05 set 2016

Ninguém precisa ser mãe para descobrir o amor ou ser completa.

Post por Isabela Kanupp às 17:46 em Feminismo

 

Dia desses eu estava no instagram e uma amiga me enviou uma publicação de outra blogueira. A publicação era a opinião dessa blogueira, sobre uma reportagem que havia passado acredito eu no Fantástico. A reportagem era a respeito de mulheres que não queriam ser mães, e justamente por isso, buscavam alternativas para não engravidarem, como por exemplo a laqueadura – ligamento das trompas.  

No caso, a blogueira emitiu sua opinião dizendo que achava uma decisão como essa, principalmente tomada na faixa dos 20 anos, algo muito precipitado. Afinal, a vida muda, os sonhos mudam, os objetivos mudam. Enfim, a opinião dela gerou muita polêmica e eu também me manifestei no instagram, ela respondeu, rolou um debate muito saudável e eu decidi trazer esse questionamento para cá.

ser mãe

Quem acompanha o blog já há algum tempo, sabe que eu nunca quis ser mãe, assim como nunca quis me casar, ou qualquer coisa que as pessoas colocam como “sonho de toda mulher”. Mas, como nem tudo está no nosso controle, como nenhum método contraceptivo é 100%, eu engravidei e veio a Beatriz.
Beatriz surgiu na minha vida quando eu tinha recém completado 19 anos, eu não fazia a menor ideia do que fazer da minha vida e de como cuidar de um bebê, muito menos como educaria uma criança. Até então, tem dado tudo certo, mas toda essa minha experiência com a maternidade não mudou em nada a minha visão em relação a ela: se pudesse voltar no tempo, não seria mãe.  

Dizer isso não muda em nada o amor que eu sinto pela minha filha, amo a Beatriz, reconheço o papel transformador que a maternidade teve na minha vida, mas para além disso, reconheço também toda a questão da opressão que a maternidade é, reconheço também todas as limitações que a maternidade trouxe para a minha vida, e assim como qualquer outra pessoa, tenho o direito de expressar a visão que eu tenho dela, não… não vale a pena. O sorriso é bonito, mas o sorriso não muda tudo.  

Já falei diversas vezes da romantização que rola na maternidade e como isso é nocivo e papel fundamental para mantermos mulheres sendo mães de forma compulsória. Ninguém nos conta as coisas negativas da gestação e da maternidade, e quando ousam a nos contar algo, contam como se fosse algo bacana, algo que valesse a pena, como um sofrimento necessário para pegarmos uma recompensa no final.  
Toda essa romantização da maternidade começa desde muito cedo na nossa vida. Crescemos acreditando que, por sermos mulheres, temos que ser mãe. Que nós temos um instinto para ser mãe e que nada na vida fará com que sejamos completas se não formos mães.

A verdade é que ninguém precisa ser mãe para ser feliz, completa, amar intensamente e verdadeiramente. Somos muito pouco incentivadas – ou quase nada – a sermos alguém além de sermos mães, por isso, muitas vezes não vemos como ser realizada ou “bem sucedida” se não for para gerarmos e parirmos uma criança. Mas na realidade, temos potencial para muitas coisas e nem todo mundo quer ser mãe. E está tudo bem.

Na nossa sociedade ainda é muito chocante vermos mulheres que tem autonomia sobre o seu próprio corpo e toma suas decisões baseadas apenas nos seus quereres, essa nossa visão é fruto de uma realidade machista e patriarcal no qual vivemos, onde a mulher é sempre tutelada ou serve para suprir a vontade de terceiros. Temos nossas vontades, desejos, sonhos, metas e muitas vezes, ser mãe não está incluso nesse pacote.
Apesar de todo o preconceito que existe na nossa sociedade com mães jovens, ainda assim, estamos mais acostumados e adaptados a aceitar uma mãe que engravidou – mesmo não querendo, mesmo nas piores circunstâncias – aos 19 anos, do que aceitar que uma mulher da mesma idade possa tomar a decisão de não ser mãe nunca.

ser mãe

Muitas pessoas argumentam que a laqueadura é um processo irreversível, e justamente por ser um processo irreversível talvez seja “cedo demais” uma mulher na faixa dos 20 anos tomar essa decisão. Porém, pouco se fala sobre o processo irreversível de ser mãe. Ser mãe também é para a vida toda. Essa mulher, querendo ou não ser mãe, terá de ser para toda a vida, lidar com os julgamentos da sociedades, as expectativas, a culpabilização e toda a responsabilidade que recai apenas para cima dela (mesmo ela não tendo engravidado sozinha).

