19 set 2016

Precisamos falar sobre o “movimento” childfree.

Post por Isabela Kanupp às 02:06 em Feminismo

childfree

 

Estou para escrever esse texto há muito tempo, mas me faltava paciência para falar sobre o assunto. Todo ano o tema ressurge e é ótimo falarmos sobre isso, principalmente se formos ver pelo viés de que nenhuma mulher precisa ser mãe. Deveríamos – como sociedade – já termos avançado nesse debate há tempos, mas claro que em uma sociedade machista, qualquer coisa que diz respeito a liberdade e autonomia da mulher só regride e não progride. Mulheres que não querem ser mães existem e mulheres que nunca quiseram ser mães, mas são, também existem.

Entendo, respeito e irei defender toda a mulher que não quiser ter filho, a minha posição sobre isso não é de hoje. Ninguém, absolutamente NINGUÉM precisa ser mãe para ser feliz, realizada ou completa. Nenhuma mulher tem obrigatoriedade de ser mãe, não temos que “cumprir esse papel biológico”, muito menos seguir conselhos cristãos de povoar a terra. A terra já está muito bem povoada.

A questão central é o direito da escolha da mulher e irei defendê-lo sempre.

Porém precisamos pontuar algumas questões.
O “movimento” childfree tinha tudo para dar certo e inclusive, ser aderido por mulheres mães, afinal, nem toda mulher engravida porque quer, nem toda mulher é mãe por escolha. O movimento childfree deveria englobar todas essas questões, como a questão da legalidade do aborto, falando sobre maternidade compulsória e a romantização do ser mãe. Inclusive, é o que acontece em boa parte do mundo em movimentos como esse.

Infelizmente o que vemos não é isso. É muito fácil encontrar no facebook páginas sobre mulheres childfree, onde a grande maioria das publicações é voltada para ofender mulheres mães e seus filhos, destilar misoginia e expor mulheres mães. Muitas delas, que nem queriam ser mães, mas são. Também são compartilhadas diversas questões problemáticas que só colaboram para a desinformação das pessoas, coisas como “só engravida quem quer”. Um movimento com potencial de conscientizar mulheres a se prevenirem para não ser mães, conscientizar mulheres de que todos os métodos anticoncepcionais são falhos, serve justamente para o contrário, destila desinformação.

Se mulheres childfree não querem ter filhos porque sabem das privações que mulheres mães sofrem, deveriam focar sua luta no sistema patriarcal, e não em situações individuais de mulheres que já se tornaram mães – por desejo ou compulsoriamente. Afinal, a culpa da maternidade ser como ela é, não é das mulheres mães, mas sim do sistema no qual vivemos.

childfree

Como disse há muito tempo gostaria de tocar nesse assunto, pois todo ano o tema surge. Principalmente no mês de maio, mês que se comemora o dia das mães. Junto com isso, surgem as “mães de pet”, que posteriormente escreverei sobre, e que em geral, surge junto com essas páginas childfree, apenas pregando ódio as mulheres mães.

Resolvi escrever sobre isso hoje, pois há um tempo tenho no meu facebook um homem escritor bem conhecido nessa internet, e que hoje compartilhou uma página sobre childfree, falando sobre a importância de falarmos sobre a não maternidade e as escolhas das mulheres. Porém, uma página bem infeliz, que destila misoginia. Foram avisá-lo, falando sobre como essas páginas são cheias de ódio, discursos vazios – apesar da ideia ser boa, novamente ressalto que precisamos falar sobre o assunto – e de como essas páginas eram ofensivas com mulheres mães, que são estruturalmente oprimidas na nossa sociedade machista.
Quando questionaram e apontaram que mulheres mães se ofendem com a questão do Childfree, não por terem feito uma escolha diferente (que nem sempre é escolha), mas pelo discurso ser carregado de misoginia e ódio à criança, a pessoa que publicou isso, comentou que “não era ranking de opressão”. Queria elucidar uma questão: a maternidade carrega uma enorme carga de opressão, porém, a não maternidade não. Mulheres que não querem ser mães, sofrem pressão social, mas não opressão. Uma mulher não mãe não é excluída de espaços públicos, não é impedida de frequentar sua faculdade, não tem sua autonomia retirada, muito menos sentem necessidade de tutelá-la, seu corpo não se torna (mais) publico do que já é por ser mulher e por aí vai.

childfree

Existe uma enorme diferença entre opressão estrutural e pressão social.
Nenhuma mulher perde o emprego por não ser mãe, ou em uma entrevista de emprego ouve que “não é o perfil da vaga” (mesmo preenchendo todos os requisitos) somente por não ser mãe, acontece em casos como gordofobia, racismo, lesbofobia, mas não por não ser mãe.

