04 jun 2017

Divisão do trabalho doméstico: executar ou se responsabilizar?

Post por Isabela Kanupp às 23:27 em Feminismo

divisão do trabalho doméstico

 

Há um tempo eu escrevi um texto aqui no blog, que até hoje tem muito acesso. Não é à toa que é um dos textos mais acessados: o Google, de forma orgânica, encaminha as buscas para esse texto com palavras chaves como: “como fazer meu marido me ajudar em casa”, “meu marido não precisa me ajudar em casa porque trabalha fora?”, entre tantas outras frases do mesmo gênero.

Sempre falamos sobre eliminar das nossas vidas a palavra ajudar. “O pai da minha filha me ajuda com ela”, não, ele não te ajuda. Ele faz a obrigação dele. Quando colocamos que alguém nos ajuda, significa que essa pessoa não tem obrigações com aquilo e está apenas te fazendo um favor, um pai cuidar da própria filha, dar banho, alimentar, etc, não é um favor a ninguém, é apenas um pai cumprindo sua obrigação de pai.
Assim como quando seu companheiro lava a louça, estende a roupa ou faz qualquer trabalho doméstico, ele não está ajudando em casa, está cumprindo a obrigação dele, assumindo uma responsabilidade que é dele também.

Sei que a maneira como encaramos a nossa vida, as nossas relações e também a divisão dos trabalhos é um reflexo da maneira como fomos criados, e a maneira mais comum é que isso é uma responsabilidade e função de mulheres e que os homens ainda são os provedores. Desconstruir essa maneira de agir é algo muito complicado e leva tempo, e acredito que os debates dos últimos anos em relação a isso tenham feito muito bem o seu papel, para trazer a tona o assunto e trazer também uma mudança de perspectiva. Muitas de nós já entendemos que não somos obrigadas a cuidar de todo o trabalho doméstico sozinhas, apenas porque “não trabalhamos fora” entre tantas outras questões que no campo teórico está muito evidente.
Porém sabemos que na prática, a divisão do trabalho doméstico é praticamente impossível de ser realizada de forma realmente justa, até mesmo porque ainda vivemos em uma sociedade machista que se sustenta em uma mentalidade na qual se a mulher não trabalha fora, não traz o sustento para a casa, e consequentemente permanece mais tempo dentro de casa do que o homem, a obrigação com a casa – limpeza, organização, etc – é dela. Enquanto essa mesma mulher, mesmo se ela trabalhar fora, a obrigação e responsabilidade pela casa continuarão sendo apenas dela. Ou seja, quando falamos de divisão do trabalho doméstico, tudo fica muito subjetivo porque nem sempre temos uma visão – modelos e exemplos – do que seria uma divisão justa, principalmente porque, para nós mulheres, já está naturalizada a questão de termos – e aceitarmos – duplas e triplas jornadas.

divisão do trabalho doméstico

Essa visão se sustenta, também, porque acreditamos que a mulher que “fica só em casa” tem de alguma maneira uma espécie de vantagem em relação ao homem que sai para trabalhar fora. Vantagem de conforto, comodidade e tempo, sendo que sabemos como é atribulado um dia a dia, da mulher mãe, mesmo que ela “só” fique em casa. E que se houvesse uma maneira de colocar na balança todo o estresse que passamos, o desgaste físico e emocional que passamos, os conflitos que tentamos resolver durante um dia, muitas de nós, que são “apenas dona de casa”, optariam por ter uma jornada de 44 horas semanais, batendo cartão de ponto e aguentando chefe mala.

