26 ago 2016

O que o ballet nos ensinou e a visão feminista no ballet.

Post por Isabela Kanupp às 14:47 em Maternidade

Eu tive uma amiga de infância que fazia ballet. Lembro que eu adorava assistir as apresentações dela, a mãe dela sempre me levava e lembro até hoje muito vividamente de uma delas.
Minha mãe não me deixava fazer ballet, algo que eu sinceramente não sei o real motivo, se era uma superproteção pelos meus problemas de saúde na infância, ou se era pelo fato de eu não ser uma criança dentro do “padrão esperado”. Não sei de verdade. Sei que durante um tempo fiquei muito chateada por não ter feito, mas hoje sei que dança não é a minha praia. 

Há uns anos conversei novamente com essa minha amiga em relação ao ballet, e ela me contou muitas coisas complicadas que aconteceram na vida dela por conta do ballet. De como todo aquele ambiente gerava uma pressão, principalmente estética, para as mulheres e como isso foi muito nocivo para ela. Eu fiquei apavorada, porque mesmo sendo feminista e sabendo de todas as questões dos padrões estéticos da nossa sociedade, eu jamais imaginei que dentro do ballet ocorreria algo assim, que era algo levado tanto em conta assim. Ilusão né?

ballet

Coloquei que filha minha não faria ballet jamais! Mas claro que o mundo da voltas e não controlamos os quereres dos nossos filhos. Beatriz desde muito nova ia comigo assistir as apresentações da minha tia – que faz parte da mesma companhia de dança -, e consequentemente também assistia as apresentações de ballet. E com isso, ela desenvolveu um interesse por aprender.
No começo eu fui muito relutante e via o ballet como algo fútil, apenas estético e com muitos pontos negativos. Mas por outro lado, via uma oportunidade da Beatriz interagir com outras crianças e se movimentar, algo que sempre achei importante.

Beatriz está indo para o terceiro ano de ballet nessa academia de dança. Esse ano é sua segunda apresentação, estamos em época de correria de prova de figurino, ensaios em dias loucos e tudo mais. Eu posso escrever um texto contando só o que eu aprendi com o ballet: não é só rosa, mas talvez você possa surtar um pouco com a quantidade de acessórios, existem muitas partes flexíveis do nosso corpo e não, ela não vai quebrar nenhuma parte do corpo fazendo aqueles movimentos.
Mas o que quero contar aqui é o que observei de mudança na Beatriz nesses anos de ballet.

Acredito que tem coisas que não foi o ballet em si que ensinou para a Beatriz, ou seja, ela aprenderia da mesma maneira se estivesse fazendo outra atividade. Mas foi através dele que ela adquiriu essa consciência e alguns hábitos positivos, coisas que mesmo eu tentando implementar de outras maneiras, não havia conseguido.
Beatriz se tornou uma criança mais responsável e organizada. Não que antes ela não fosse, mas é muito subjetivo falarmos de responsabilidade e organização de uma criança de 6 anos, não é mesmo? Mas dá para notar uma enorme evolução.

Ela sabe como é complicado a dedicação ao ballet, manter todos os apetrechos e como nosso dia a dia é corrido para dar conta de tudo, inclusive, dela conseguir ir as aulas. Então ela desenvolveu um cuidado enorme por suas coisas relacionadas ao ballet, ela mesmo me avisa quando tenho de, por exemplo, trocar a sapatilha ou comprar um outro colant. Ela também sabe que, quando chega essa época do ano, as aulas ficam mais puxadas porque ocorre a apresentação no fim do ano, ela saber por exemplo que não pode sair para passeios no sábado nessa época, pois sábado é dia de ensaio.

É cansativo? Com certeza! Principalmente porque nossa rotina já não é fácil. Mas é algo que nos habituamos, que vemos que compensa e que ela se sente feliz.

Ela sabe que faz ballet não é porque ela é menina, mas porque ela gosta de dançar. Também sabe que não é porque faz ballet, que tudo tem que ser rosa. Existem roupas maravilhosas e muito coloridas para quem dança!
Acredito que é super vantajoso até onde há o respeito. Respeito por ver que ali são crianças, que tem seus limites e tudo mais. Também acredito que dá para fazer diferente dos padrões pré estabelecidos e isso eu sempre vejo nas apresentações. A variedade de estilos, de corpos, cabelos… tudo! É possível.

