médicos e grávidas que nao querem peitar o sistema obstétrico, mas eles nao peitam o sistema audiovisual?????? Os caras tem “A” informaçao e vao deixar a gravida interessada na informaçao (eu) sem acesso à ela?????

  26. jul 17, 2015 @ 08:05 {Responder}

    Li num só fôlego: perfeito! Passava um filme em minha mente…

  27. jul 17, 2015 @ 13:17 {Responder}

    Olá! Estou na luta pela melhoria na assistência ao parto no Brasil desde 1995. Nesse ano, aluna da faculdade de psicologia, surgiu meu interesse por gravidez, parto e pós parto. Foi nesse ano que comecei a atuar como doula, a estudar muito sobre o assunto e a participar de reuniões, projetos, passeatas, trabalhos, etc… De lá até hoje, nunca mais parei. Quem chega agora não sabe como era naquela época. O que se tinha naquela época era uma situação muito mais difícil do que hoje. Hoje, a violência obstétrica é visível, se fala dela e se considera que ela existe. Antes, as mulheres – todas elas – sofriam caladas. É claro que isso ainda acontece. O que se conquistou nesses 20 anos ainda é muito, muito pouco, perto de tudo o que precisa ser feito. Nisso, incluo certamente atendimento e informação de qualidade para todas as mulheres e famílias. No Brasil, os profissionais que lutam, como eu, por uma assistência obstétrica e neonatal de qualidade, com base em evidências científicas, com respeito às necessidades da mulher, do bebê e da família, tem que enfrentar uma série de questões. Os médicos que se propõe a atender assim são ridicularizados e xingados nos hospitais. Doulas são humilhadas e barradas, e por aí vai. A luta é muito grande. Os ativistas, muitas vezes, gastam horas e horas do seu tempo, de forma gratuita, participando de projetos, reuniões, campanhas, para mudar o cenário obstétrico brasileiro. As leis que surgem no país, tem o dedo dos ativistas, que deram embasamento para que tais leis fossem aprovadas. Quando a lei do acompanhante surgiu, por exemplo, eu e outros ativistas trabalhamos muito para ela desse certo. Nunca recebi um centavo por isso, assim como acontece com muita gente, que está há anos e anos trabalhando por uma melhoria. Hoje, estamos aqui discutindo este tema porque este tema cresceu. E cresceu porque muita gente, entre profissionais, mães e pais, se esforçaram muito por isso. Se hoje temos algumas casas de parto no país, algumas equipes de parto domiciliar planejado, algumas leis, programas de doulas voluntárias em alguns hospitais, plano de parto… Isso já é um ENORME avanço, quando comparamos com a situação de 20 anos atrás, ou de 10 anos atrás. E o trabalho de muita gente para se chegar nesse ponto é muitas vezes gigantesco e totalmente invisível. Está bom assim? Não. Falta muito. Mas muito já se conseguiu – quem acompanha essa luta desde o começo sabe disso. E esse começo é muito anterior a mim. Considero fundamental abordar claramente as questões que vão surgindo, as problemáticas diante do tema. Os profissionais da assistência obstétrica e neonatal que eu admiro, todos eles tem preocupação com todas as mulheres. Ricas e pobres. Espero poder contribuir, trazendo para este assunto uma visão mais abrangente, de um caminho que vem sendo trilhado, com muito esforço, e onde as conquistas são difíceis e vem beeemmm devagar, porque há um gigante do outro lado. Aproveito também para honrar o trabalho de tantos profissionais incríveis que se esforçam para melhorar a situação obstétrica brasileira. Também para expor meu desejo, de que num futuro muito próximo, todas as mulheres brasileiras possam viver a chegada de seus filhos com amor e tranquilidade – seja pelo SUS, por plano de saúde ou particular. Sem nenhuma violência, com respeito total, com paz e acolhimento.

    • Isabela Kanupp
      jul 17, 2015 @ 16:43 {Responder}

      Talia, tudo bem?
      Então, na verdade, muitas mulheres ainda hoje sofrem a violência obstétrica calada. Para nós é muito obvio notar a VO, saber identifica-la e tudo mais. Porém, para a grande maioria das mulheres não é, a violencia de forma geral é muito normatizada na nossa sociedade (vide o fato de crianças receberem “palmadas educativas”. Claro que mudou bastante, hoje pelo menos não tratamos o assunto como tabu, falta apenas atingir quem mais precisa, sair do discurso de: informação para quem já tem informação e partir para o informação para quem não tem informação.

