25 out 2013

BC: Maternidade e carreira – A escolha é de quem?

Post por Isabela Kanupp às 21:26 em Feminismo

 

O feminismo mudou a minha visão sobre diversos assuntos, isso aliado com algumas experiências de vida fez com que eu revesse alguns conceitos sobre coisas que para mim já estavam concretas. 
Há um tempo quero falar sobre profissão x maternidade, ou a temida palavra “terceirização”, porque os conceitos que antes via como única alternativa hoje mudaram. 
Então o FemMaterna convidou para um blogagem coletiva, algumas pessoas também pediram para eu falar do tema e resolvi aproveitar a oportunidade.

Porém ainda vejo esse tema como um assunto delicado e por ser algo individual e não dar para analisar apenas um texto sem um contexto, esse texto será algo mais geral e posteriormente durante a próxima semana vou dividir em diversos textos,  inclusive com um guest post sobre. 

 

Selo-dia-25-Blogagem-Coletiva

Em 2009 quando eu descobri que estava grávida, eu trabalhava freelancer em uma gráfica. Eu executava alguns trabalhos e recebia por isso, logo era um trabalho. Levei assim por um bom tempo, e com mais ou menos uns 8 meses de gravidez parei e comecei a fazer as coisas de casa.
Quando a Beatriz nasceu, parei de vez e fiquei somente com ela. Por ser uma empresa da família do pai da Beatriz, vez ou outra eu fazia uma coisinha ou outra, mas não era mais um emprego.
Não sei porque – já que na época eu não tinha contato com tantas “teorias” – na época eu decidi junto ao pai da Beatriz que eu não voltaria mais a trabalhar fora, pelo menos até a Beatriz ter uma idade que eu acharia bacana colocar em uma escola.

Pesquisando e lendo sobre, entrei em contato com o temo “terceirização”, li sobre o fato da criança antes dos 3 anos não precisar de escola – e eu continuo concordando -, que escola antes dos 3 anos é apenas para recreação e que a socialização que tanto dizem que a criança precisa, na verdade ela precisa apenas de estar junto com quem é próximo dela, essa socialização basta. E isso, eu continuo concordando.
Isso tudo, dentro do meu contexto, da realidade em que eu vivia deu certo por um bom tempo, não me arrependo de ter ficado todos esses anos em casa com a Beatriz, eu pude fazer todas as papinhas dela, estava junto quando ela andou pela primeira vez, entre tantas outras coisas que pude presenciar. E sou grata a isso e não me arrependo por isso.
Não, eu não tinha uma vida privilegiada para poder deixar de trabalhar, vivíamos fazendo malabarismo, mas naquele momento, achamos uma escolha válida.

Porém se fosse hoje eu não teria a mesma atitude.

Paralelamente a isso, vejo muito nos grupos nos quais participo algumas mulheres perguntando se, por elas não trabalharem fora, o marido está fazendo um favor em pagar as contas sozinho. Ou algumas mulheres dizendo que, fazem tudo em casa sim, porque nada mais justo elas fazerem o serviço doméstico já que o marido trabalha fora.

E o pior que eu vi – ao meu ver – foi esses dias ler uma entrevista como uma blogueira materna, onde ela dizia sobre como o blog havia se tornado o seu trabalho, de como tem de fazer malabarismo com o tempo para dar conta de tudo, e ao ser questionada se o marido ajudava – termo horrível! – ela dizia que as vezes, porque afinal, ele trabalhava fora, se cansava muito… Desmerecendo todo o fato que, ela também trabalha!

E aí está o problema…
Poucas pessoas reconhecem e dão o valor necessário para quem fica em casa. Podemos pensar que bom, isso é problema delas. Mas isso nos atinge também!
É ver mulheres – as maiores vítimas – reproduzindo isso, dizendo que são sim obrigadas a fazer todo o serviço doméstico sozinhas, dizendo que o marido trabalha demais, sendo que: elas também trabalham!
A limpeza de uma casa é obrigação de quem a suja, de quem mora nela. Se tem dois adultos que vivem naquela casa, as responsabilidades são daquelas duas pessoas. Todos nós trabalhamos, dentro ou fora de casa, todos se cansam. E se for dividido, ficará mais fácil e menos pesado para todos. É uma lógica simples, porém pouco usada.

