18 mar 2014

A péssima mãe, a boa mãe e a mãe.

Post por Isabela Kanupp às 14:03 em Feminismo, Maternidade

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Quando minha filha nasceu eu tinha recém completados 19 anos. Isso foi em 2009.

Durante muito tempo defendi todas as minhas escolhas naquele momento, naquela situação – de descobrir uma gravidez com 5 meses… – sempre defendi e legitimei minhas escolhas. E até hoje eu não tenho dúvidas sobre, naquelas circunstâncias eu ter sim feito o que me era possível.
Isso não significa que foram as melhores escolhas em relação a saúde, bem estar e tudo mais. 
Mas hoje vejo que em muitos casos não haviam opções, logo não havia como escolher. Eu tinha apena aquela alternativa. 
Digo isso para problematizarmos uma questão: estamos esquecendo de falar sobre nossas escolhas – ou não escolhas – para falar das escolhas do outro, para deslegitimar a escolha do outro, para ignorar que nem sempre a decisão do outro foi escolha.
Eu particularmente gostaria muito de viver na realidade na qual eu tenha opções a – b – c – d, gostaria de viver nesse universo paralelo onde todas as mulheres tem acesso a informação e opção de escolha. E por conta disso, podemos pautar as escolhas dessas mulheres, podemos julgar se ela é boa ou má mãe a partir disso.
Mas essa não é a nossa realidade.
A realidade na qual vivemos é a realidade que nem todos recebem as mesmas influencias culturais, nem todos recebem a mesma educação tanto dentro do lar quanto escolar, onde mulheres não tem nem sequer o direito mínimo de decidir sobre seu próprio corpo. A realidade na qual vivo é a realidade onde a grande maioria das mulheres não tem escolha.

Eu poderia ficar no meu confortável sofá questionando as escolhas das outras mulheres. Sem nem me lembrar se ela teve ou não escolha.
Eu poderia ficar com meu pensamento elitista. Aquele pensamento elitista e meritocrático de que, se eu consegui a fulana também consegue. É só querer.

Não culpo quem julga. Mas existe uma omissão quando a pessoa não quer ouvir, não quer entender, prefere ficar no seu mundo cor de rosa onde todas as mulheres podem escolher (só que fazem escolhas erradas).

Há um tempo eu falava que a culpa era benéfica porque fazia com que nós, pensássemos onde erramos e onde poderíamos melhorar. Na verdade não é necessário culpa para isso, é necessário consciência, informação e auto crítica. A culpa não é benéfica, promover a culpa pra outras mulheres é insensível, nada empático e totalmente egoísta.
Mas, sabemos que a industria, as grandes revistas, lucram com a culpa.
E você? O que lucra com a culpa? 
Quem aqui de nós – todas mulheres, vítimas de um sistema – estamos lucrando com a culpa e em promover a culpa em outras mães?
Quantas de nós estende a mão? E não estou falando somente na internet. Porque acredite, se você tem internet, se você pode buscar informação no google, já é “privilegiado”, visto pelo ponto que a mulher da periferia nem esse acesso tem.
Quantas de nós vai levar informação na periferia?
Quantas ainda estão segregando? 

Se liberte. 
Julgar a coleguinha não faz nem sua maternidade melhor, nem a maternidade dela. Só segrega. Só separa. Só faz o que o sistema já quer que façamos: não estamos nadando contra a corrente. Estamos endossando campanhas “culpa, não!”, estamos endossando a segregação entre péssima mãe e boa mãe.

Óbvio que existem coisas realmente duvidosas. Eu não vou dizer que uma mãe que mata o próprio filho era “uma ótima mãe dentre as possibilidades”. Mas estamos falando de mulheres que não amamentaram – pelo motivo que for -, estamos falando de mulheres que foram enganadas pelo sistema, que desde pequena – assim como nós – são ensinadas que não são capazes: não são capazes de amamentar, não são capazes de parir, não são capazes de ser mãe sem todos os apetrechos do consumismo.

força

É ter a consciência que todas nós, somos vítimas dos mesmos opressores. E reproduzimos esses conceitos. E quando falamos de maternidade consciente, não deveria ser sobre isso também? Ter consciência da realidade na qual vivemos? 

sororidade

Eu já fiz “escolhas” e escolhas, e em ambos os casos hoje eu penso por vezes: onde eu tava com a cabeça?

A sociedade JÁ nos padroniza, para que precisamos endossar esse comportamento que só serve para segregar mulheres? É a mesma coisa quando separamos “mulher para casar” e “mulher para ficar”. É para dizer que uma ~presta~ e outra não. E isso é benéfico para quem? Para as mulheres? 
Acho complicado falarmos que não existe uma “guerra entre as mães”, sendo que vivemos em uma sociedade patriarcal que desde sempre promoveu a “guerra entre as mulheres”, aprendemos desde cedo a odiar outras mulheres, que outras mulheres não são confiáveis, que não da para sermos amigas de mulheres. Segregam desde cedo. E levamos isso para a vida toda se não houver desconstrução.
Se não houvesse uma “guerra entre mães”, não haveria tantos textos sobre o assunto.
Claro que é possível que haja sororidade e ao mesmo tempo não ser conivente com coisas nas quais acreditamos não ser benéficas tanto para mãe quanto para o bebê.