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Toda menina tem que fazer ballet? Não! Beatriz fará ballet para sempre? Não, apenas até quando ela gostar e quiser fazer. Ela só fará ballet? Não, ela está louca para entrar em uma luta e queremos muito que isso dê certo – apesar da correria, que será ainda maior!
O ballet não tornou a Beatriz uma criança mais feminina e delicada (sim, já me questionaram sobre isso) e sinceramente, eu não entendo o porque deveria tornar ela mais feminina e delicada e o porque vocês se importam com isso.
Devemos fazer o exercício de quebrar os estereótipos, eu tinha uma visão muito limitada do que era o ballet – e claro, existem realmente locais que são complicados e pessoas que tiveram experiências ruins -, mas o ballet pode ser uma atividade muito bacana para as crianças. Sim crianças, porque o ballet não é algo exclusivo para meninas!  

Já notei diversas vezes, enquanto esperava a aula da Beatriz terminar, meninos que ficam observando as meninas danças e até mesmo repetindo os movimentos fora da sala. Mas são reprimidos por seus pais. Já ouvi coisas bem absurdas, principalmente relacionado a suposta sexualidade da criança.
Vamos entender que orientação sexual não é algo escolhido – quando você escolheu ser hétero? -, muito menos influenciado – quem te influenciou a ser hétero?. Roupas, brinquedos, atividades, NÃO MUDAM a orientação sexual de ninguém!  

Já li diversos questionamentos sobre se é possível ser feminista e querer colocar a filha no ballet. Eu acredito que precisamos ter uma visão crítica, principalmente em relação ao que é imposto na maioria das academias/estúdios de dança, temos sim que questionar a necessidade que a sociedade coloca de meninas fazerem ballet, temos que questionar o estereótipo – e a exigência – de delicadeza e feminilidade e principalmente, temos que passar para nossos filhos que ele tem o direito de escolher e para escolher ele tem que saber o que está implícito em cada escolha ou renúncia. Me questionei durante muito tempo se eu estava “realmente sendo feminista” com uma filha no ballet e sinceramente? Dentro do contexto atual eu não vejo conflito entre a dança e a minha militância.

É importante enxergar o contexto para ver como a dança pode ter um poder de transformação social e de realidades periféricas. Claro que ainda tem muito o que se falar sobre, mas é assim que construímos um debate. 

 

 

 

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25 ago 2016

Coleção Antiprincesas: Clarice Lispector.

Post por Isabela Kanupp às 14:57 em Livros e Filmes

Sou muito suspeita para falar de Clarice Lispector, pois foi através da literatura dela que realmente vi que mulheres poderiam ser escritoras.
Muitas pessoas conhecem a “obra” da Clarice Lispector através das frases postadas nas redes sociais, claro que muitas são da autora e outras não, mas acredito que já é um caminho para instigar a pessoa a conhecer mais sobre a vida e obra dessa mulher tão sensacional.
Por isso fiquei muito feliz de saber que o terceiro livro da Coleção Antiprincesas aqui no Brasil era sobre Clarice Lispector.

Capa
O livro mostra diversos detalhes da vida de Clarice, detalhes que eram desconhecidos até para mim, fã de sua escrita. Assim como os outros livros da coleção, o livro tem uma leitura muito fluida, interativa, é muito ilustrado e tem atividade para as crianças. O mais legal é que ele incentiva as crianças a produzirem conteúdos escritos. <3

 

Apesar de ser Ucraniana, foi criada no Brasil e viveu boa parte de sua vida aqui, adorava o mar (por isso sempre viveu próximo a ele e escreveu muito sobre), e amava muito os animais. Já adulta, Clarice foi morar fora do Brasil, e após cansar de sua vida diplomática na Europa e Estados Unidos, deixou sua vida confortável financeiramente e voltou para o Brasil, onde por questões de necessidade (e amar a escrita) voltou a sua carreira de jornalista, escrevendo crônicas para os jornais.

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Clarice foi conhecida como a “antiescritora” por desafiar as regras da escrita, pelo seu estilo irreverente, e claro, por ser uma mãe escritora! Pois é, escrevia em sua máquina de escrever enquanto seus filhos brincavam aos seus pés.
Tudo para ela virava história e adorava contá-las!
Tem como não se inspirar nessa mulher?

