24 jun 2016

Vamos falar da romantização da exploração materna?

Post por Isabela Kanupp às 02:19 em Feminismo

Esses dias eu estava no Pinterest procurando imagens relacionadas a maternidade. Então eu encontrei essa imagem:

 

exploração materna

Essa imagem já é antiga, capaz que muitos de vocês já tenham visto, e existem diversas imagens similares a essa.
Há muito tempo, eu não veria absolutamente nada demais nessa imagem e até mesmo acharia fofa, quem sabe até uma homenagem para diversas mães. Afinal, ser mãe não é fácil, ainda mais na sociedade que vivemos.
Porém dessa vez foi diferente.

Essa imagem é muito problemática e faz parte de uma romantização da exploração materna. Mostra exatamente como as mães são vistas na nossa sociedade e como isso é normatizado.
Sim, fazemos o “trabalho de vinte”. E fazemos esse trabalho “de vinte” sozinhas justamente porque homens não assumem sua responsabilidade como pais e cuidadores. Justamente porque vivemos em uma sociedade onde “cada um sabe do seu” e o filho da vizinha é somente “problema” dela.

Não é de hoje que nos deparamos com diversos textos – não somente – na blogosfera materna sobre a exaustão de mulheres mães, sobre como ser mãe é não ter tempo para si, como é cansativo e como chegamos no fim do dia acabadas e claro, finalizando que apesar de tudo isso é ótimo ser mãe, que “ser mãe é assim mesmo”, que somos muito guerreiras por aguentar tudo e não arregar! Mas será que tem que ser assim? Qual seria o problema se “arregássemos”?
Para mim é muito nítido que só nos sentimos sobrecarregadas, exaustas e fazendo o “trabalho de vinte”, porque estamos cuidado sozinha de uma criança que foi feito em dois. Porque estamos fazendo o nosso trabalho e o do outro, nos anulando enquanto o outro segue sua vida quase que normalmente.

exploração materna

Sempre que toco nesse assunto, muitas mulheres relativizam o fato de que, como em geral elas ficam em casa – não trabalham fora -, elas acabam cuidando mais mesmo. Ou até mesmo que o marido trabalha muito e chega muito cansado. Mas, nós sabemos, que ficar em casa não é sinônimo de fazer nada. Então porque nosso trabalho – mesmo que dentro de casa – é tão desvalorizado até por nós mesmas? Porque mesmo fazendo tantas coisas em casa, ainda assim achamos que a maior parte do cuidado com as crianças tem que ser nossa?
Ser mãe, ser pai (exercendo a paternidade!), ser cuidador de uma criança é cansativo sim! Cansa, desgasta, exige super da gente. Mas com certeza, se as tarefas fossem divididas e as responsabilidades assumidas, chegaríamos no fim do dia menos cansadas, menos exaustas e desgastadas.

Da mesma forma que a sociedade exime o homem do cuidado paterno, com todo o endosso a comportamentos negligentes, com as frases que já conhecemos tão bem como “homem é assim mesmo”, “pai é pai, mãe é mãe”, “mulher tem instinto, homem demora mais”. Essa mesma sociedade também joga toda a carga de cuidados de uma criança apenas para a mulher, e normatiza isso. Deixa de uma forma bonitinha para parecer que somos super mulheres e que isso é ótimo para nós. Mas não é, não.

Uma vez na fanpage do blog falei sobre a exploração da mulher mãe, era esse mesmo assunto, falando de como somos exploradas. Muitas se defenderam que cuidar dos filhos não era exploração. Mas quem disse que estamos acostumados a vermos o que é exploração? Cuidar de filhos realmente não é exploração, exploração é cuidar dos filhos sozinha sendo que você não fez sozinha. Exploração é quando a sociedade coloca que você não pode desistir, não pode sucumbir, não pode jogar a toalha. Exploração é quando nos dão um papel de mártir por nossos filhos e eximem os homens de suas responsabilidades.

Contar para vocês, vocês não vão amar menos os filhos, vocês não vão ser “menos mães”, vocês não serão menos batalhadoras (só de ser uma mulher sobrevivente nessa sociedade, já somos), por reconhecer a opressão e a exploração de ser mulher mãe nessa sociedade. Por exigir do seu companheiro, do pai do seu filho, do seu marido, que ele assuma as responsabilidades que são deles. E a responsabilidade do homem pai, não é colocar o sustento em casa. A responsabilidade do homem pai é a mesmíssima que a sua: cuidar e educar. E cuidar abrange, inclusive, tarefas como alimentar o filho, dar banho no filho e tarefas que hoje são vistas apenas como da mãe.
Ser pai não é “ser assim mesmo”, não tem que ser sinônimo de negligência e ausência na vida do filho. E ser mãe, não é ser sinônimo de aguentar tudo e não reclamar. Não é sinônimo de aguentar.
Muitas pessoas dizem que o pai demora mais para pegar jeito mesmo, que a mulher nasceu sabendo ser mãe. Isso além de ser absurdamente mentiroso e irreal, ainda culpabiliza mulheres que não sabem ser mãe (eu não sabia, quem aqui já sabia trocar fralda, cuidar, etc de uma criança desde que nasceu?) e exime os homens dos cuidados paternos.
Se o seu filho só para de chorar no seu colo, só dorme com você, não significa que você tem instinto e que por isso ele é mais apegado que você, significa que existe uma ausência de vínculo dele com o pai. E o que faz o vínculo? A presença, o cuidado no dia a dia, ACOSTUMAR-SE com a presença do outro!

exploração materna

Apesar de ser uma defensora da amamentação, eu não acredito que a amamentação é responsável pelo vínculo mãe e bebê. Na verdade, não é o ato biológico de amamentar ou algo especial no leite, mas sim o fato de que, a mulher que amamenta está mais ligada ao bebê no dia a dia, nos afazeres do cotidiano, está mais em contato com o bebê. Enquanto o homem usa a desculpa do “não posso fazer nada, não sou eu quem amamento” e se ausenta. Não é o fator biológico que cria o vínculo, é o ato de amamentar, de ficar presente… junto! E ninguém precisa amamentar para ter esse vínculo, mulheres que não amamentam constroem vínculos com os seus filhos de outra maneira, mães não biológicas constroem vínculo com seus filhos de outra maneira. Porque o pai não construiria?

 

 

A questão é: você não tem que fazer o trabalho de vinte sozinha, nem pagando e nem de graça!
Você não deveria ter que abrir mão totalmente da sua individualidade, por conta dos filhos. Você não deveria ter que tomar um banho corrido, por conta dos filhos. Você não deveria ter que ficar sem ver suas amigas, por conta dos filhos. Você não deveria ter que ficar sem fazer o que gosta, por conta dos filhos.
Se é dividido, se todos os envolvidos assumem as responsabilidades, não seria assim. Não nesse ponto.

 

Não faça o trabalho de vinte. Faça o trabalho de uma.

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3 comentários para "Vamos falar da romantização da exploração materna?" | Adicione o seu »

  1. set 04, 2016 @ 08:30 {Responder}

    […] Vamos falar da romantização da exploração materna? […]

  2. set 05, 2016 @ 17:46 {Responder}

    […] falei diversas vezes da romantização que rola na maternidade e como isso é nocivo e papel fundamental para mantermos mulheres sendo mães de forma […]

  3. fev 26, 2017 @ 13:27 {Responder}

    […] e que temos que ser muito grata por tudo isso. A verdade é que isso não passa do que chamamos de romantização da maternidade. Claro que você pode achar esse momento lindo e maravilhoso, mas isso não muda o fato de que seu […]

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