15 mai 2014

Métodos contraceptivos, aborto e maternidade compulsória.

Post por Isabela Kanupp às 11:27 em Feminismo

 

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Engravidei com 18 anos, descobri a gravidez um mês antes de completar 19 anos. Eu estava com quase cinco meses de gestação. Não descobri a gravidez por dois motivos: o primeiro é que meu ciclo normalmente era desregulado e irregular. E o segundo motivo é que “não havia” possibilidade de engravidar. Eu tomava o mesmo anticoncepcional, há uns quatro anos, todos os dias, no mesmo horário.

Pouco nos ensinam – nós mulheres – como nos prevenir de uma gravidez indesejada. Ensinam que temos que nos prevenir, porque caso não aconteça à culpa – e a punição – será só nossa. Porém, ao mesmo tempo a mãe não tem iniciativa de levar a filha ao ginecologista para uma consulta, uma avaliação, para iniciar o processo de ingestão de hormônios.
Talvez por um moralismo, talvez por uma reprodução machista, talvez por falta de conversa pais e filhos. Talvez porque acreditamos que meninas não têm sexualidade.

Comecei a tomar anticoncepcional por minha conta, bem nova. Não tinha como eu ir em um ginecologista – e o medo do meu pai descobrir? – e eu queria ter a segurança de não engravidar. Então comecei a tomar o mesmo que uma amiga tomava. E conheci – e conheço – diversas meninas que começaram a tomar anticoncepcional por conta própria.
Alguns anos depois fui ao médico, conversei com ele, e mantive o mesmo anticoncepcional. Anos depois, com minha filha já com uns dois anos, descobri que por ser cardiopata jamais poderia ter tomado hormônios. Ninguém me informou também.

A vida de uma mulher é uma sucessão de má informação – e não por culpa dela – e de punições por conseqüência dessa má informação. Porque não importa se a culpa não é realmente sua – ou somente sua -, mas você será a única pessoa a ser punida porque você é mulher.

A ilusão de “só engravida quem quer”, faz parte do mundo de quem pode ligar e marcar o ginecologista para amanhã, e em dois dias estar tomando o anticoncepcional compatível com suas necessidades. Porque como todos os medicamentos existem efeitos colaterais, existem contra indicações, existem mulheres que não se adaptam – ou não podem – determinados hormônios.
A ilusão do “só engravida quem quer”, faz parte do mundo de quem tem acesso fácil e rápido a medicamentos: é só comprar.

 

Ignoramos que como um medicamento, e algo que tomamos de forma contínua, existe um dano ao nosso corpo. Enquanto a camisinha: é só usar e não terá dano para ninguém.  Não tem nenhum efeito colateral, não há nenhum dano no corpo de quem a usa.

Não sei se vocês sabem, mas para um bebê ser gerado é necessário um óvulo e um esperma. E para ter esperma você precisa de um homem. Para executar esse processo de óvulo e esperma se encontrarem pode ser feito através de um processo chamado fertilização ou uma forma mais natural chamado sexo, transar, dar uma, fazer amor, ou como você preferir.
Então, se por acaso rola de ai no meio do caminho o método contraceptivo falhar, o resultado – a gravidez – é responsabilidade de todas as pessoas envolvidas nesse ato (transar).
Isso é claro para vocês?

Algumas pessoas dizem: não quer engravidar, não transa!
Claro, ninguém fala isso para o homem que engravidou a mulher e não assumiu aquela paternidade, porque paternidade é facultativa não é? Mãe já ta acostumada a se foder no paraíso mesmo.
Partir para censurar a liberdade sexual da mulher é mais fácil. Porque homem que precisa de sexo não é? Mulher só transa para reprodução. Mulher não goza. Mulher só serve ao homem.
Não minha gente: mulher transa, mulher gosta de sexo, mulher goza. Mulher pode – e deve, por favor – transar somente quando sentir vontade, e não se sentir mal por transar.