      Sim melhorou bastante nos últimos 20 e 10 anos, mas temos ai EO para relatar que, há 25 anos na área, sempre foi elitizada, que desde aquela época esse discurso mostrando a elitização (o fato de sempre ser para quem pode pagar primeiro ) e a meritocracia (qualquer um consegue) era silenciado. E não está diferente agora, continua sendo silenciado.

      Eu sei de todas as coisas boas que as militantes conquistam e falo sobre elas ali no final do texto, e sobre como sim existe uma movimentação no SUS. Mas a questão central do texto não é essa, é o fato de que: existe um movimento que na teoria luta por todas as mulheres, mas na prática seu foco central é quem pode pagar. Enquanto existe o grupo que luta na periferia, e quando precisa de apoio e endosso de todo o grupo, como um todo, não o tem.

  28. Vivian
    jul 17, 2015 @ 14:10 {Responder}

    Acho que vou precisar de uns dias pra assimilar todas essas informações… A elitização é um ponto tão óbvio na humanização, que acaba sendo esquecido, deixado de lado e consequentemente perpetuado.

    Uma coisa importante de lembrar é que muitas vezes esses meios de informação “criticados” são os únicos lugares onde se pode encontrar uma informação segura, compreensível e acessível, e mesmo que muitas vezes estejam colaborando no discurso do ódio/meritocracia/elitismo estão por outro lado trazendo informações verídicas e que, acredito eu, salvam centenas de pessoas do ciclo vicioso da “desnecesária”.

    Outra questão que sempre me vem à cabeça é o “Endeusamento” d@ médic@. Se pra quem tem acesso à informação, conhecimento e tudo mais, já é difícil transpor todas as barreiras impostas para conseguir um parto humanizado, imagina pra quem não tem todo esse jogo de cintura? Penso nas pessoas nas situações onde os médicos são “celebridades”, não existe acesso (por qualquer motivo) a outros meios de informação, vão à uma consulta e ouvem do médico que precisam fazer uma cesária, isso vira lei. Não tem doula ou parteira que mude isso, é a palavra do “Doutor”… Ou seja, no final, ainda tem a questão cultural.

    • Isabela Kanupp
      jul 17, 2015 @ 16:31 {Responder}

      Vivan, tudo bem?

      Então, com certeza, as informações e evidências são super válidas e jamais questionei isso. Porém o ponto central é: precisamos trazer todas essas informações e evidências, para uma linguagem acessível e que contemple as mulheres que não tem acesso a ela dessa maneira.

  29. jul 17, 2015 @ 22:15 {Responder}

    Oi Isabela. Parabéns e obrigada pelo texto.
    Eu leio bastante a respeito de parto natural apesar de ainda não ser mãe. Sou uma curiosa sobre o assunto. E passeando pelos sites e blogs do mundo materno, sentia certo desconforto e só agora entendi o porquê. Você me ajudou a perceber e nomear os meus sentimentos.
    Considero-me privilegiada por morar num apartamento bacana, ter nível superior e acesso à informação. No entanto, não tenho grana e não tenho como pagar pelo parto dos meus sonhos. Não sei o que farei quando engravidar. Aqui na minha cidade não tem casa de parto e tenho pavor de sofrer violência obstétrica.
    Portanto, não sou contemplada pelo movimento da humanização, a não ser que me endivide.
    Compaixão e sororidade são fundamentais nesses espaços de discussão, né?

    Um grande abraço.

  30. jul 19, 2015 @ 22:21 {Responder}

    Vi o link no facebook e resolvi comentar primeiro lá. Comentei antes de ler o texto, só lendo o início e disse:

    “Um dia fiquei triste porque vi um post do Renascimento do Parto em que elas falavam que era errado chamar cesária de parto.

    Eu acredito que do ponto de vista técnico pode até ser errado, mas do ponto de vista linguistico, popular e principalmente humano não tem porque essa postura.

    Parto é parto, seja humanizado, traumático ou sedada. Você deu a luz ao seu filho e a sociedade chama isso de parto. Independente se você vai sofrer no pós operatório ou não.”