Um outro problema ao meu ver é a ilusão da escolha. É muito difícil saber se realmente escolhemos ou se fomos influenciados por um todo.
A moça que diz escolher uma cesárea estando consciente, e ao relatar isso, mostra que estava com medo, que não tinha certezas, que o médico veio mostrando a possibilidade… realmente foi escolha?
Quantas mulheres que ficam em casa realmente escolheram ficar em casa? OU o marido falou “ah, não sei se vale a pena, teremos de pagar creche, teremos isso…aquilo…”, quantas mulheres realmente escolheram ou aquilo foi – discretamente – imposto a ela?

A outra questão, e mais frequente, é a terceirização.
E então, medo de qual terceirização você tem?
O problema é que sempre confundimos terceirizar educação e terceirizar cuidado.
Quando você sai para jantar com seu marido, ou ir ao médico, e deixa o seu filho com sua mãe, sua sogra, madrinha, o que for  você está terceirizando. Quando você sai para trabalhar e deixa o seu filho com a sua mãe, você está terceirizando!

Terceirizando cuidado. E qual o problema disso? Se for alguém que ama o seu filho, no qual seu filho gosta de estar, onde está o problema nisso?
O problema, ao meu ver, é terceirizar a educação. Deixar para uma outra pessoa o papel de educar seu filho. E isso, não é o caso!
A educação de uma criança acontece nas pequenas coisas, e não é passando 10 horas que seja, com alguém que essa criança estará sendo terceirizada. 

E agora o maior problema que eu vejo hoje: a mulher se torna refém.
O seu marido pode ser ótimo, ele realmente pode ter concordado de coração com você ficar em casa, porém em diversos momentos pode acontecer de você sentir que ele está fazendo um favor pagando suas contas, pode ser humilhada por não trabalhar fora, pode achar que é obrigada a fazer todo o serviço doméstico por não pagar conta alguma.
Quando eu decidi me separar do pai da Beatriz, uma das coisas que mais pesou na decisão foi o fato de eu não ter uma renda fixa, foi o medo de passar fome, foi o medo de não me bancar. E isso adiou muito minha decisão, adiou minha liberdade, adiou muitas coisas. Me senti refém.
Não digo isso baseado apenas na minha experiência ruim, mas infelizmente, na nossa sociedade isso é o que mais acontece.

Por isso, hoje eu sou a favor da mulher sempre ter a sua renda. Sempre! Quer ficar em casa para passar mais tempo com o filho? Venda cupcake, avon, o que for. Mas tenha a sua renda! É a sua segurança.

Quando falamos de ficar mais tempo com os filhos, de maternidade e volta com a carreira/vida profissional, pouco vemos o reflexo da nossa sociedade machista. É triste, porque não temos essa discussão sobre a paternidade, porque a maternidade e a paternidade é vista de formas tão diferentes. O filho nasce, logo o homem volta a trabalhar. Não há questionamentos sobre deixar de trabalhar e ficar em casa, sobre a terceirização dessa criança, a responsabilidade é da mãe! Fim!

Até os 3 anos de idade a criança precisa somente da presença dos pais. Porém, isso não da o direito do pai se ausentar, de jogar toda a responsabilidade para a mulher. Trabalhar fora não da o direito da pessoa ser relapsa com um filho, não ter tempo para o mesmo.
Então, quando falamos de voltar a trabalhar, de terceirizar, de maternidade não vamos esquecer da paternidade. Não vamos fazer desse um discurso exclusivo para as mulheres, uma preocupação unicamente nossa.

 

Hoje, como feminista, sou a favor da escolha da mulher acima de tudo. Escolha DELA, consciente. Apoiarei essa escolha, independente qual for, se for trabalhar fora ou ficar em casa. Mas que seja uma escolha verdadeira.
Avaliando todo um contexto, toda a situação.
E nós, como mães e mulheres, vamos ser mais solidárias e parar de julgar a escolha de outras pessoas e começar a refletir sobre nossas escolhas! Vamos ver além da nossa realidade – que por vezes pode ser privilegiada -, além do nosso umbigo.