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Mas então a gravidez e a maternidade se tornam a punição dessa mulher.
Ela é punida por transar. Por ter tesão. Por gozar. Ela é punida por exercer sua sexualidade. Punida por uma falha – do método contraceptivo -, ela é punida por um descuido – de todas as partes envolvidas no ato de fazer bebês -, ela é punida porque na lógica da nossa sociedade, já que é a mulher que vai carregar o filho, ela que se vire para se prevenir.
Jogam não somente a responsabilidade da mulher de se prevenir – ingerindo hormônios – como de EXIGIR que o homem se previna. Se por acaso o homem não se preveniu, a mulher também será culpada pela não prevenção dele.

Às vezes falam: ah, mas se o cara se negou a usar camisinha, porque a mulher transou?
E eu espero que quem gosta de repetir esse discurso, se for casada, que transe sempre com camisinha com o marido ta bom? Porque se não é incoerência.
E eu espero também que caso você seja solteira, você nunca, nunquinha, tenha transado sem camisinha na sua vida, tá bom?
Espero também que ela viva no universo de pollyana, porque onde vivemos, é super comum homens coagirem mulheres nas relações sexuais: seja para as mulheres terem relações quando não estão afim, seja para não usar preservativo, entre outras coisas.
A mulher que exige do seu companheiro fixo preservativo, é acusada de desconfiar da fidelidade dele. A mulher que exige do companheiro não fixo preservativo, é acusada de vadia e promiscua.

Então, acredito que ao invés de acusarmos as mulheres pela irresponsabilidade de homens – e novamente, jogar nela uma responsabilidade na qual não é dela -, devemos começar a cobrar desses homens essa responsabilidade e culpá-los sim. Porque da mesma forma que nós – mulheres – assumimos um risco ao transarmos com um homem sem camisinha, partindo do discurso de que nós podemos engravidar e o fardo será nosso, esse homem corre também riscos. Riscos de contrair uma DST (ou transmitir) e risco de ser o mais novo papai do pedaço.
Então, vendo que não culpamos homens e não vemos esse risco para eles, já fica claro como entendemos que uma gravidez é unicamente responsabilidade da mulher.

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E então se torna um ciclo: a não informação sobre o método contraceptivo mais adequado, a não educação dos homens de entender que a camisinha é algo necessário e responsabilidade dele, a não opção de escolha que a mulher que tem uma gravidez indesejada tem, afinal ela não poderá abortar (a não ser que tenha grana para pagar, daí pode e ainda fica tudo bem), ela será responsabilizada sozinha por essa gravidez e caso não queira assumir essa maternidade – seja através do aborto ilegal, seja através do abandono da criança no sistema de adoção – ela é considerada um monstro.
Isso é maternidade compulsória.

Mulheres que não querem ser mães,  obrigadas a serem mães.

E no domingo do dia das mães, eu ouvi que hoje em dia não tem mais essa que mulher é mãe sem querer, que podemos escolher, que só é mãe quem quer.

Ah, claro.

 

Gostaria de dizer, por fim, que muitas vezes não reconhecemos que nossa maternidade aconteceu de forma compulsória. Nos culpamos. Acreditamos realmente que “nascemos para ser mãe”, ou que “já que engravidou”. Mas isso não muda o fato da maternidade ter sido compulsória. Reconhecer isso, não faz você amar menos o seu filho, ou ser uma mãe ruim. É apenas constatar os fatos (e acredite, da um alívio!). 

 

 

14 comentários para "Métodos contraceptivos, aborto e maternidade compulsória." | Adicione o seu »

  1. mai 15, 2014 @ 11:31 {Responder}

    […] Métodos contraceptivos, aborto e maternidade compulsória. […]

  2. mai 16, 2014 @ 07:17 {Responder}

    A grande verdade é que a mesma sociedade que culpabiliza a vítima por um estupro obriga que ela ame e suporte uma gravidez gerada por este mesmo estupro. Agora se pensam isso sobre uma mulher que sofreu uma violência o que irão dizer sobre uma que fez sexo consensual? A “natureza” diz que o homem pode sair por aí fazendo filhos sem se responsabilizar e que a mulher por carregar é quem cria e tudo mais. E quem diz o contrário está errado. Uma eterna sucessão de absurdos.