Eu tenho amigas incríveis e queridas, que trabalham muito, outras tantas estudam e são mães, e que acreditavam que seus companheiros assumiam a responsabilidade da divisão de tarefas, afinal, eles lavavam a roupa, cuidavam das crianças, e até mesmo cozinhavam o jantar. Porém, com o tempo, foram percebendo que não havia uma real divisão, que apesar de executarem essas atividades, não assumiam para eles essa responsabilidade. Assim, tudo era visto como algo grandioso, ao mesmo tempo que quando não era feito, era encarado como algo banal. Afinal, a responsabilidade não era deles, não eram eles que seriam cobrados.
Também acompanhei de perto conhecidos que “ele faz tudo em casa”, porém, para isso acontecer, a mulher tinha de avisá-lo sobre todas as coisas que ele deveria fazer. “Levou a fulaninha tomar vacina?”, “Lava a louça porque chegando em casa vou fazer a janta”, “Coloca a roupa na máquina no ciclo pesado”, apesar do homem executar as tarefas, a responsabilidade real, ainda assim, estava sobre os ombros da mulher.

divisão do trabalho doméstico

Quando eu morava com o pai da minha filha, eu pude observar algumas questões importantes em relação à divisão de tarefas. Desde sempre eu tive diversas responsabilidades: cuidados com o meu pai, cuidados com a minha filha, cuidados com a casa, cuidados financeiros com as contas de onde morávamos. E, com certeza, tudo isso era coisa demais para mim, e tentávamos sobreviver. As vezes esquecia de marcar algum exame importante, outras tantas a louça ficava acumulada e íamos nos virando, às vezes eu tirava o lixo e deixava no quintal esquecendo completamente de colocar na rua para a coleta, e TODAS as vezes, eu era cobrada por tudo isso. Mesmo que comigo morasse outro adulto completamente capaz de colocar um lixo na rua, lavar uma louça ou marcar um exame, eu era cobrada, eu passava por constrangimento. Porque dele não era cobrada a responsabilidade dessas questões. Se fez, fez. Se não fez, tudo bem, vamos cobrar a mulher da casa.

Além de todas essas questões, naturalizamos o não saber dos homens. Em grupos maternos, sempre foi comum reclamações de mulheres recém mães dizendo que quando o pai da criança fazia algo simples (como dar um banho, trocar uma fralda) fazia tudo errado, mesmo sendo algo extremamente simples de se executar. Eu já fui da turma que incentivou o “que ele faça errado, não prejudicando a criança, nem tudo tem que ser do nosso jeito” e pedi mais paciência para nós mulheres, ainda hoje eu vejo um sentido nessa linha de pensamento, pois somos indivíduos únicos e, mesmo uma tarefa simples, cada um executa de uma maneira diferente, e não há problema nisso, afinal, não é porque é diferente que seja errado. Porém hoje eu também acredito que seja importante entendermos – e nos fazer entender – que os homens são completamente capazes de realizar essas tarefas tanto quanto nós, e, por que não, melhores do que nós?
Eu não nasci sabendo dar banho em bebês, e o primeiro banho que dei na minha filha foi um desastre, assim como só fui aprender a lavar roupa de verdade recentemente (jurava que era só colocar na máquina de lavar e ligar).
Atividades domésticas são atividades chatas? Sim, são. Para a maioria das pessoas são atividades absurdamente maçantes. Porém são coisas que têm que ser feitas por alguém, e, infelizmente, de modo geral, esse alguém sempre será uma mulher – quando não a esposa, a mãe ou a empregada – sendo que os homens são completamente capazes de aprender a executar essas tarefas.

Somos tão condicionados a associar as tarefas domésticas às mulheres, que desconstruir essa linha de pensamento é algo difícil e constante.
Há uns anos, passei muita vergonha em relação a isso, e já devo ter contato isso em algum momento em outros textos, há uns anos, quando eu não tinha tanta habilidade na cozinha, eu recorri a uma amiga para saber se um feijão que eu havia congelado há meses, estava estragado ou não. Como não consegui falar com ela, mandei uma mensagem para o seu companheiro perguntando se ele estava com ela, pois precisava tirar uma dúvida com ela. Ele se prontificou a me ajudar, e mesmo depois de eu insistir que seria apenas com ela, pois ele provavelmente não saberia me ajudar, ele insistiu e eu o questionei. Ele não só me explicou, como me questionou: “O que te fez pensar que eu não saberia? Só porque sou homem? Sou eu quem cozinho aqui em casa!”.
Estamos tão condicionados a acreditar que determinadas funções são funções de mulheres, que nem sempre passa pela nossa cabeça que muitas vezes dentro daquela dinâmica familiar não é.