Acredito que não somente como formadoras de opinião, mas também como mães, temos que ter a noção de responsabilidade que temos ao falar algo. Quando retratamos a maternidade apenas pela nossa régua, ignorando todo o peso que a maternidade tem, todo o julgamento social que sofremos, estamos sim influenciando outras mulheres e nem sempre de uma maneira positiva. 
Ser mãe para você pode ter sido a experiência mais maravilhosa do mundo, você realmente pode ter se sentido realizada e “se encontrado” na maternidade, mas essa não é a realidade da maioria e muito menos é benéfico para as – futuras – crianças envolvidas nessa relação.

Eu fico muito assustada quando leitores do blog me dizem que graças ao blog tiveram desejo de ter um filho. Fico muito assustada mesmo, porque essa jamais foi a intenção. Sei que vocês que acompanham veem as coisas positivas em relação a maternidade – que no meu caso, tem também -, mas eu também exponho toda a questão negativa e eu fico realmente assustada de ver que pessoas que, ainda podendo escolher, escolheriam ser mães diante de todo esse contexto.

Já contei aqui no blog diversas vezes o porque a maternidade é uma forma de aprisionar as mulheres e excluí-las de espaços sociais e políticos, e como que hoje, sendo mãe, lutamos para que esses locais sejam nossos novamente. É uma luta árdua e nada fácil. Também já falei de como a sociedade coloca a maternidade e os cuidados de um bebê como algo instintivo da mulher, quando na verdade isso é apenas uma desculpa para explorar a mulher e tornar a paternidade facultativa. É um trabalho de formiguinha para desconstruir a visão romantizada da maternidade, visão essa que não prejudica somente as mulheres mas também seus filhos.

ser mãe

Geralmente quem fala sobre o “lado b” da maternidade é taxada como amarga, mal amada, pessoa que não ama os filhos, pior mãe do mundo. Sinceramente, eu não me importo mais. Mas garanto a vocês que tirar esse peso de ser uma mãe que está adorando tudo – mesmo quando não está -, é algo muito bom mesmo, alivia e faz com que a gente exerça a maternidade de uma forma mais leve, possível e real.  

Eu sinceramente não quero mais ser mãe, não pretendo ter mais filhos – pelo menos, não nos próximos 15 anos e não biológicos – e a pressão em relação a ter outros filhos, para mim, não é tão grande. Até mesmo porque eu não sou casada, não vivo com o pai da Beatriz, então em geral as pessoas se assustariam justamente se fosse o contrário.
A maternidade não me realizou como mulher e não me completou. Tenho muitos outros planos, desejos e sonhos e em geral, são coisas que não tem a menor ligação com ser mãe ou com a minha filha. Meus desejos são meus, para o meu crescimento. Se trouxer algo de positivo para dentro da minha maternidade ou para a vida da minha filha, é apenas uma consequência.

Há um tempo eu aboli da minha vida a visão de que eu tenho que fazer algo por mim porque também será para a minha filha. Sabe aquela ideia de “você precisa fazer uma faculdade, pela Beatriz”, não é pela Beatriz que eu preciso fazer uma faculdade, é por mim, é porque (no caso) é meu sonho. Se isso trará algum benefício para a Beatriz, se isso será de uma certa forma um exemplo a ser seguido para a Beatriz, isso será apenas a consequência. A motivação tem que ser a nossa melhora, porque não deixamos de ser um individuo (com desejos, sonhos, e tudo mais) porque nos tornamos mães. 

ser mãe

Tenho consciência – e experiência – de que quando nos tornamos mães realizar nossos sonhos pessoais se tornam muito mais difíceis, principalmente porque a sociedade não é justa e não abre espaço para as mães. Em geral estamos sozinhas e temos que nos virar nos trinta, aguentando ainda o preconceito da sociedade e como nós somos barradas de frequentar diversos espaços porque estamos sempre com nossos filhos a tira-colo. Porém, se você se tornou mãe e não se sente realizada apenas sendo mãe, se acalme, isso é completamente normal e você não é uma péssima mãe (ou mulher) por isso.