Passo a passo:

– Entender que todas nós somos mulheres. Todas nós somos oprimidas pelos mesmos opressores. Todas nós somos mulheres-mães vítimas das mesmas industrias.

– Entender que nem todos tem opções. Ver que a questão da escolha é muito relativa porque a grande maioria das mulheres, não tem como escolher por fatal de opção.

– Julgar menos, apontar menos o dedo, criticar menos. Estender mais a mão, dar mais informação, acolher mais, ser mais amiga e ver naquela outra um espelho: voltar ao primeiro ponto.

Quando o Projeto Coração Materno surgiu, muitas mulheres apontaram o dedo por eu fazer parte. EU Isabela em um passado não tão distante tive um twitter chamado @maedemerda, que fazia justamente isso: segregar mulheres.
Quando me tornei feminista e tomei consciência disso a primeira coisa que fiz foi deleta-lo.
O fato é: se a mudança não acontecesse, se eu realmente não acreditasse na mudança eu não teria o porque militar, não teria o porque ficar aqui escrevendo, escrevendo  e escrevendo. Seria incoerente. Assim como é incoerente mulheres que lutam por mudanças sejam onde for, dizer que alguém não pode falar sobre esse assunto, porque no passado não era assim. :)

O Projeto Coração Materno foi uma das coisas mais bacanas que fiz esse ano: me aproximei mais da Ananda que é uma mulher forte e incrível, conheci diversas mulheres com histórias nada parecida uma com as outras e todas elas fortes e incríveis somente pelo fato de conseguir assumir suas escolhas e não-escolhas publicamente, e tivemos o que queríamos: a repercussão necessária para que criasse uma movimentação, onde pessoas falassem sobre, refletissem sobre, escrevessem sobre. Então, de certa forma, o objetivo inicial foi alcançado.
A ideia do Projeto Coração Materno nunca foi – e nem será – passar a mão na cabeça. A ideia é promover a reflexão de onde vem escolhas, de como são tomadas decisões e o que isso influencia. De como apontar o dedo para a coleguinha é feio e não ajuda em nada.

Praticar a sororidade é ver na outra mulher uma irmã, uma vítima do mesmo opressor, é cuidar uma da outra, é fazer o que o sistema não faz: acolher, informar, ajudar, estender a mão, pegar pela mão. É amar outras mulheres e não odia-las.
É unir, porque unidas somos mais fortes. Mulheres unidas tem menores chances de serem enganadas. Mulheres unidas se manifestam, tem voz, tem visibilidade.

 

Vamos parar de normatizar um comportamento que deveria ser repudiado.

tradição

 

 

6 comentários para "A péssima mãe, a boa mãe e a mãe." | Adicione o seu »

  1. Regiane Fernandes
    mar 20, 2014 @ 10:02 {Responder}

    Nossa, Isabela!!! Tu não tens ideia do quanto teus textos tem me aberto os olhos e me feito refletir profundamente sobre TUDO!!!
    Bjs,

  2. mar 22, 2014 @ 13:21 {Responder}

    Sincronicidade. Pensando e falando nisso ainda ontem. As mulheres fazem o papel do opressor sempre que caem na fantasia de que se afastaram de algum tipo de opressão, estão fora, estão salvas. A verdade é que o mundo todo, em escalas diferentes, marca a opressão do sagrado feminino. O feminismo não conseguiu quebrar todas as muralhas e a luta não parece ter fim. Sem consciência da forma como o modelo cultural age em nossas vidas nunca teremos impulso para mudar a realidade.
    Tive no Brasil mês passado, e como tu, não coloquei brinco na minha filha de quase 1 ano e meio…todos falavam que era menino, apesar dela estar de vestido, maiô na praia…bizarro como o Brasil acredita que o brinco define um gênero!
    Beijos
    Eliana
    http://memoriasdafronteira.blogspot.ca/

  3. mar 22, 2014 @ 13:26 {Responder}

    A história da culpa é puro controle social. Ficam todas cuidando e julgando o ato de todas sem cuidar do próprio destino. Quem ganha com a segregação? A culpa causa sensação de incapacidade, tristeza, pessimismo, sentimento de inferioridade…Que sociedade capitalista quer indivíduos empoderados e tranquilos com suas escolhas pessoais? QUem compraria anti-depressivos, quem compraria? Quem passaria a vida em shopping? Quem faria rolar a bola do sistema? Ainda mais mulheres que já se sabe que mudam mais a realidade local do que qualquer homem individualmente.
    Olhar para a própria vida é difícil, mas é a única maneira de começar a fazer escolhas que façam sentido pra ti…e não importa que não façam pra mais ninguém.
    Beijos

    http://memoriasdafronteira.blogspot.ca/

  4. mar 23, 2014 @ 21:51 {Responder}

    […] post da semana é da Isa, do Para Beatriz. Ele reflete sobre a péssima mãe, a boa mãe e a mãe. Faz considerações pós o nosso Projeto Coração Materno. Para […]

  5. mar 30, 2014 @ 22:14 {Responder}

    Excelente post. Me inspirou no meu de hoje.

    Beijos!!!
    Cris Eu, eu mesma e a outra…

  6. mai 20, 2014 @ 11:31 {Responder}

    […] triste e mais triste a reação das pessoas em relação a mulher. Dizendo que se essa mulher fosse mãe de verdade, ela aceitaria. Dizendo que o amor de mãe supera […]

Responder a Eliana





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