04 jun 2017

Divisão do trabalho doméstico: executar ou se responsabilizar?

Post por Isabela Kanupp às 23:27 em Feminismo

divisão do trabalho doméstico

 

Há um tempo eu escrevi um texto aqui no blog, que até hoje tem muito acesso. Não é à toa que é um dos textos mais acessados: o Google, de forma orgânica, encaminha as buscas para esse texto com palavras chaves como: “como fazer meu marido me ajudar em casa”, “meu marido não precisa me ajudar em casa porque trabalha fora?”, entre tantas outras frases do mesmo gênero.

Sempre falamos sobre eliminar das nossas vidas a palavra ajudar. “O pai da minha filha me ajuda com ela”, não, ele não te ajuda. Ele faz a obrigação dele. Quando colocamos que alguém nos ajuda, significa que essa pessoa não tem obrigações com aquilo e está apenas te fazendo um favor, um pai cuidar da própria filha, dar banho, alimentar, etc, não é um favor a ninguém, é apenas um pai cumprindo sua obrigação de pai.
Assim como quando seu companheiro lava a louça, estende a roupa ou faz qualquer trabalho doméstico, ele não está ajudando em casa, está cumprindo a obrigação dele, assumindo uma responsabilidade que é dele também.

Sei que a maneira como encaramos a nossa vida, as nossas relações e também a divisão dos trabalhos é um reflexo da maneira como fomos criados, e a maneira mais comum é que isso é uma responsabilidade e função de mulheres e que os homens ainda são os provedores. Desconstruir essa maneira de agir é algo muito complicado e leva tempo, e acredito que os debates dos últimos anos em relação a isso tenham feito muito bem o seu papel, para trazer a tona o assunto e trazer também uma mudança de perspectiva. Muitas de nós já entendemos que não somos obrigadas a cuidar de todo o trabalho doméstico sozinhas, apenas porque “não trabalhamos fora” entre tantas outras questões que no campo teórico está muito evidente.
Porém sabemos que na prática, a divisão do trabalho doméstico é praticamente impossível de ser realizada de forma realmente justa, até mesmo porque ainda vivemos em uma sociedade machista que se sustenta em uma mentalidade na qual se a mulher não trabalha fora, não traz o sustento para a casa, e consequentemente permanece mais tempo dentro de casa do que o homem, a obrigação com a casa – limpeza, organização, etc – é dela. Enquanto essa mesma mulher, mesmo se ela trabalhar fora, a obrigação e responsabilidade pela casa continuarão sendo apenas dela. Ou seja, quando falamos de divisão do trabalho doméstico, tudo fica muito subjetivo porque nem sempre temos uma visão – modelos e exemplos – do que seria uma divisão justa, principalmente porque, para nós mulheres, já está naturalizada a questão de termos – e aceitarmos – duplas e triplas jornadas.

divisão do trabalho doméstico

Essa visão se sustenta, também, porque acreditamos que a mulher que “fica só em casa” tem de alguma maneira uma espécie de vantagem em relação ao homem que sai para trabalhar fora. Vantagem de conforto, comodidade e tempo, sendo que sabemos como é atribulado um dia a dia, da mulher mãe, mesmo que ela “só” fique em casa. E que se houvesse uma maneira de colocar na balança todo o estresse que passamos, o desgaste físico e emocional que passamos, os conflitos que tentamos resolver durante um dia, muitas de nós, que são “apenas dona de casa”, optariam por ter uma jornada de 44 horas semanais, batendo cartão de ponto e aguentando chefe mala.

Eu tenho amigas incríveis e queridas, que trabalham muito, outras tantas estudam e são mães, e que acreditavam que seus companheiros assumiam a responsabilidade da divisão de tarefas, afinal, eles lavavam a roupa, cuidavam das crianças, e até mesmo cozinhavam o jantar. Porém, com o tempo, foram percebendo que não havia uma real divisão, que apesar de executarem essas atividades, não assumiam para eles essa responsabilidade. Assim, tudo era visto como algo grandioso, ao mesmo tempo que quando não era feito, era encarado como algo banal. Afinal, a responsabilidade não era deles, não eram eles que seriam cobrados.
Também acompanhei de perto conhecidos que “ele faz tudo em casa”, porém, para isso acontecer, a mulher tinha de avisá-lo sobre todas as coisas que ele deveria fazer. “Levou a fulaninha tomar vacina?”, “Lava a louça porque chegando em casa vou fazer a janta”, “Coloca a roupa na máquina no ciclo pesado”, apesar do homem executar as tarefas, a responsabilidade real, ainda assim, estava sobre os ombros da mulher.