  3. Verônica R
    mai 22, 2014 @ 21:46 {Responder}

    Muito bom este texto!!! Infelizmente a maioria das pessoas não ensinam direito as meninas e depois dizem que ensinaram. Conheço casos na minha família.
    Agora ensinar s meninas/mulheres se defenderem de abusos, nem pensar, né? aff com certeza vão se acontecer, vão se omitir ou falar que a culpa é delas.

  4. Juliana
    jan 26, 2016 @ 19:17 {Responder}

    Há pessoas que são alérgicas à látex, então a camisinha também não serve pra todo mundo…

    Fato é que nenhum método contraceptivo é 100% seguro, isso, por si só, já deveria ser motivo suficiente para legalizar o aborto.

    • Flavielli
      jan 27, 2016 @ 22:39 {Responder}

      Exato, engraçado como proíbem o aborto veem de uma forma errônea, na minha opnião sou a favor e não será por falta de prevenção se engravidar, não sei se teria coragem de fazer o procedimento, por ser um procedimento perigoso e doloroso,mais tb não sei se teria condições psicológicas, por que não é só financeiramente que se cria uma criança, pois o que mais vemos são Roupas caras vestindo corpo e mente vazia. Enfim o aborto compete a nos mulheres decidirmos se sim ou se não queremos o procedimento, e quanto aos que dizem que estamos tirando a vida de outro ser, eu digo são responsabilidade de quem gera então a decisão deve ser de ninguém alem de nos mesmos!!!

      • Ana Karla
        set 29, 2016 @ 12:34 {Responder}

        Sugiro que você leia essa página: http://thinkolga.com/2016/09/27/faq-sobre-o-aborto-tudo-que-voce-deveria-saber-respeito/

        O aborto é um procedimento seguro?

        Sim, se realizado em condições legais e conforme as regras de cuidado em saúde. É um procedimento tão seguro que a Organização Mundial da Saúde reconhece que o aborto por medicamentos, nas primeiras semanas de gestação, pode ser realizado pela própria mulher, em casa, sem a presença de médicos ou enfermeiros. Quando realizado em uma unidade de saúde, recomenda-se repouso de apenas 30 minutos, após o qual a mulher pode voltar às suas atividades normais, caso se sinta bem para isso.

        Abortar dói?

        Se realizado em condições seguras e conforme as recomendações da OMS, as dores que uma mulher pode enfrentar são semelhantes às dores da cólica menstrual, e podem ser amenizadas com o uso de analgésicos. Ou seja, não são dores muito diferentes daquelas que as mulheres já estão acostumadas em seu cotidiano. Mas é claro que a dor é dependente do acesso das mulheres à informação e aos métodos legais. Os métodos inseguros e clandestinos podem ser dolorosos e ameaçar a saúde.

  5. jan 26, 2016 @ 23:13 {Responder}

    Que texto incrível!

    A vontade é essa mesmo… de sair perguntando as pessoas que julgam as mulheres se eles usaram camisinha todas as vezes que transaram.

  6. Carolina
    jan 29, 2016 @ 16:14 {Responder}

    Sensacional. Fui obrigada a ter um filho e sei bem o que é isso. Sei bem também a dificuldade de abortar mesmo tendo o dinheiro. Que um dia as mulheres tenham liberdade. Bjos

  7. Flavia Martins
    fev 03, 2016 @ 14:45 {Responder}

    Eu sou completamente CONTRA o aborto!
    Acho que tudo o que fazemos na vida tem uma consequência e temos que estar cientes disso.
    A consequência do sexo é um filho. Isso já deveria ser o bastante para termos relações sexuais com mais responsabilidade.
    Hoje em dia é tudo muito normal, eu não consigo entender, relação sexual é algo que vai muito além do prazer! Como as pessoas não percebem isso?
    Mesmo se protegendo, mesmo tomando todos os cuidados, isso pode acontecer e NADA justifica matar uma pessoa que não teve culpa dos atos de outras. Precisamos crescer e aprender a assumir nossos atos.
    Ah, e não defendo aquele pai que abandonou a mulher, não mesmo!

    • fev 03, 2016 @ 19:02 {Responder}

      Flávia, se você é completamente contra o aborto, é só não abortar. Acredito que ninguém está te obrigando, não é mesmo?