    Daí continuo a ler seu texto e descubro que nele também tem uma bronca contra o pessoal do Renascimento do Parto. Triste isso.

    Não sei você, mas eu nem tive vontade de comentar pra não me decepcionar mais.

    Quanto ao print em questão eu entendo ambos os lados. Creio que como elas taparam o nome da pessoa isso torna um tanto aceitável, mas vira quase um entretenimento. Tipo vamos rir dessa pessoa.

    Já vi gente classe média, estudada ter esse tipo de pensamento. De que poderia enlarguecer e dar incontinência urinária, daí mandei diversos textos a respeito e isso a deixou mais tranquila.

    Outra amiga o médico disse pra ela que haviam diversas mortes por conta de parto humanizado, mas isso era abafado. Como se a luta do parto humanizado fosse um máfia cheia de dinheiro e poder…. (não que não tenha dinheiro, mas não tem tanta grana assim).

    Essa mesma amiga aguentou uma militante do parto humanizado dizendo que dava pra ela ter tido parto normal. Sendo que a neném estava sentada e com o cordão enrolado no pescoço. E minha amiga tinha 40 anos e teve descolamento de placenta.

    E a militante (que nunca teve filho) insistiu que dava pra ser normal, era ‘só querer, só que minha amiga queria sim parto normal, ela tinha medo da anestesia muito mais que do corte ou da dor do parto. Mas o que poderia ser feito? Enfiar a mão pra desenrolar o cordão? Tenha dó néh!

    Parto normal seja humanizado ou não, não é pra quem quer. Tanto no ponto de vista financeiro, quanto no ponto de vista risco de vida da mãe e do bebê.

    Eu acredito que a luta pelo parto humanizado só ganhará forças o dia que alguns médicos aderirem ao mesmo. A pressão do movimento feminista ajuda, mas enquanto a classe médica se unir contra o parto humanizado vai ser difícil que ele se torne acessível. Principalmente a classe mais pobre.

    Já vi médica defendendo a episiotomia pelo fato de ser usada a mais de 100 anos, como se não tivéssemos diversos avanços na medicina nos últimos 100 anos. E não entendo como até hoje não foi feito nada pra evitar o corte natural que pode ser mais prejudicial que o corte programado.

    É preciso mudar o pensamento da classe médica, mas achar que a cesária será abolida é cegueira. A cesária diminuiu o número de mortes na hora do parto.

    Acredito que é uma luta muito difícil, pois como exemplifiquei esse pensamento de sofrer e sentir dor é normal não existe apenas entre as mulheres pobres. É um pensamento impregnado em mulheres de todas as classes sociais.

    Seria muito bacana ter um material sobre parto humanizado que seja de acordo com a realidade das pessoas pobres. E talvez cursos de formação de doulas tornem o serviço mais barato e acessível.

    Mas mesmo assim esse povo tem que entender que nem todo mundo tem carro pra vender e pagar o parto. Sequer tem dinheiro

    Quanto a questão de ser atendida por vários médicos eu li que em parte da Europa é assim. Você não escolhe seu obstetra é atendido pelo obstetra de plantão. Mas tem um acordo prévio entre a mulher e o hospital sobre como será o parto. Inclusive um dos motivos que levou a tantas cesárias no Brasil foi justamente o costume de escolher o médico, assim o médico preocupado com o tempo dele, com a grana dele, com as consultas agendadas, com a viagem marcada e afins passaram a convencer as mulheres que a cesária marcada era o melhor.

  31. jul 19, 2015 @ 23:24 {Responder}

    Escrevi antes de ler os comentários e agora estou emocionada em saber que existe sim gente lutando por um parto humanizado no sentido amplo da palavra. Porque realmente onde está o humanismo de achar que ‘é só querer’?

    Lutam pelo parto humanizado, mas não lutam pra que ele seja para todos e não apenas pra quem pode pagar. Lindo ver que tem gente e até da classe médica olhando por todos <3

    Eu vejo muita gente criticando o feminismo por conta de meninas mimadas que ficam no facebook reclamando de coisas de menor importância. As pessoas agem como se elas fossem o feminismo. Mas o feminismo de verdade acontece fora do facebook, fora da internet e quem luta pelas mulheres sequer tem tempo pra ficar discutindo no face.

    Obrigada a todas as mulheres que engrandeceram esse post.

