26 fev 2017

Gravidez não é doença, mas é debilitante!

Post por Isabela Kanupp às 13:26 em Feminismo, Maternidade

Muitos já conhecem história de como eu descobri a minha gravidez, basicamente, descobri com 24 semanas. Uma gravidez que aconteceu por falha no anticoncepcional e que foi “assintomática”. A realidade é que os poucos sintomas que eu senti no início da gravidez, eu associei com outros fatos, até mesmo porque era i m p o s s i v e l eu estar grávida, afinal, tomava anticoncepcional.
Mesmo tendo associado com outras coisas (“minha gastrite atacou”, “devo ter comido algo que fez mal”), não tive enormes desconfortos e talvez justamente por isso demorei para descobrir que estava grávida.
Mais para o final da gestação sentia pequenos incômodos, principalmente na questão de me locomover: eu fiquei enorme e minha noção espacial sumiu totalmente.
Porém, nada disso se compara com o que já me relataram e algumas gravidezes que acompanhei de perto. Acredito que a minha gestação está inclusa no que chamamos de uma gravidez tranquila.

gravidez

Dizem por aí que a gravidez é um momento maravilhoso! Que estamos gerando uma vida e que temos que ser muito grata por tudo isso. A verdade é que isso não passa do que chamamos de romantização da maternidade.
Claro que você pode achar esse momento lindo e maravilhoso, mas isso não muda o fato de que seu corpo está mudando, que você está tendo uma chuva de hormônios, que provavelmente você irá aumentar o seu peso e tamanho e que tudo isso gera desconforto físico, mal estar, desanimo. E o principal: você não precisa aguentar tudo isso com um sorriso no rosto.

Gravidez não é doença, não mesmo. Mas uma gestação pode nos acarretar diversas limitações, um cuidado redobrado com a nossa saúde e muita indisposição. Não é doença, mas muitas vezes pode nos deixar debilitada. E mesmo que a sua vizinha esteja fazendo faxina com 40 semanas de gestação, VOCÊ NÃO É A SUA VIZINHA.

São pessoas diferentes, organismos diferentes, contextos diferentes. Assim como quando toda uma família fica gripada, nem todos tem os mesmos desconfortos, na mesma intensidade.

Existe uma cobrança gigantesca para que estejamos super dispostas na gravidez e amando tudo. O que ninguém nos conta é que são pouquíssimas as mulheres que se sentem verdadeiramente dispostas durante esse período e que é impossível amar tudo, principalmente quando se trata de uma mudança tão grande como uma gravidez.
Ficamos emocionalmente abaladas e vulneráveis, não somente pelo nível de hormônios que mudam, mas porque cada uma de nós passamos pela gravidez em uma situação particular de nossas vidas, cada uma com seu contexto, com seus medos, suas dores, seus traumas. Estamos ali, na espera, sabendo que tudo irá mudar completamente e quase nunca estamos preparadas para isso, justamente porque existe uma romantização e tudo é muito nebuloso.

Uma grande parte das mulheres passa pelo período da gravidez sozinhas, mesmo que essas mulheres sejam casadas ou estejam com o pai do bebê, a gravidez é um momento muito solitário. Vivemos em uma sociedade machista e isso reflete em tudo o que nós fazemos e vivemos, na gravidez não é diferente.
Justamente por ser um processo que ocorre no corpo da mulher, muitos homens acreditam que não tem que participar, não tem que fazer a parte deles ou acreditam que a parte deles restringe à questão financeira, quando na verdade vai muito além disso.
Também tem o fato de que muitos amigos se afastam quando engravidamos, consciente ou inconscientemente por não saberem lidar com a situação, por ser algo novo para eles também, o que faz com que a solidão aumente.
Tudo isso somado ao fato de estarmos vulneráveis emocionalmente, faz com que toda a situação não seja a coisa mais agradável do mundo.

A sociedade nos cobra, a família nos cobra, os amigos nos cobram. Existe a romantização da maternidade, o mito de que a gravidez é algo mágico e maravilhoso. E além de termos que passar por tudo isso sozinha, ainda somos julgadas se falarmos como realmente nos sentimos na gravidez, então muitas mulheres guardam todo esse desconforto para si e tenta se convencer de que tudo está maravilhoso, ou pior, que o problema é com ela.

gravidez

Eu comecei a me sentir deslocada na gravidez – e isso se estendeu por boa parte dos primeiros anos de vida da minha filha -, justamente por não ter com quem dividir tudo o que eu sentia. Mesmo já existindo grupos de maternidade na época, ainda era focado muito na questão de mudanças e desenvolvimento do bebê e pouco sobre as mudanças que nós mulheres passamos e sentimos. Não que tenha mudado muito hoje, porém vejo que felizmente hoje conseguimos um pouco mais de espaço para falar sobre a gravidez de forma sincera, mesmo que isso ainda esteja restrito a grupos ou meia dúzia de amigas que não irão nos julgar.