      Infelizmente nenhum método contraceptivo é 100% eficaz, aconselho você a dar uma estudada sobre.

    • Ana Karla
      set 29, 2016 @ 12:05 {Responder}

      Primeiro que não existe ninguém a favor do aborto, nenhuma mulher gosta de abortar, dizer isso é pura ignorancia, como a Isabela disse você precisa dar uma estudo melhor sobre o assunto, o que existe são pessoas a favor da legalização do aborto. Segundo que você parece não ter lido o texto ou simplesmente não consegue aceitar certas coisas. Filho não deve ser punição e castigo pra mulher, que por culpa sim da sociedade machista, do Estado que não investe em planejamento familiar e reproduivo, em educação sexual e informação sobre prevenção, os métodos, o uso… por causa do tabu que é sexualidade feminina, as famílias não conversam sobre o assunto, muitos pais conservadores e religiosos proíbem então concluem que não há necessidade de falar sobre isso que é uma necessidade básica do ser humano, e a menina com opinião diferente acaba por fazer escondido e por vergonha não tendo acesso a informações. O Brasil é gigante e a desigualdade social gritante. Dizer que só engravida quem quer pq existem diversos métodos e não sei mais o que é pura ignorância. Terceiro que feto não é uma pessoa, ainda, feto não é um bebê ainda. Cada um tem sua opinião pessoal e crença sobre onde começa a vida. Você não pode impor isso aos outros dizendo que se esá matando uma pessoa, como se a sua opinião sobre onde começa a vida fosse fato e uma verdade absoluta. A Organização Mundial de Saúde diz que até a 12ª semana não há consciencia no feto, não há memória, não há sistema nervoso, não há desenvolvimento cerebral completo, (ao contrário da mulher) há um feto, um amontoado de células e que pode ser feito o aborto sem problemas. Se você acredita que há vida e se está matando uma pessoa então não faça um aborto, pq isso é uma opinião pessoal sua, mas não obrigue uma mulher que não acredita no mesmo que você a ser mãe se ela não quiser. Da mesma forma que se deve respeitar um cara que nunca se marturbou por acreditar que estaria matando as milhões de vidas celulares, os espermatozóides ejaculados. Quarto que ninguém se importa com milhares de fetos que se perde por ano, milhares de mulheres que abortam e morrem. O Estado e as pessoas que concordam coma criminalização do aborto não dão a mínima pra esses fetos e pra essas mulheres. A lei é eficaz em matar mulheres, pq é mais fácil criminalizar do que investir em educação sexual e informação. O que se quer é manter o status quo, a gravidez compulsória, o controle sobre os direitos reprodutivos das mulheres.

  8. Jane Oliveira
    mar 25, 2016 @ 19:35 {Responder}

    Adorei o texto. Só faltou dar indevido crédito à página Mulher Childfree, cuja frase está ilustrando o post.

    • mar 26, 2016 @ 01:15 {Responder}

      Oi Jane, tudo bem? Qual seria a frase? Você tem o contato de alguém da página para eu entrar em contato e resolver isso?
      :)

  9. Vanessa
    jun 05, 2016 @ 00:29 {Responder}

    Que ótimo texto.
    Que nossas reflexões mudem o mundo!
    Sou mãe. Sexo com camisinha que rompeu. Pílula do dia seguinte que não funcionou. Aborto que não concretizou. Maternidade compulsória. Eu consegui superar essas coisas e aprender com a maternidade. Aprender muito sobre mim.
    Mas eu não penso que ainda bem que isso aconteceu pois eu não imagino minha vida sem um.filho…
    Eu reconheço a importância que a maternidade tem pra mim hoje. E amo muito ser mãe. Muito mesmo! Nossa se tem uma coisa que me orgulho é da mãe que tenho sido.
    E se eu não tivesse engravidado? Certamente teria seguido por outros caminhos.
    Mas não é pelo fato de eu ter mergulhado na maternidade que vou esquecer das.manas que não vão mergulhar. Que não querem ser mães. Precisamos ter nossos desejos garantidos sim. Pq o cara fica se fazendo pra usar camisinha e a gente tem que ficar cobrando… Tudo culpa da gente! Sempre!

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