21 fev 2014

Blogagem coletiva Coração Materno: Vamos falar de escolha?

Post por Isabela Kanupp às 13:18 em Sem categora

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Vamos falar de escolha?
Primeiramente gostaria de falar que eu pude escolher diversas coisas: escolhi amamentar de forma prolongada, escolhi praticar cama compartilhada, escolhi ficar em casa até os 2 anos de idade da minha filha, e por aí vai.
E agora, gostaria de dizer é que, se eu escolhi é porque eu tive opções.
E se eu tive opções eu já posso me sentir privilegiada – porque sou -, pois de alguma forma, tenho um benefício que tantas outras mulheres não tem.

Uma grande parte das mulheres simplesmente não podem escolher. Simplesmente não podem abrir mão de trabalhar fora para ficar 2 anos com a criança em casa – por mais benefícios que existam -.
Então, me diga, o que você escolheu?

Dito isso gostaria de partir para o segundo ponto: o que é uma escolha?
O que nos leva a fazer uma escolha?

Vou contar uma coisa para vocês, sou dessas que morria de medo de ter parto normal por causa da dor.
Minha filha veio ao mundo com 41 semanas através de uma cirurgia. Uma cesárea agendada. Por indicação do meu cardiologista, que achou arriscado eu tentar um parto normal, por conta da minha cardiopatia congênita.
Eu queria um parto normal. Porque muito além do medo da dor, eu tenho medo de cirurgia, anestesia, corte. Talvez se fosse hoje eu teria um parto normal, pois estaria mais informada, estaria talvez empoderada.

Mas a questão é: porque eu tenho medo de algo que nunca aconteceu comigo?
Dor é algo muito pessoal. O limite de dor de cada pessoa é realmente algo… pessoal. Então, como eu sentia medo de uma dor que eu não sabia como era?
Porque desde pequena eu ouço que parto normal dói, que é horrível. Eu via na televisão, mulheres gritando em sofrimento – e veja bem, o problema não é gritar, é sofrer -, sempre ligado a algo horrível, doloroso, uma punição. Desde pequena eu ouço que minha mãe “não podia ter parto normal”, e que ela “quase morreu para ter vocês e acabou sendo cesárea”.

Eu cresci ouvindo o quanto isso é horrível. Eu cresci vendo o quanto isso é horrível.

Quantos filmes você já assistiu com uma cena de cesárea dando errado? Com cena de mulher sendo amarrada na maca para ter o filho? Quantas cenas contém uma mulher dando a luz em casa – porque isso não é algo atual! – SEM sofrimento?

Pois é, existe tudo isso. Existem mulheres que dão a luz em casa sem sofrimento, assim como existem muitas mulheres que morrem em cesáreas, que são amarradas, desrespeitadas (mas isso não passa, porque será?), muitas mulheres tem orgasmos quando vão dar a luz. Mas eu nunca vi. E isso moldou minhas escolhas.
Assim como molda as suas.
Assim como todos nós somos influenciados pelo meio no qual vivemos, pela cultura, pelo que ouvimos, pelo que assistimos e pelo que deixamos de assistir e ouvir.

Então uma escolha nunca é “só” uma escolha. Está ai cheia de história, influencias, e reflete muito sobre o meio no qual vivemos.

Hoje acho muito difícil dizer que todas as mulheres devam amamentar. Hoje meu desejo é que todas as mulheres tenham oportunidades iguais para que consigam amamentar, tendo acesso as mesmas informações, e por aí vai.
Porque enquanto vivermos em uma sociedade desigual, isso será muito complicado.

Não quero dizer que devemos parar de militar ou de acreditar. Mas que, devemos entender que:

1) nem todos tem escolhas.

2) nem todos tem as mesmas oportunidades.

3) escolhas são influenciadas.

Só a partir do momento em que todas as mulheres receberem a mesma informação, tiverem as mesmas oportunidades, poderemos “exigir” que a amamentação seja algo para todas.

Porque hoje, infelizmente não é.

