21 mai 2017

A luta contra o consumismo na infância e o capitalismo.

Post por Isabela Kanupp às 10:20 em Feminismo, Maternidade

consumismo na infancia

 

Desde que a minha filha nasceu o debate sobre consumismo na infância foi muito presente nas nossas vidas, seja pela questão ideológica que eu escolhi, ou até mesmo antes disso, que já era muito presente esse debate na blogosfera materna.

Minha posição em relação a isso é muito clara, e desde sempre escrevi sobre a questão do consumismo na infância e como isso é nocivo e pode distorcer a visão de todos nós dentro dessa sociedade capitalista no qual vivemos.
Porém, de um tempo para cá, eu vejo cada vez mais uma enorme confusão entre combater o consumismo e combater o consumo. Muitas pessoas por não ter informação de fato sobre a diferença entre consumo e consumismo acabam se afastando da ideia de luta contra o consumismo por acreditar que não se pode comprar nada, ter nada e que se comprar algo para o filho o estará estragando para todo o sempre.

É preciso também falar sobre a diferença entre a teoria e a prática e como, às vezes, a prática se torna muito difícil dentro de uma sociedade capitalista.
De maneira geral, o combate ao consumismo na infância é jogado como responsabilidade dos pais, e muitas vezes nos cobramos para além do necessário – e temos a tendência de acreditar que temos que banir o consumo – e nos culpabilizamos, por nossos filhos, principalmente quando maiores, mostrar uma tendência consumista. Ignoramos – e somos levados a ignorar – o fato de que crianças são influenciáveis e recebem influências de diversos locais, amigos, família, escola.

Atualmente o que vejo dentro da blogosfera materna anticapitalista como um todo, é um combate ao consumo e ao consumismo, porém de uma forma totalmente elitizada e sem nenhum tipo de recorte de classe.
Precisamos entender – e aprender a dialogar – que para as classes mais baixas, o consumo tem outro valor e que apenas esse discurso que não contempla essa realidade e não dialoga com ela, não basta por não ser eficaz.

Quando comecei a ter contato com essa militância anticonsumismo, muito se via sobre o combate dentro das escolas ao consumismo desenfreado de marcas que além de tudo, não fazia bem a saúde. Lembro nitidamente do caso da Kibom e seu freezer de sorvete nas escolas, algo que hoje, ao meu ver, continua sendo tão absurdo quanto antes, porém hoje também consigo ver o porque naquela época aquilo não me atingia: minha filha sempre estudou em escola púbica, na periferia, onde algo assim é tão surreal que  nem sabíamos que era possível existir  – um freezer de sorvete dentro de uma escola -, aqui na nossa realidade o consumismo nos atinge de outra maneira e não como um freezer bonito da marca famosa de sorvete.

consumismo na infancia

É preciso enxergar o que é consumismo para enxergar como ele nos atinge dentro da nossa realidade e não foi através de um freezer de sorvete em escolas que eu comecei a ver como o consumismo estava presente na minha vida.
Comecei a enxergar isso no meu primeiro emprego após o nascimento da Beatriz, onde eu ficava em média 12 horas entre trabalho e transporte longe de casa e associava consumir com preencher minha ausência. Sempre comprando coisas desnecessárias para a Beatriz, na esperança de que amenizasse a minha ausência naqueles momentos do dia.
Comecei a enxergar como o consumismo me atingia na gravidez da Beatriz, onde achava que iria morrer se não tivesse um kit berço, que na época custava menos de R$150 e nem em sonho eu tinha condições de comprar. Antes mesmo de ser mãe já me sentia uma péssima mãe por não poder comprar algo que, hoje sei, é totalmente dispensável.