 

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9 comentários para "BC: Maternidade e carreira – A escolha é de quem?" | Adicione o seu »

  1. out 25, 2013 @ 21:55 {Responder}

    Gosto muito da tua proposta de ver além do umbigo. Claro que só posso falar com propriedade da minha vivência, mas isso não significa que eu não esteja aberta para outras visões e possibilidades. Vejo que as pessoas, de modo geral, costumam confundir isso e acham que porque acreditamos em algo só aceitamos que as coisas sejam daquele jeito.

    Beijos, Ananda

  2. out 25, 2013 @ 23:00 {Responder}

    Oi Isabela! Belo texto!
    Acredito que nossas experiências variam de acordo com a realidade que vai se apresentando ao longo do caminho.
    Diante de uma realidade, posso ser radicalmente contra a “terceirização” de cuidados. Diante de outra, posso achar natural.
    Com minha primeira filha, pedi demissão do emprego e fiquei em casa só com ela. Não me arrependo, mas tive que lidar com a crise de insegurança e dúvidas q vc falou, embora meu marido nunca tenha me cobrado ou me humilhado por isso. Eu é q fiquei paranóica. rs
    E agora com o segundo filho, tô trabalhando fora e vou colocá-lo na escolinha.
    A decisão de tornou mais fácil ao perceber que a educação nos dias atuais, pode e deve ser conciliada com a realização pessoal e profissional da mãe para evitar conflitos posteriores(no meu caso).
    Tenho amigas que lidam bem com esses conflitos e ponto. Outras não. É um assunto bem particular.
    E mesmo com dois filhos não me atrevo a levantar nenhuma bandeira com convicção, pois cada mergulho é um flash nessa vida de mãe…rs bjs Camila Vaz

  3. out 25, 2013 @ 23:33 {Responder}

    Olá Isabela! Concordo plenamente com vc, e principalmente em respeitar todas as decisões de cada mãe, trabalhar fora ou em casa. O importante é ter consciencia dos pós e contras de qualquer decisão. Eu optei em ficar em casa como vc, mas sei o quanto isso me custa, pois como vc própria diz, serviço não remunerado e ao que parece sem valor para muita gente! Que pena, né!
    Bjos
    Tatty Nunes – Mãe de Primeira Viagem

  4. out 26, 2013 @ 09:41 {Responder}

    Ainda não sou mãe, mas futuramente quero ser e espero que eu consiga ter total tempo livre com meu filho e também produzir alguma renda, não quero trabalhar o dia inteiro e deixar de participar do crescimento, mas também não vou ser a AMA da casa, não MESSSSMO kkkkk.

    Gostei muito do texto. Beijo!

  5. Juliana
    out 26, 2013 @ 10:32 {Responder}

    perfeito …

  6. out 28, 2013 @ 08:35 {Responder}

    Concordo com vc plenamente. Somos mães e mulheres e esse dilema é inevitável. Engraçado que a sociedade nos cobra duplamente: se trabalhamos, dizem “como teve coragem de deixar o filho?”, se não trabalhamos “como pode ficar em casa dependendo do marido?”. Enfim, o negócio é estabelecer uma parceria com quem está próximo. No me caso, posso contar com minha mãe e meu marido, e ainda assim é difícil sair e deixar minha pequena. Mas, a vida é feita de escolhas. E, realmente, depois que voltei a trabalhar, me dei conta de que não preciso estar 24 horas por dia com minha filha para ser mãe. Acho que até saudável, para ela, criar laços com outras pessoas além da mãe.
    Mas, mesmo tendo consciência de tudo isso, a gente sofre. É inevitável.

  7. Fernanda
    out 28, 2013 @ 12:36 {Responder}

    Isa, achei muito bom esse texto! Passei MUITO pela “reprovação” das pessoas, das críticas pelo meu marido revezar comigo as noites em claro chacoalhando o bebê para dormir e do choque da família dele vê-lo passando pano na casa. Até hoje esse assunto é bem polêmico e as pessoas ainda não entendem a divisão de responsabilidade, não ajuda. Mas é um trabalho contínuo… me identifiquei :)

  8. out 31, 2013 @ 11:39 {Responder}

    […] disse na blogagem coletiva sobre carreira  e maternidade, essa semana eu iria fazer diversos textos exatamente explicando […]

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