    Mas queria fazer um adendo sobre a elitização do feminismo. Na verdade o feminismo foi desde a sua fundação algo elitizado. Esse feminismo 'pra pobre' é algo mais recente e ainda está se formando. Então tem muita gente que só olha o seu mundo e não vê o do outro.

    Muita gente que nunca pisou num posto de saúde e fala que é preciso legalizar o aborto em pró da mulher pobre achando que se isso acontecer as mulheres serão magicamente tratadas feito rainhas quando forem no hospital público fazer um aborto.

    Sei que foge total do tema, mas isso é algo que muito me incomoda no feminismo. Não que eu concorde com o fato de aborto ser crime. Acho isso absurdo. Mas é preciso mais que legalizar o aborto. É preciso dar acesso ao controle de natalidade. Porque o feminismo atual é sim elitizado, um exemplo é só olha pra mulher que quer abortar, quase não se houve falar sobre gravidez não planejada. Como se a mulher que deixa de estudar ou que leva o filho pra adoção porque não quer abortar não merecesse ser assistida pelo feminismo.

    Tem gente que acha que no posto tem assistência plena e fácil pra controle de natalidade. Mas a gente mal consegue marcar uma consulta com a ginecologista. Botar diu? Só implorando. Pílula? Só as mais baratas. Operar? Vai ter que brigar muito e correr muito atrás. Tem posto que nem camisinha tem….

    Pena que continuando a ler os comentários já me decepcionei de novo.

    Tem gente que não entendeu nada….

    Sim houve uma critica a elitização do parto humanizado. Aos exageros, a falta de tato e principalmente a fala 'é só querer'. Não, não é só querer.

    Se você não faz parte da turma do 'é só querer' não tem porque se ofender com o texto. Mas a realidade é essa. A page 'Renascimento do Parto' ajuda? Sim ajuda muito, mas também atrapalha disseminando ideias não tão humanizadas assim.

    Tem quem consiga atendimento em casas de parto? Sim tem. Tem quem tem filho no corredor do hospital. E aí?

    A critica não foi sobre haver texto academicista, que é necessário e útil. A critica foi sobre NÃO TER textos mais populares e principalmente mais adequados a realidade da mulher pobre. Difícil lutar por todas quando os egos são mais importantes que a causa :(

    • Lívia
      jul 20, 2015 @ 12:18 {Responder}

      Ana, não sei do caso da sua amiga, se havia outro fator além de bebê pélvico e com cordão enrolado, mas só para ficar claro: nenhum dos dois é contraindicação ter parto normal. Bebê pélvico tem que etr profissional capacitado para este tipo de parto, o que realmente poucos são e cordão enrolado no pescoço não é motivo para ceśaria. Isso é uma falácia dos cesaristas. Concordo em partes com a Izabella, porém acho que isso não invalida a luta pela humanização do parto. Inclusive o blog da Dra MELANIA (estudamelania) fala do mito do cordão enrolado. E achei bem clara a explicação, mas claro que sei que tenho mil privilégios, então muitas mulheres podem sim ter dificuldade com os termos utilizados lá. Assim como tenho com alguns termos usados aqui mesmo neste blog.

      • Isabela Kanupp
        jul 21, 2015 @ 00:55 {Responder}

        Lívia, o texto não é um texto contra blogs academicistas. Contra blogs com termos tecnicos. Como uma outra leitora disse, esses blogs tem que existir sim, o fato é que não pode haver SOMENTE eles. E não podemos falar que “é só ter informação porque temo blog da Dra. x” se a Dra. x escreve de forma academica e APENAS isso. Contempla uma parte de mulheres? Com certeza, mas não em sua totalidade e muito menos quem mais precisa dessa informação.

      • jul 30, 2015 @ 01:02 {Responder}

        Um bebê sentado, com duas voltas de cordão umbilical em volta do pescoço não são o suficientes pra uma cesária?

        Queria muito entender como dá pra resolver isso. Porque se a saída for enfiar a mão pra tirar o cordão umbilical e/ou posicionar o bebê é preferível por N fatores fazer uma cesária.

        Porque vão se somando os fatores, era uma mulher de mais de 40 anos, que teve descolamento de placenta e eu nem me lembro se ela tinha dilatação.

        Então até vou procurar o texto e ler, mas eu acho um exagero insistir no parto normal quando tem mais de um fator contra.