Vivemos em uma sociedade onde a grande maioria das mulheres são mães de forma compulsória, seja porque nenhum método anticoncepcional é 100% seguro, seja porque o aborto é ilegal no Brasil. Pouquíssimas mulheres engravidam porque querem, porque desejam, porque escolheram engravidar, e mesmo dentro desse nicho de pouquíssimas mulheres, ainda assim, temos que avaliar até onde foi essa escolha, já que somos levadas a crer desde pequenas que a maternidade é nosso destino biológico e social, nosso dever como mulher.
childfreeDevemos entender que discurso contra mulheres e contra crianças (que também é uma classe oprimida), jamais será libertador. Destilar ódio contra crianças, chamar essas crianças de “catarrentos” – como vocês podem notar, na maioria dessas páginas childfree -, jamais será algo pró-mulher ou algo feminista. Justamente porque não vê a criança como uma classe oprimida, justamente porque quando se exclui crianças, quando destila ódio a crianças, você está fazendo o mesmo com suas mães, você está excluindo suas mães. Porque sim, na nossa sociedade, mesmo nós não querendo e lutando muito para isso mudar, crianças ainda são vistas – e em geral são – responsabilidade apenas da mãe. Se você exclui uma criança de um ambiente, consequentemente estará excluindo sua mãe também.

Essa noção de libertação individual não é compatível com o feminismo como mudança social. Porque não é possível você ser coerente dentro do feminismo, realmente ter prática feminista, se você quer sua liberdade oprimindo outras mulheres.

 

É possível ser childfree e não cometer nada disso, e não oprimir mulheres mães. É possível a construção de um movimento sério onde lute pela libertação de todas as mulheres, onde lute pela escolha de todas as mulheres. Mas essa não é a realidade do movimento childfree atualmente.

Atualmente é muito mais fácil você encontrar textos embasados e bem argumentados falando sobre childfree de mulheres que, pasmem, são mães. Justamente porque muitas dessas mulheres não desejavam ser mães, porém agora que são de forma compulsória, conseguem passar a mensagem sobre escolha sobre o seu corpo, maternidade compulsória e outros temas que deveriam estar também dentro do childfree, de forma mais empática e sem oprimir outras mulheres.

childfree

Ser childfree não tem relação com odiar crianças, mas sim com não querer ser mãe. Páginas que destilam ódio contra crianças, que pregam a violência contra a criança, não deveriam ser vistas como de fato childfree, mas apenas como mais uma página misógina.

É preciso não confundir a ideia de não querer gerar uma criança, de não querer ser mãe, com a ideia de odiar crianças.
Dentro do próprio movimento feminista vemos isso: o fato de você ser uma feminista que não quer ser mãe, não significa que você tem que cagar e andar para mulheres feministas que já são mães. Quando você reproduz conceitos como “quem pariu Matheus que o embale”, mesmo que somente em forma de atitude, você está reproduzindo a mesma ideia machista da nossa sociedade, de que o filho é responsabilidade apenas da mulher e não de toda uma sociedade.

Você quer realmente disseminar a ideia – excelente! – de que nenhuma mulher tem que ser mãe? Existem ótimas maneiras de se fazer isso, inclusive, falando sobre a opressão que é ser mãe, falando sobre como é difícil ser mulher na nossa sociedade, falando sobre como os métodos anticoncepcionais são falhos, de como a maternidade compulsória é construída desde a infância de nossas meninas. Se dizer childfree, dizer que você tem autonomia sobre seu corpo e sua vida, mas reproduzir misoginia e machismo, não é coerente. 

É necessário e urgente falar sobre o assunto, mas com responsabilidade e sem reproduzir opressão contra mulheres.