Lembro que na gravidez eu sentia vontade absurda de ter uma conversa franca sobre tudo o que eu estava passando, mas não era possível. Eu não conseguia ter momentos que, até então, eu considerava momentos que toda grávida passa, como conversar com a barriga.
Parece bobo, mas eu era cobrada e me sentia péssima. E isso tudo me amedrontava mais ainda: será que não amo minha filha? Será que ela se sentirá rejeitada? Será que eu tenho algum tipo de problema?
Tudo isso gerou uma pressão totalmente desnecessária para o momento, uma cobrança para além de todas as outras que já temos.

Assim como eu não conseguia conversar com a minha barriga – e achava isso absurdamente esquisito -, eu também não conseguia me achar a pessoa mais bonita do universo. Estava bem longe disso na verdade.
Mesmo com toda a ajuda hormonal desse momento (cabelo ficou maravilhoso e coisas do gênero) eu me sentia um lixo. Tenho pouquíssimas fotos gravida – foto da barriga semana a semana então, jamais -, justamente porque eu não aceitava tudo aquilo, me sentia péssima e hoje só me arrependo por não ter recordações em foto desses momentos.

Hoje por mais que eu entenda que a minha gravidez foi “tranquila” em relação a mobilidade – eu saia, fazia minhas coisas, me sentia disposta quase sempre -, eu vejo que os fatores psicológicos foram avassaladores e muito mais profundos. Assim como entendo que muitas mulheres não pretendem mais ser mães justamente porque a gravidez é um momento muito complicado.

Precisamos com urgência parar de tratar gravidez como um momento mágico e santificar mulheres gravidas. Como se a partir daquele momento todos nossos problemas tivessem desaparecido, como se tudo fosse maravilhoso e tivéssemos que sorrir sempre.  Mesmo grávidas ainda somos humanas, ainda somos mulheres, ainda sentimos, ainda ficamos tristes, ainda temos nossos problemas para além da gestação, ainda somos seres humanos com quereres.

Da mesma maneira que a sua gravidez possa ser maravilhosa e tranquila, da sua vizinha com o mesmo tempo de gestação pode não ser. Seja compreensiva, seja empática, não gere cobranças para além do que já somos cobradas, nem para você e nem para ela. Compartilhem experiências, ouça o que ela tem para dizer, tente buscar soluções para os desconfortos seus e dela. Se unam. Nós mulheres já somos julgadas e cobradas a todo momento e por todos, não precisamos engrossar esse coro.

Entenda que todas nós somos diferentes, somos indivíduos únicos e que por mais que estejamos passando pelo mesmo momento que outra mulher, esse momento pode se manifestar de maneiras diferente para as duas. E acredite, você não é anormal por não fazer o que “toda-grávida-faz”. Você não ama menos o seu bebê, você não será “menos mãe” do que quem conversa com a barriga. Sua bagagem, sua vida, seu histórico de vivências é algo único e não tem como comparar com a experiência de outras mulheres.
Acolha, mas não se esqueça que você precisa SE acolher também.

Tente não se cobrar tanto. Muitas de nós acreditamos que não vamos conseguir ter vínculo com o bebê se não conversarmos com a barriga e nos forçamos a uma situação desconfortável. Porém, vínculo é algo que se constrói de diversas maneiras!
Tente não dar ouvidos a quem tenta te comparar, você é única e só você sabe como está sendo essa experiência de gravidez para você. Sei que é difícil, mas tente se cercar de coisas boas, momentos que te façam feliz, tente relaxar dentro do possível e fazer o que você goste e te traga felicidade. Você estando feliz e tranquila, ajuda demais em todo processo. Principalmente em aliviar o peso de um momento que nos deixa tão vulneráveis.

E acredite: tudo passa! Sei que parece que o primeiro trimestre não passará nunca, mas passa. Sei que parece que a gravidez será eterna, mas não será. TUDO PASSA! O segredo é tentarmos transformar essa caminhada em algo mais confortável possível para nós.

Facebook | Instagram

Ajude o blog a continuar no ar.
Caso queira nos apoiar, poderá doar qualquer valor:

Caixa Econômica Federal Agência: 4490 – Operação: 013 – Conta Poupança: 3987-8
*Para doar não é necessário se cadastrar no PagSeguro ou no Paypal.

2 comentários para "Gravidez não é doença, mas é debilitante!" | Adicione o seu »

  1. fev 26, 2017 @ 14:43 {Responder}

    […] post Gravidez não é doença, mas é debilitante! aparece primeiro no Para Beatriz – Maternidade e […]

  2. fev 28, 2017 @ 15:49 {Responder}

    Esse post devia ser distribuído para toda grávida logo na primeira consulta de pré-natal.
    É um mar de comparações e julgamentos a vida toda, mas quando a gente engravida parece que ficamos afogadas nesse mar.