28 mai 2017

As feministas raivosas.

Post por Isabela Kanupp às 11:35 em Feminismo

Há um tempo eu tive contato pela primeira vez com esse termo de forma pejorativa para fazer referência às feministas mais radicais – no conceito de ir a raiz, não adeptas da teoria. Por incrível que pareça, meu contato não foi lendo pessoas de direita, fascistas ou conservadoras, que querendo ou não esperamos esse tipo de atitude, mas sim vindo de outras mulheres que também se reivindicavam feministas.

Quando escrevi o texto “O elitismo e a meritocracia no meio ~humanizado~” – um texto crítico em relação a militância na humanização do parto – , eu sofri diversos tipos de retaliações, e inclusive, foi somente ai que percebi o porque de ninguém tocar nesse assunto. Foi em meio a essas retaliações, que eu descobri que parar a grande parte das pessoas envolvida nessa militância, eu era conhecida como uma “feminista raivosa”, dito como forma de menosprezar ou descreditar a minha militância feminista.

feministas raivosas

 

Demorei muito tempo para entender algumas questões que me incomodavam, e muito mais tempo para conseguir escrever sobre isso, porém hoje eu entendo que sim, a raiva é necessária e nem sempre sentir raiva é algo negativo, as vezes é apenas a reação mais apropriadas em determinadas situações.
Não me envergonho por sentir raiva, por não me conformar com a opressão na qual vivemos, por não me calar diante de elitismo e do discurso meritocrático. Sinto raiva sim, e não há outra maneira de me sentir, sendo eu uma mulher mãe, pobre, e eu luto contra todo o tipo de opressão – muitas que sinto diariamente -, inclusive, contra esse discurso meritocrático e elitista que faz parte da visão capitalista. Até mesmo porque além de feminista, eu sou comunista.

Colocar a raiva como um sentimento negativo, ou algo que devemos ter vergonha de sentir, é apenas mais uma forma de controle, que aparentemente aprendemos muito com nossos opressores. Nessas horas vejo como é importante repetirmos sempre para termos a consciência de que somos seres humanos, que mulheres, que mulheres mães, são seres humanos, que sentem, choram, se frustram, ficam felizes, sente raiva, etc, como qualquer outro ser humano. Colocar que alguém não pode sentir raiva, ou que quando alguém sente raiva desmerece toda a sua trajetória, desmerece tudo que foi dito,  é de uma certa maneira, não ver aquela pessoa como um ser humano. É desumanizá-la.

O que me envergonha são mulheres agindo como nossos opressores, separando, classificando e rotulando (para ser mais fácil de dominar) entre boa e má feminista, feminista legal e feminista chata, feminista aceitável e feminista raivosa, apenas porque o discurso não agrada esse grupo de pessoas, apenas porque o discurso das feministas más, chatas e raivosas, questiona os privilégios sociais que esse outro grupo possui.

Particularmente não acredito que teremos uma revolução social baseada em bondade e condescendência com quem nos oprime. O amor pode ser revolucionário, mas amar quem nos oprime, quem sustenta a opressão que sofremos, não. Essa visão de paz, amor e luta com flores não me contempla, mas acredito que muitas mulheres acabam aderindo, justamente porque, está incutida a ideia de que mulheres tem que ser dóceis e meigas. Sabe, o feminista sem deixar de ser feminina? Então.
Mulher não pode ser mais enfática, mulher não pode ser objetiva, mulher não pode ser raivosa!
A real é que estamos tão acostumados com aquilo que nos foi imposto e condicionado, que acreditamos ser algo natural de nossa essência. E claro, qualquer mulher que se atreva a fugir desse estereótipo da mulher calma, doce, paciente, etc, será uma mulher raivosa e histérica. 

feministas raivosas
Eu particularmente acredito que a raiva seja um combustível transformador! Tanto na questão pessoal, quanto na questão política. A raiva também é o reflexo da nossa indignação e pode ser o passo da mudança. E claro, é absurdamente opressor querer controlar como mulheres se sentem, é absurdamente desumanizador tentar controlar como as pessoas se sentem e como elas devem se sentir.

Por fim, essa insistência em classificar feministas entre boas feministas e más feministas, entre a feminista dócil namastê e a feminista raivosa, só estamos reforçando os estereótipos de gênero e o sexismo que existe na nossa sociedade. Estamos apenas reforçando que a mulher até pode se empoderar e ter voz, desde que seja uma voz meiga, dócil e suave.

Facebook | Instagram

Ajude o blog a continuar no ar.
Caso queira nos apoiar, poderá doar qualquer valor:

Caixa Econômica Federal Agência: 4490 – Operação: 013 – Conta Poupança: 3987-8
*Para doar não é necessário se cadastrar no PagSeguro ou no Paypal.

Deixe um comentário





  • * obrigatório