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Conseguimos notar, de uma forma lúdica e infantil, como ela era uma mulher real, com falhas, medos, problemas e uma paixão enorme pela escrita. Esse terceiro livro da coleção antiprincesas foi com certeza o livro mais inspirador para mim.
Após lê-lo junto com a Beatriz, comentei que eu tinha alguns livros da Clarice em casa, então ela pediu para eu ler para ela. Leitura complicada para uma criança, mas fez ela pegar no sono rapidinho.

“O que escrevo é mais do que invenção, é minha obrigação contar sobre essa moça entre milhares delas. E dever meu, nem que seja de pouca arte, o revelar-lhe a vida. Porque existe o direito ao grito. Então grito.”

 

Onde comprar?

E para quem quiser comprar os livros da coleção, é só entrar no site da Antiprincesas Brasil.  O valor de cada livro é de R$27 (em português) e R$39 (em espanhol).

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E para quem estiver em São Paulo esse fim de semana, os autores da Coleção Antiprincesas estarão por lá! <3 Detalhes na imagem e informações aqui.

 

 

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23 jul 2016

Desfralde: respeitando o momento da criança.

Post por Isabela Kanupp às 16:51 em Maternidade

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Eu tenho um grande arrependimento nessa minha pequena trajetória como mãe, esse arrependimento é o desfralde da Beatriz.
Quem acompanha o blog desde o começo sabe que antes da mudança que houve no blog, existia aqui diversos textos relatando o processo do desfralde. Um processo que começou mais ou menos quando a Beatriz tinha 1 ano e 4 meses.
Na época, meu argumento para um desfralde, era de que existia um interesse das empresas em prolongar essa fase para lucrar mais. Confesso que eu ainda boto muita fé nisso e acredito demais nesse fator capitalista. Porém, o que eu não levei em conta na época, é que crianças não são robôs e cada criança se desenvolve a sua maneira e no seu tempo.
Eu só tive essa percepção quando ocorreu o desmame natural da Beatriz. Eu acredito que foi naquele momento que eu realmente notei que processos naturais eram possíveis e que crianças conseguiam sim saber qual o melhor momento para deixar uma fase. Foi a partir do desmame natural e do feminismo, que eu comecei a entender como era importante respeitar essas decisões e ver que crianças são capazes sim.
Apesar de tudo isso, eu sempre vi o desfrade da Beatriz como um processo natural e não-tão-desrespeitoso-assim. Claro, isso em comparação com outras pessoas e métodos usados. Porém, hoje vejo que continua sendo desrespeitoso a forma que utilizei.
Eu vejo que foi um problema básico de falta de informação de qualidade – que na época eu achava que tinha e que hoje vejo que muitas pessoas acreditam que seja -, e falta de ver a criança como um ser pensante e agente.

O desfralde da Beatriz ocorreu da seguinte maneira:

Por volta do 1 ano e 4 meses eu comecei a fazer todo aquele processo que super indicam, de explicar para a criança o que eu estava indo fazer no banheiro, explicar o que era o vaso sanitário e claro, observar os sinais da criança. Na minha cabeça, minha filha já dava sinais para desfraldar. Isso não foi algo que ficou bem resolvido para mim, e só me dei conta do porque me incomodava aqueles “sinais” atualmente assistindo a um vídeo. O que eu via como sinais, não eram sinais. São comportamentos comuns de crianças incomodadas com as fraldas, porque incomodam mesmo, não porque elas querem ser desfraldadas.
Beatriz desfraldou “completamente” ao completar 2 anos de idade. E eu me senti a rainha da educação infantil, a super nanny do desfralde. A verdade é que esse “completamente”, não era bem completamente assim. Até os 4 anos, mais ou menos, houve “escapes”, que já eram tão comuns que nem deveriam ser chamados de escapes. Uma coisa que tenho certeza que não ocorreria se eu não tivesse forçado a barra e se tivesse esperado o desfralde natural.
Mas ela desfraldou, né? De uma forma adestrada, sabe-se-lá as consequências disso, e eu muito estressada. Muito mesmo. Porque para mim – para ela eu não sei, não sei também se ela se lembra – foi absurdamente estressante.
Não quero dizer que é errado desfraldar aos 2 anos, o que quero dizer é que para a minha filha, aquele não era o momento. Eu interpretei os sinais de forma equivocada e forcei o desfralde – talvez de uma maneira bem menos pior do que muitos métodos por aí, mas ainda assim foi péssimo -, um desfralde que poderia ter sido de uma maneira muito mais respeitosa, bastava eu ter paciência e confiar.