        • Isabela Kanupp
          jul 30, 2015 @ 16:46 {Responder}

          Ana, o cordão é gelatinoso, por mais voltas que tenha ele no pescoço, ele não sufoca o bebê. ATé porque, o bb não respira enquanto está dentro da mãe ele respira PELO cordão.

          • Lívia
            jul 31, 2015 @ 10:17 {}

            Exatamente…e existe parto normal de bebê pélvico (tem que ter equipe capacitada para isso, logicamente) e versão cefálica externa (no google há vídeos que demonstram como é feito)

          • ago 03, 2015 @ 00:10 {}

            Interessante essa questão do cordão.

            Sobre o bebê estar sentado existe uma diferença muito grande entre tese e prática. Na tese ele pode ser mudado de posição, mas na prática poucos médicos sabem fazer isso.

            Se o médico não sabe fazer e não se sente capacitado pra realizar o parto normal de um bebê sentado o melhor e mais seguro é a cesária.

            Poder pode, mas não vale o risco por conta de uma ideologia. Uma coisa é pressionar os médicos a aprenderem essas técnicas, outra coisa é falar ‘dá pra ser normal’, porque se o médico afirma que ele não é capacitado e você insistir ele vai mandar você procurar outro médico, ele tem esse direito.

            Acho que nesse caso fica o elitismo mesmo. Se você quer fazer tem que ter condições de pagar por um obstetra especializado.
            Ao menos é o que eu entendi desse texto:

            http://brasil.babycenter.com/a2100189/quando-o-beb%C3%AA-est%C3%A1-sentado

  32. Natália
    jul 27, 2015 @ 00:30 {Responder}

    Nestes tempos de intolerância que vivemos, onde há pouco espaço para o diálogo entre duas partes que discordam, parece que somos pegos por essa onda de ódio que nos faz cegos, que somente nos permite ver a nós mesmos e nossas verdades. Às vezes percebo que, em diferenciados contextos e não somente nas questões relativas a humanização do nascimento, as pessoas buscam argumentos para se armar, e não para se firmar, para ter alguma base e fortalecer aquilo em que acreditam. E quando há alguma pausa para “escutar” os argumentos alheios, é sempre uma pausa para si, isto é, se escuta as primeiras palavras do outro e então começa o balançar da cabeça em tom de negação, e até mesmo antes do término da fala alheia, já começam os contrapontos. Também há um contexto sócio-cultural nisso tudo: é importante que as pessoas estejam contrárias umas às outras para a manutenção das coisas tal qual estão. Enquanto brigamos e gastamos energia com “pequenezas”, esquecemos que somos iguais, irmãos e irmãs sob a mesma situação, no caso de subjugação, de reféns de uma industrialização do parto e da inferiorização do sagrado feminino (afinal, desde sempre escutamos que a dor de parto é insuportável, há bíblias que colocam isso como a punição das mulheres, e com tudo isso se agregam os comentários colocados na postagem da moça que não queria PN nem amamentar, por medo das mudanças que sofreria). É importante a luta e o tal “sangue nos óio”, mas não podemos esquecer com quem este embate está travado. Definitivamente não é com as mulheres vítimas (por mais que a cesárea tenha sido consciente)de todo este sistema. Agora, um pouco do lado positivo, é que tem gente que está tentando democratizar, por assim dizer, a humanização. A ONG Cais do Parto, é uma delas. Abraço a todas!

  33. jul 30, 2015 @ 01:05 {Responder}

    Isabela você disse que os cursos de doula são caríssimos, como falaram que é preciso vender um carro pra fazer parto domiciliar pensei que o curso de doula fosse acima dos 1.500.

    Achei um por 810 até que é pensável em fazer.

    Será que vale a pena ou tem mais barato?

    http://www.maternidadeativa.com.br/doulas.html

    • Isabela Kanupp
      jul 30, 2015 @ 16:47 {Responder}

      Ana, me falaram desse curso e se não me engano é um dos mais baratos mesmo. Porém, não é acessível, é um valor de salário mínimo (valor total que muitas mulheres VIVEM) e é durante a semana. Eu por exemplo, jamais conseguiria pagar e ter disponibilidade para fazer esse curso. :)

      • ago 03, 2015 @ 00:29 {Responder}

        Obrigada pela informação, por todas na verdade 😀

        Realmente se esse é o mais barato não sei se quero saber o valor do mais caro.