Você não precisa se contentar, se realizar e ser feliz apenas por ser mãe!  

Sabemos também que a pressão para a mulher ser mãe é gigantesca, principalmente para mulheres que estão em relacionamento heterossexuais. Ignorando toda a vontade daquela mulher, todas as possibilidades de realização para além da maternidade. Você não é anormal, “defeituosa” (juro, já li isso!), ou qualquer outra coisa pejorativa por não ter vontade de ser mãe e se opor a maternidade. Você não tem que “dar um filho para o seu marido” para vocês serem de fato uma família e se você está em um relacionamento com um homem que usa isso de chantagem com você, entenda que esse relacionamento não é bom para você, não é saudável. 

Já passou da hora de entendermos que ninguém precisa ser mãe somente porque nasceu apta a gerar. Que essa ideia é apenas um reflexo de uma sociedade machista, que impõe dois pesos e duas medidas diferentes para homens e mulheres, afinal, os homens também nascem aptos para “serem pais”, partindo dessa mesma lógica, e nem por isso existe a pressão social para que eles sejam. Justamente o contrário, a sociedade somente endossa o abandono paterno e justifica a ausência do exercício da paternidade.

 

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8 comentários para "Ninguém precisa ser mãe para descobrir o amor ou ser completa." | Adicione o seu »

  1. set 05, 2016 @ 18:10 {Responder}

    […] Ninguém precisa ser mãe para descobrir o amor ou ser completa. […]

  2. set 06, 2016 @ 12:29 {Responder}
  3. Fabrina Dutra
    set 07, 2016 @ 18:17 {Responder}

    Vc arrasa demais

  4. set 19, 2016 @ 02:08 {Responder}

    […] quer realmente disseminar a ideia – excelente! – de que nenhuma mulher tem que ser mãe? Existem ótimas maneiras de se fazer isso, inclusive, falando sobre a opressão que é ser mãe, […]

  5. cynthia
    set 20, 2016 @ 01:41 {Responder}

    “mas eu também exponho toda a questão negativa e eu fico realmente assustada de ver que pessoas que, ainda podendo escolher, escolheriam ser mães diante de todo esse contexto.” acgo que memso com todo esse lado negativo muitas mulheres esclheriam ser maes outras vezes, mesmo q não tivesse essa pressão social, não é bom medir vontade de ter filhos dos outros pelas nossas reguas
    mais esse texto é bem realista e contundente
    eu nunca quis ser mae, porém talvez achoq ue algum dia terei essa vontade, pode ser qu eu tenha comprado o discurso que quando eu tiver mais velha mudaria de ideia

  6. out 14, 2016 @ 11:08 {Responder}

    […] para a publicidade. Dia desses fiz um texto em resposta a um desses absurdos que vi por aí – você pode ler aqui -, não foi a primeira vez que respondi em relação ao mesmo texto assim como não foi a primeira […]

  7. nov 02, 2016 @ 07:53 {Responder}

    […] lugar, é padecer no paraíso, é se doar por completo. Mas sabemos que não precisa ser assim e que está tudo bem se não for. Mas tem um preço, o preço é o julgamento social que sofremos quando saímos do estereótipo de […]

  8. jan 06, 2017 @ 01:34 {Responder}

    […] que C-A-R-A-L-H-O A MATERNIDADE NÃO É TÃO LEGAL ASSIM. A verdade é que a nossa sociedade romantiza a maternidade e caímos muito bem nesse conto. Fica até chato às vezes contar algumas coisas que não achamos […]

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