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Sei que existe uma enorme pressão em relação ao desfralde – e eu já fiz parte da turma do “nossa como assim x anos e ainda usa fralda” -, sei que muitas mães se sentem forçadas a iniciar o desfralde, seja por questão desses palpites, seja por questões financeiras, seja porque a escola/creche exige que a criança esteja desfraldada. O que hoje acho um absurdo gigantesco, principalmente aqueles desfraldes que ocorrem nas escolas, colocando todas as crianças com determinada idade no mesmo pacote, esquecendo da individualidade e do processo de desenvolvimento de cada um.
Essa é a principal questão – se não a única – que mudaria se pudesse voltar no tempo. Mas como não podemos, o que tento fazer é “reparar” essa situação respeitando a partir do momento que criei consciência.

 
Por exemplo, quando a Beatriz tinha 5 anos ela estava educação infantil. Já contei que um dos pontos mais positivos de onde ela estudou era o fato de não ter a alfabetização. A alfabetização ocorre apenas no ensino fundamental, acredito que seja assim em toda a rede pública daqui. Para mim isso era algo positivo justamente porque não acredito que haja benefício na alfabetização precoce, e isso faz parte do respeito a individualidade e ao desenvolvimento da criança.
Agora ela já está alfabetizada, é uma das poucas crianças da sala que já lê e já escreve. Porém ela se cobra. Ela se cobra porque a fulana lê melhor que ela, porque a ciclana já escreve com letra cursiva. O que faço é, além de não entrar na onda de forçá-la a ler melhor, ou a forçá-la a aprender a letra cursiva, é também explicar para ela que cada um tem seu tempo para aprender!
A linha entre incentivar uma criança e forçá-la é muito tênue. Muito mesmo. Por isso é necessário nos mantermos sempre atentos para respeitar os limites, as vontades e a individualidade das crianças.

Para quem tem interesse sobre a questão do desfralde de forma respeitosa, eu indico esse vídeo da Raquel. Foi onde eu percebi o porque do meu incômodo com os “sinais” que fizeram eu desfraldar a Beatriz. Talvez possa ajudar vocês também.

 

 

 

 

 

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19 jul 2016

Coleção Antiprincesas: Violeta Parra.

Post por Isabela Kanupp às 02:04 em Livros e Filmes


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Violeta Parra é o segundo livro da Coleção Antiprincesas. Eu estava bem ansiosa para ler esse livro, pois eu não conhecia Violeta Parra e não fazia ideia de quem ela era.

Esse livro é aquele que te deixa com uma pulga atrás da orelha, uma vontade de saber mais, sabe? E depois que li, tive de ir pesquisar mais sobre essa mulher incrível e ouvir suas canções!

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Violeta Parra nasceu em San Fabián de Alico, um vilarejo no Chile, e era filha de pais muito pobres – pai professor e mãe costureira. Seu pai era folclorista, tocava violão enquanto sua mãe cantava. E foi pegando o violão do pai escondido que Violeta aprendeu a tocá-lo, de maneira autodidata.
Foi através do seu violão que ela eternizou diversas canções tradicionais chilenas.

Assim como o primeiro livro da coleção (contei aqui), as ilustrações são lindas, o livro todo é bem interativo e a linguagem é acessível para crianças de todas as idades. Diferente do livro da Frida, esse não conta toda a história de Violeta Parra, mas instiga para que o leitor busque mais sobre essa incrível história.

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Violeta Parra foi uma mulher, mãe, latina e artista, no mais amplo sentido da palavra. Uma mulher forte e que tem com certeza representa demais uma antiprincesa!

Adoramos esse livro, porque não conhecíamos ainda Violeta Parra. Se vocês tiverem curiosidade (assim como eu) tem várias canções disponíveis no youtube, garanto que vale a pena.
Ao final do livro encontramos atividades sobre ele e também jogos. Além disso, tem um poema que Plabo Neruda escreveu para Violeta.

O livro foi escrito pela Nádia Fink e ilustrado por Pitu Saá.

 

Semana que vem vou falar o que achei do livro #3 da coleção #antiprincesas: Clarice Lispector.

 

Onde comprar?

E para quem quiser comprar os livros da coleção, é só entrar no site da Antiprincesas Brasil.  O valor de cada livro é de R$27 (em português) e R$39 (em espanhol).

 

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14 jul 2016

A importância de ver nossas mães como mulheres.