        Eu queria fazer pra acompanhar minha prima que tem bebê em novembro, mas não vou ter a grana até lá….

        Vou ver se consigo ser voluntária em algum lugar se conseguir volto pra contar como foi 😀

  34. Tamires
    set 04, 2015 @ 21:41 {Responder}

    Oi Isabela, tudo bem?

    Tenho uma visão um pouco mais otimista.

    Acredito que o parto humanizado ainda é recente. Nós vamos chegar lá. E a principal forma de se “chegar lá” é investir no parto humanizado através do SUS. E isso já vem acontecendo.

    Por isso, peço por um pouco mais de esperança e otimismo. As coisas estão caminhando, a passos curtos e lentos, mas estão caminhando.

    Chegaremos lá!

    Ah, e gosto muito da sua visão e do seu modo de pensar :)

  35. Geysiane
    nov 24, 2015 @ 14:26 {Responder}

    Participo de um movimento que é justamente pra levar informação às mulheres e famílias gestantes a respeito dos seus direitos, do direito da criança que vai nascer, de combate à violência obstétrica, enfim, de tudo que envolve o processo de humanização. Estou gestante e vou ter meu bebê de cócoras, com doula, com acompanhante e já estou com meu plano de parto prontinho em mãos. Achar que as coisas são elitizadas, mesmo sabendo da importância que a humanização tem para todas as mulheres, e simplesmente se voltar contra, dizer que faz “não-militância” não é uma atitude muito inteligente. Se as coisas ainda não estão acessíveis a todas, que pelo menos possamos ajudar o máximo possível umas as outras a respeito dos nossos direitos. Ah, estou fazendo meu pré-natal pelo SUS e vou ter o bebê em hospital público.

    • Isabela Kanupp
      nov 24, 2015 @ 15:18 {Responder}

      Geysiane, tudo bem?
      Ninguém é contra a humanização, deixo bem claro isso no texto, a humanização para além de necessária ela é urgente. A crítica aqui é em relação a essência do movimento, sendo sim um movimento elitista e meritocrático. Existem as pessoas no movimento que não são e que tentam ao máximo levar isso para acesso a todos? Claro que existem. Mas essas pessoas geralmente tendem a serem perseguidas dentro do próprio movimento, assim como diversas doulas que concordaram com esse texto e são perseguidas até hoje. Aqui não é uma “não – militância”, eu apenas me recuso, como indivíduo, a militar junto com algo elitista, faço a minha na periferia, com mulheres pobres, que não sabem nem o que é humanização porque ainda não tem consciencia da violência que sofrem, de tão normatizada que é. O trabalho de base, é muito mais eficaz.

      Fico feliz que você consiga tudo isso no SUS e sei que várias mulheres já conseguiram, uma pena que é uma minoria, uma pena que não é em todas as cidades que o SUS atende dessa maneira e é uma pena que ainda existe mortalidade materna porque não conseguem leitos no sus.

  36. Geysiane
    nov 24, 2015 @ 14:30 {Responder}

    (Movimento Nascer Bem, em Caruaru-PE)

  37. nov 29, 2015 @ 20:53 {Responder}

    […] criação com apego, amamentação, a questão da humanização do parto (sim, terá mais textos como aquele, se reclamar terá o dobro), e de tudo que, há anos, já venho tratando aqui no […]

  38. dez 09, 2015 @ 20:53 {Responder}

    […] eu fiz o texto sobre a elitização no movimento de humanização do parto, fui acusada de ser apenas uma “ativista de sofá”, que não me mexia para mudar a […]

  39. jan 23, 2016 @ 16:56 {Responder}

    isa, vc não tá sozinha! #tamujunto!

  40. jul 04, 2016 @ 19:31 {Responder}

    Quando começaram a atacar a cesarea como fosse algo do Satã, eu me preocupei realmente com as mulheres no SUS. Já tenho 54 anos e tive um parto cesarea há 33 anos. No SUS.

    Naquela época “ganhar” uma cesarea era tirar um vale-brinde, ganhar na loteria. E a minha foi perfeita. Tudo perfeito. Eu só teria partos cesarea. Eu.