Então muito mais do que escolhermos e conseguirmos bancar nossas escolhas (o que é importante!) é conseguir com que outras mulheres possam escolher. É ter sororidade e empatia com a mulher que não amamenta – porque não, ela pode não ter tido as mesmas oportunidades que você -, é ter sororidade e empatia com a mulher que marca uma cesárea, é ter sororidade e empatia com a mulher que coloca – por necessidade ou não – a criança aos 6 meses na creche.

Porque essas mulheres são tão vítimas quanto você. E nós todas somos vítimas dos mesmos opressores.
E quando ficamos apontando o dedo para outras mães, para outras mulheres, os nossos verdadeiros opressores estão por aí. Estão anunciando leite artificial em revista para pais. Estão negando vaga em creche pública. Estão violentando a mulher na hora do parto ou da cesárea.

Porque enquanto discutimos as escolhas de forma rasa, estamos esquecendo de quem nem chance de escolher teve!

 

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Não quero dizer que tem que ser uma grande campanha pela não culpa, não é isso. Mas é acolher essas mulheres e entender que escolha nem sempre é consciente e informada, e isso não é culpa daquela mulher, mas do sistema no qual vivemos.
Porque quando apontamos para a mulher que não amamentou, e falamos que ela não fez isso porque “não quis” estamos reforçando o discurso das grandes empresas, estamos segregando, estamos indo contra quem nós deveríamos ir a favor.

Desde pequenas somos ensinadas a odiarmos outras mulheres, aprendemos que é melhor ter amigo homem do que amiga mulher, que mulheres são falsas. E essa é a arma do patriarcado para nos desunir. E sororidade é isso, é ver a outra, como uma irmã. É nos unir. É ao invés de ridicularizar, expor, julgar outra mulher e suas escolhas, estender a mão, acolher, ajudar.

 

É nos fortalecer como grupo.

 

 

8 comentários para "Blogagem coletiva Coração Materno: Vamos falar de escolha?" | Adicione o seu »

  1. fev 21, 2014 @ 23:06 {Responder}

    Sejamos mais amigas. Sejamos mais unidas <3

    beijos!

  2. fev 22, 2014 @ 07:37 {Responder}

    Sem guerra e sem julgamento. Respeito e apoio mútuo. Bjs Gisa Hangai

  3. fev 23, 2014 @ 21:33 {Responder}

    […] Vamos falar de escolha? Por Isabela Kanupp, do Para […]

  4. fev 24, 2014 @ 14:11 {Responder}

    […] Vamos falar de escolha? por Isabela Kanupp do blog Para Beatriz. […]

  5. fev 24, 2014 @ 15:40 {Responder}

    Oi, Isabela!
    Eu li a palavra “sororidade” pela primeira vez aqui em seu blog. Em golpe de vista, achei que era “sonoridade”. Pesquisei no dicionário, não encontrei, mas vi palavras que têm a mesma raiz: sóror, que quer dizer “irmã”. Adorei! E acho mesmo que tem a ver com “sonoridade”, com a capacidade de ouvir, de contar (nas duas acepções: dizer e somar), de ter voz.
    Parabéns pela iniciativa, sóror.
    Beijos!

  6. fev 25, 2014 @ 10:44 {Responder}

    Nossa luta é para não perder o foco, não culpabilizar a vítima e esquecer do verdadeiro problema!

    Que essa iniciativa ainda renda muitos frutos!

    (…)Porque essas mulheres são tão vítimas quanto você. E nós todas somos vítimas dos mesmos opressores.
    E quando ficamos apontando o dedo para outras mães, para outras mulheres, os nossos verdadeiros opressores estão por aí. Estão anunciando leite artificial em revista para pais. Estão negando vaga em creche pública. Estão violentando a mulher na hora do parto ou da cesárea.(…)

  7. fev 26, 2014 @ 09:51 {Responder}

    iniciativa maravilhosa! pena que não dá mais tempo de eu participar com esse tema, mas espero que venham muitos outros para que possamos nos unir e levar informação a quem mais precisa.

  8. mar 18, 2014 @ 14:03 {Responder}

    […] d, gostaria de viver nesse universo paralelo onde todas as mulheres tem acesso a informação e opção de escolha. E por conta disso, podemos pautar as escolhas dessas mulheres, podemos julgar se ela é boa ou má […]

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