 

O fato é que o consumismo atinge as pessoas dentro do seu contexto de diferentes maneiras, e justamente por isso, combatê-lo também depende desse contexto e por isso é preciso fazer recorte de classe.
Para a mulher mãe pobre, o peso de comprar algo para o filho após 12 horas distante de casa é totalmente diferente de comprar a mesma coisa para uma mulher em outro contexto.
O que vejo dentro dessa luta contra o consumismo, composta em sua maioria por mulheres brancas de classe média e alta, é o combate ao consumo do pobre. É lutar contra o consumismo fiscalizando o consumo do pobre.
A mim, esse consumismo de sorvete Kibon nas escolas nunca atingiu. Eu, mulher pobre, mãe solo, não sei o que é isso. Se o que é o consumismo simples, a propaganda no meio do jornal na televisão, a criança fazendo birra no meio do centro comercial da cidade porque viu um produto made in china.
Esse consumismo gourmetizado, que mães classe média sempre reclamam, também é reflexo do que essa mesma classe média alta sustenta.

É muito mais fácil ser conta o consumismo se você sempre deteve o poder de consumir.
Se para você a linha entre consumo e consumismo sempre esteve clara, porque era só uma questão de controle e não de compensação, já que esse poder sempre esteve em suas mãos.

Existe uma grande diferença entre a vlogger mirim que tem coleção de Baby Alive e a criança pobre que a mãe parcela em 12x algumas bonecas para ela. É consumismo em ambas as famílias, mas o peso é outro e a forma de combatê-lo também.

Quando falamos de consumismo na infância, não é sobre crianças, já que elas não detêm poder aquisitivo. Então o combate não é as crianças, a conscientização não é somente sobre as crianças, mas sobre os seus pais, com o foco do combate na estrutura que sustenta a isso. E existe uma enorme diferença entre os pais que ganham dois salários mínimos e estão trazendo o consumismo para dentro de suas casas e os pais que ganham dez salários mínimos. Então a forma de conscientização e/ou combate, também tem que levar em conta esses fatores do contexto de cada família.

consumismo na infancia

Não podemos exigir uma infância livre de consumismo enquanto somos adultos consumistas. Enquanto vemos necessidade de trocar de celular a cada lançamento, mesmo distante da nossa realidade financeira. Assim como não se pode cobrar uma responsabilidade apenas da família e culpabilizar os pais, enquanto a propaganda voltada para o público infantil ainda é vista com bons olhos.
Enquanto ainda que seja apenas uma parte dessa grande engrenagem, quem clama contra o consumismo infantil, é uma parte da população que sempre teve o direito de consumir e mesmo sendo uma pequena parte de toda estrutura, é também quem ajuda a mantê-la.
Se estamos militando sem fazer um recorte de classe, nossa militância não tem eficácia. Não há mudança se essa mudança não for para todos.


Enquanto estamos debatendo sobre o freezer da kibon nas escolas infantis que custam o dobro do salário do mês de uma mãe solteira, enquanto estamos debatendo como o consumismo é desenfreado visto que a nova tendência é ir para outro país fazer o enxoval apenas por questão de status, mulheres pobres comprometem boa parte do seu salário comprando coisas bacanas para os seus filhos, porque os filhos da patroa tem, porque fica muitas horas distante de casa e precisa compensar essa ausência de alguma forma.
Esse combate ao consumismo que a classe média que sempre foi abastada se indigna não me contempla. Esse combate ao consumismo, que tem origem no capitalismo, vindo de pessoas que se beneficiam e sustenta o sistema capitalista não me contempla. Eu não quero fazer parte do mesmo grupo que prefere pagar três salários mínimos em uma escola, para seu filho ter uma educação diferenciada dos demais, ao invés de lutar por educação digna e de qualidade para todos.
Essa luta anticonsumismo elitista, além de ser incoerente, não abraça as dores da maioria das famílias.

Que mais famílias tenham acesso à informação de qualidade, que mais mulheres possam se sentir acolhidas nas suas dores, que a luta anticapitalista – e também anticonsumismo – dialogue com quem nunca teve acesso ao consumo, que seja com empatia. Que a busca pela liberdade distante do consumismo seja algo para além das escolas caras dos filhos de quem sempre pode consumir, que seja algo que contemple a realidade distante deles.

Não podemos lutar de forma eficaz contra o consumismo na infância se não lutarmos contra o capitalismo como um todo.

 

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