    Era um último recurso e conheço histórias de mulheres que sofreram muito porque o médico queria esperar o parto normal. Até o famigerado forceps.

    Porém, eu também sei dos benefícios do parto normal. E os reconheço. Então é bacana a iniciativa de escolha.

    Então, é o que me ocorre quando satanizam a cesarea. Não precisa satanizar. Tem que ter tudo a nossa disposição.

    Porque cada criança que nasce é uma nova chance para o mundo.

    Todo país deveria cuidar que essa seja uma boa experiência para mãe e filho.

    Li por alto alguns comentários e achei lindo um pessoal que está formando doulas para acompanharem gestantes na periferia. É isso.

    E também a questão do aborto. Do direito ao aborto. Não importa que escolhas eu faça. Mas são MINHAS escolhas. E eu posso responder por elas.

  41. Beatriz
    jan 10, 2017 @ 10:55 {Responder}

    Isabela, volto a esse texto hoje pela terceira ou quarta vez em alguns anos. Primeiro, queria te agradecer pelo blog, pelo seu trabalho com a construção de um conteúdo crítico, sério, que foge da orientação geral da ‘blogosfera materna’. Já deixei de ler os blogs que acompanhava há muito tempo, já larguei as discussões de facebook, e volta e meia volto a ler seus textos, que se estendem a esse papel social estigmatizado e a que não podemos, ou não devemos, corresponder. Para mim, hoje, com uma filha de quatro anos, a maioria dos assuntos que envolvem gravidez/parto/maternidade formam uma espécie de trauma, que eu procuro não acessar para continuar cumprindo as obrigações com ela, pra não sucumbir nelas. A primeira de todas diz respeito ao parto.

    Estou inserida, sem dúvidas, num contexto privilegiado, classe média branca. Como você, engravidei muito cedo, e na época não tínhamos, eu ou o pai dela (que, obviamente, nunca se preocupou com isso), plano ou condições de pagar por um acompanhamento particular. Vou pular a história que é longa: entrei, por meio de algumas permutas, em um dos meios humanizados da zona sul do rio de janeiro quase pela janela. um centro de yoga muito conhecido aqui, que se sustenta por meio da retenção e venda de informações. depois do nascimento da minha filha cheguei a trabalhar uns meses lá, com a doula que gere e oferece cursos para grávidas, além de cursos de formação. também trabalhava e participava das reuniões de organização de um seminário nacional de humanização. vi de perto todas as micro relações, as vertentes capilares do processo de poder que une, num mesmo espaço, o médico, a doula, a psicóloga, a educadora, as enfermeiras, as grávidas, as mães, para falar sobre “a construção de um mundo melhor”, “a revolução do nascimento”. prefiro não me estender também nesse sentido, já que você e outras, nos comentários, já fizeram isso melhor. só queria constatar essa ironia sutil: como transferem, todos esses profissionais, em posse do incontestável saber arduamente ($) adquirido, uma questão que deveria ser pública e largamente debatida, para espaços exclusivos. o que me parece irônico é considerar o nascimento como a única forma de construir o ~mundo melhor~ que eles sonham. a máquina de culpabilização materna continua funcionando: “ah, os primeiros meses de gravidez são os mais importantes”, “para mudar o mundo é preciso mudar a forma com que se nasce”. para mudar o mundo, esses profissionais nunca pensam em contestar os próprios procedimentos de criação e sustentação de um sistema feito para excluir mulheres (e crianças). e essa exclusão é generificada sim, é racializada sim, é classista também. tudo em nome da vida sagrada de um bebê que, depois que nasce, não importa a ninguém. o que falta é problematizar esse pressuposto: que a utopia deles é feita para continuar fazendo funcionar a violência na forma das coisas como estão. enfim, obrigada pelo texto.

  42. Beatriz
    jan 10, 2017 @ 11:02 {Responder}

    só uma observação: essa doula tinha se comprometido comigo a me acompanhar no parto. quando descobrimos a indicação a cesárea, uma semana antes, ela simplesmente desapareceu na hora que mais precisava. porque minha experiência não poderia ser capitalizada por ela, seria uma experiência negativa. acho interessante como essa máquina de histórias bonitas só serve para frustrar as mulheres daquilo que cremos ser uma experiência “mais autêntica” – que se estende, também, a criação das crianças e todo o papo da criação com apego. todas elas são prescritivas.

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