 

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11 comentários para "Precisamos falar sobre o “movimento” childfree." | Adicione o seu »

  1. set 19, 2016 @ 03:28 {Responder}

    […] post Precisamos falar sobre o “movimento” childfree. aparece primeiro no Para Beatriz – Maternidade e […]

  2. set 19, 2016 @ 06:27 {Responder}

    […] Precisamos falar sobre o “movimento” childfree. […]

  3. set 19, 2016 @ 06:33 {Responder}

    Casa comigo, Isa?

  4. Anônimo
    set 19, 2016 @ 10:05 {Responder}

    Texto maravilhoso e preciso. Às vezes, me entristece o fato de que, quando queremos que nosso ponto de vista seja reconhecido, precisamos humilhar e destilar o ódio aos demais, quando a vida se trata apenas de respeito. E escolha, nesse caso. Ser mãe deveria sim ser visto como escolha, e respeitar essa decisão cabe à sociedade como um todo. Assim como não ser mãe também é uma decisão que só diz respeito à mulher, não aos olhos da sociedade. Parabéns pelo texto!

  5. Annie
    set 19, 2016 @ 10:49 {Responder}

    Amei o texto e penso exatamente dessa forma. Outra coisa a ressaltar é que já fiz algumas denuncias dessas páginas ao facebook em postagens que pregavam violência contra criança e nunca dão em nada!!

  6. Geovana Bortolucci
    set 19, 2016 @ 14:27 {Responder}

    Adorei o texto! Falou tudo o que precisava…!
    Queria complementar que em algumas cidades mais do “interior” onde se prevalece o pensamento patriarcal e a tipica estrutura da família conservadora, mulheres childfree são excluídas de vagas de trabalho por não cumprirem com o esterótipo de família, por serem maos “suscetíveis a engravidar e dar gastos” e por não terem uma responsabilidade que as prendam definitivamente ao trabalho, porque aos olhos desses empregadores, uma mulher casada e sem filho só quer dinheiro pra comprar roupa e maquiagem e não vai ter compromisso com o emprego.
    Só expondo pra você ma realidade distante mas que ocorre em varias cidades pequenas de vários interiores. Eu vivo essa realidade. Um beijo

  7. Lili
    set 30, 2016 @ 11:56 {Responder}

    Eu chamo minha cachorrinha de filha; não vejo problemas nisso!Mas logicamente sei que “mães de pet” e “mães de humanos” são totalmente diferentes, em todos os termos: responsabilidades, cuidados, pressão da sociedade, etc. Não há comparação! Agora, não sei sua posição quanto a isso, mas acho invasivo as pessoas que acham que podem interferir como eu chamo a MINHA cachorra!

  8. Bárbara
    nov 08, 2016 @ 00:54 {Responder}

    Alguém poderia me explicar pq vcs enxergam crianças como uma classe oprimida? Não consigo entender.

  9. Cristiane
    dez 13, 2016 @ 17:36 {Responder}

    Achei um bom texto. Porém, a mim parece que a sociedade que vivemos colocou o centro na criança. Vejo crianças tomando decisões nas casas, vejo país tentando conversar com crianças bem pequenas , com medo de traumatizá-las. Educar se tornou um processo tão árduo. Claro que a culpa não é da criança, mas dá nossa estrutura social. Por isso, não vejo crianças como classe oprimida, mas mães e pais sim. E quanto a questão da mulher não ter filhos, sim ela tbem é oprimida. Pense sua vida invadida o tempo todo. Você tendo que explicar porque não gosta de crianças (quando não tem nada a ver com isso), porque é tão desalmada. Parece quase um crime. Entao, a opressão é para mães e não mães.

  10. Josiane
    dez 30, 2016 @ 01:50 {Responder}

    Amei seu texto! Engraçado que eu havia acabado de ler um comentário super misógino em uma página Childfree e, pesquisando melhor sobre o movimento, acabei me deparando com seu blog. Acredito que o movimento Childfree no Brasil precisa de mais representatividade e união entre as mulheres, incluindo as mulheres mães “por acidente” ou mães que se arrependeram da maternidade, tendo em vista que estas,mais do que ninguém precisam ser ouvidas.O maior argumento que escutamos quando dizemos que não queremos ter filhos é o de que vamos nos arrepender. Entretanto, ninguém abraça e apoia as mães que se arrependeram de ter tido filhos. Enfim, adorei seu texto! Está de parabéns!

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