Já fui muito questionada se eu acredito que seja possível uma divisão do trabalho doméstico sendo 50/50, e não, não acredito. Ainda temos que evoluir muito como sociedade para isso, mas acredito que não podemos deixar de lutar por isso e buscar a mudança através do nosso movimento. E a luta, querendo ou não, começa em casa. Começa com a mudança de pensamento, a mudança do agir, entender que nem tudo é nossa responsabilidade e muito menos seria apenas por sermos mulheres. A mudança começa quando entendemos que, apesar de não acreditar que é possível uma divisão dos trabalhos domésticos de maneira igualitária agora – dentro do nosso contexto social -, a luta é para mudar essa realidade e ficarmos mais próximos disso. E que existem outras maneiras de ser feito o trabalho doméstico, que mesmo que não seja igualitária nesse momento, é o caminho para o mais justo. Existem outras dinâmicas e não é porque sua mãe ou sua avó te disseram que isso é função de mulher, que se você fica em casa mais tempo o trabalho doméstico é seu, isso seja verdade e que não há outra maneira de ser feito isso. Não temos como mudar se não acreditamos na possibilidade, se não temos modelos e exemplos. Se fomos criadas achando que a responsabilidade da casa e dos filhos é da mulher, e não temos conhecimento de que existem opções, de que dá para fazer diferente. Dá sim.

divisão do trabalho doméstico

Algo muito comum na minha família – e isso faz parte de toda a questão de crescermos ouvindo e sendo influenciado por aquilo – são mulheres que criticam duramente outras mulheres por algo que não deveria ser dirigido apenas às mulheres.
“Olha como a fulana deixou essa casa, que porca”, e eu toda paciente explico que bom, não era obrigação somente da fulana, mas também do companheiro dela, que vivia na mesma casa, e se a casa está assim a responsabilidade é dos dois.

Fazer esse trabalho de mudar nossa visão e mudar a visão do outro em relação a isso é um trabalho árduo, de conscientização, de possibilidades, e até mesmo de confrontar, confrontar aquilo que fomos ensinados – e claro, nossos pais -, e justamente por isso pode ser muito difícil romper com alguns pensamentos. Afinal, indiretamente estamos reconhecendo que nossos pais, avós, e pessoas queridas, nos ensinaram de maneira equivocada. Porém, apesar de ser uma mudança difícil, principalmente quando falamos dos detalhes, é uma mudança muito recompensadora e benéfica para todos.

Quantas de nós, mulheres mães, não chegam ao fim de um dia tão exaustas e cheia de tarefas acumuladas? Não, isso não é normal. Estamos sobrecarregadas. E se estamos sobrecarregadas é porque alguém não tem feito a parte que lhe cabe e estamos fazendo a nossa e a desse alguém. Quem é o adulto que também deveria ser responsável por isso?

Essa semana vi uma publicação que ilustra muito essas questões colocadas aqui, a diferença entre executar uma tarefa doméstica e se responsabilizar de fato por aquela atividade. Achei sensacional e super didático. Acredito que seja bem útil para esclarecer de forma simples o que buscamos quando falamos sobre a divisão das tarefas domésticas de forma igualitária.

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1 comentário para "Divisão do trabalho doméstico: executar ou se responsabilizar?" | Adicione o seu »

  1. ENEIDA GONCALVES TEIXEIRA
    jun 07, 2017 @ 21:27 {Responder}

    Me senti totalmente contemplada com o quadrinho. Nem tanto pela divisão real do fazer, mas pela tarefa mental de pensar o que se precisa fazer…

Responder a ENEIDA GONCALVES TEIXEIRA





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