Post por Isabela Kanupp às 17:22 em Feminismo

 

Eu não tenho mãe. Quem me conhece sabe que minha mãe faleceu quando eu tinha 11 anos. Passei por um longo período de luto – de uma forma nada convencional -, no qual só me dei conta já na vida adulta. E claro que senti falta da minha mãe em diversos momentos da vida, ao longo das minhas descobertas como adolescente, como mulher, porém com toda a certeza tudo isso começou a pesar muito depois que me tornei mãe e logo depois quando me tornei feminista.
O pensamento mais recorrente que eu tenho – e eu acredito que todos que já passaram por isso tenham – é “como seria se ela estivesse aqui”.

Eu era muito nova quando ela faleceu e existem muitas lembranças que simplesmente desapareceram, apesar de ter convivido com ela por 11 anos, o que eu sinto é que eu conheço muito pouco dela e que para mim, sempre será um mistério. Inclusive essa foi uma das motivações de eu criar esse blog: não queria que minha filha não soubesse quem eu sou. Parece egoísta isso, porém eu sinto uma falta enorme de saber coisas banais em relação a minha mãe: fruta preferida, o que ela pensava ou sentia quando tinha determinada idade, o cantor preferido, quais eram os planos dela para a velhice. Assim como em alguns momentos eu sempre penso “o que minha mãe pensaria sobre isso? Qual seria a posição dela?”.

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Di Cavalcanti.

Quando me tornei feminista eu romantizei demais a nossa relação, imaginei que se ela fosse viva, ela com certeza seria feminista, afinal, ela sempre foi uma mulher “a frente do seu tempo”. Porém, quando comecei a pensar mais racionalmente, recuperar algumas lembranças que eu tinha e observar as mulheres da família – que hoje teriam aproximadamente a idade da minha mãe – que viveram no mesmo contexto que a minha mãe eu cheguei a conclusão que não, minha mãe não seria feminista.
É obvio que existiria um conflito de gerações, é óbvio que existiria um conflito de educação em relação à Beatriz (mesmo que muitas coisas que eu faça hoje tenham influência da educação que minha mãe transmitiu para mim). E talvez houvesse atritos. Talvez hoje nem nos falaríamos direito. A questão é que não dá para saber.

Foi também o feminismo que fez eu parar de romantizar a vivência da minha mãe como mulher e mãe. Parar de julgar tanto as falhas que ao meu ver, ela teve em questão da nossa educação. Foi o feminismo que fez eu lembrar que minha mãe era uma mulher. Uma mulher que trabalhava muito, que tinha sonhos, que se sentia triste, frustrada, que chorava (eu lembro até hoje da primeira vez que vi minha mãe chorar), uma mulher cheia de falhas e que como todas nós, não sabia de tudo. O feminismo fez eu fazer as pazes com a minha mãe e lembrar que ali existia uma mulher.

mães

1990: Minha mãe e eu.

Eu entendo que nem toda a relação mãe e filha é boa, que existem sim os conflitos de geração, conflitos ideológicos, mas também existem coisas graves que impossibilitam uma aproximação. Mas o que quero dizer aqui, é que racionalizem e vejam qual é a situação. Tentem ver sua mãe como uma mulher, uma mulher que assim como nós, sofre com o machismo. Que viveu em outra época, em outro contexto, que o machismo pode estar muito mais enraizado do que imaginamos. Tente ver sua mãe, como você olharia para outra mulher, como você se sensibilizaria e lutaria, por uma mulher desconhecida.
Talvez seja aqui que a palavra sororidade se encaixe melhor (mesmo eu tendo ressalvas quanto a essa palavra): ninguém está pedindo que você seja melhor amiga da sua mãe, mas que veja que ela, assim como você, sofre com a opressão do machismo. E que muitas das atitudes foram baseadas na vivência dela, como mulher que é oprimida em uma sociedade patriarcal.
Como feministas, queremos que todas as mulheres sejam realmente livres – por isso nossa luta tem que ser contra o machismo -, e dentro desse grupo de mulheres sua mãe está inclusa.

 

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E para as feministas que não são mães, talvez haja uma enorme falta de empatia por não vivência dentro da maternidade – que também é uma opressão do machismo -, e por conta disso o trabalho de desconstruir seja mais árduo, de ver sua mãe como um ser humano, seja mais complicado. É ai que temos que colocar nossa prática feminista, nossa verdadeira empatia. Fica a reflexão para as feministas que não são mães: você explora ou é conivente com a exploração da sua mãe? O seu feminismo luta pela libertação da sua mãe?

 

 

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