divisão do trabalho doméstico

Quando eu morava com o pai da minha filha, eu pude observar algumas questões importantes em relação à divisão de tarefas. Desde sempre eu tive diversas responsabilidades: cuidados com o meu pai, cuidados com a minha filha, cuidados com a casa, cuidados financeiros com as contas de onde morávamos. E, com certeza, tudo isso era coisa demais para mim, e tentávamos sobreviver. As vezes esquecia de marcar algum exame importante, outras tantas a louça ficava acumulada e íamos nos virando, às vezes eu tirava o lixo e deixava no quintal esquecendo completamente de colocar na rua para a coleta, e TODAS as vezes, eu era cobrada por tudo isso. Mesmo que comigo morasse outro adulto completamente capaz de colocar um lixo na rua, lavar uma louça ou marcar um exame, eu era cobrada, eu passava por constrangimento. Porque dele não era cobrada a responsabilidade dessas questões. Se fez, fez. Se não fez, tudo bem, vamos cobrar a mulher da casa.

Além de todas essas questões, naturalizamos o não saber dos homens. Em grupos maternos, sempre foi comum reclamações de mulheres recém mães dizendo que quando o pai da criança fazia algo simples (como dar um banho, trocar uma fralda) fazia tudo errado, mesmo sendo algo extremamente simples de se executar. Eu já fui da turma que incentivou o “que ele faça errado, não prejudicando a criança, nem tudo tem que ser do nosso jeito” e pedi mais paciência para nós mulheres, ainda hoje eu vejo um sentido nessa linha de pensamento, pois somos indivíduos únicos e, mesmo uma tarefa simples, cada um executa de uma maneira diferente, e não há problema nisso, afinal, não é porque é diferente que seja errado. Porém hoje eu também acredito que seja importante entendermos – e nos fazer entender – que os homens são completamente capazes de realizar essas tarefas tanto quanto nós, e, por que não, melhores do que nós?
Eu não nasci sabendo dar banho em bebês, e o primeiro banho que dei na minha filha foi um desastre, assim como só fui aprender a lavar roupa de verdade recentemente (jurava que era só colocar na máquina de lavar e ligar).
Atividades domésticas são atividades chatas? Sim, são. Para a maioria das pessoas são atividades absurdamente maçantes. Porém são coisas que têm que ser feitas por alguém, e, infelizmente, de modo geral, esse alguém sempre será uma mulher – quando não a esposa, a mãe ou a empregada – sendo que os homens são completamente capazes de aprender a executar essas tarefas.

Somos tão condicionados a associar as tarefas domésticas às mulheres, que desconstruir essa linha de pensamento é algo difícil e constante.
Há uns anos, passei muita vergonha em relação a isso, e já devo ter contato isso em algum momento em outros textos, há uns anos, quando eu não tinha tanta habilidade na cozinha, eu recorri a uma amiga para saber se um feijão que eu havia congelado há meses, estava estragado ou não. Como não consegui falar com ela, mandei uma mensagem para o seu companheiro perguntando se ele estava com ela, pois precisava tirar uma dúvida com ela. Ele se prontificou a me ajudar, e mesmo depois de eu insistir que seria apenas com ela, pois ele provavelmente não saberia me ajudar, ele insistiu e eu o questionei. Ele não só me explicou, como me questionou: “O que te fez pensar que eu não saberia? Só porque sou homem? Sou eu quem cozinho aqui em casa!”.
Estamos tão condicionados a acreditar que determinadas funções são funções de mulheres, que nem sempre passa pela nossa cabeça que muitas vezes dentro daquela dinâmica familiar não é.

Já fui muito questionada se eu acredito que seja possível uma divisão do trabalho doméstico sendo 50/50, e não, não acredito. Ainda temos que evoluir muito como sociedade para isso, mas acredito que não podemos deixar de lutar por isso e buscar a mudança através do nosso movimento. E a luta, querendo ou não, começa em casa. Começa com a mudança de pensamento, a mudança do agir, entender que nem tudo é nossa responsabilidade e muito menos seria apenas por sermos mulheres. A mudança começa quando entendemos que, apesar de não acreditar que é possível uma divisão dos trabalhos domésticos de maneira igualitária agora – dentro do nosso contexto social -, a luta é para mudar essa realidade e ficarmos mais próximos disso. E que existem outras maneiras de ser feito o trabalho doméstico, que mesmo que não seja igualitária nesse momento, é o caminho para o mais justo. Existem outras dinâmicas e não é porque sua mãe ou sua avó te disseram que isso é função de mulher, que se você fica em casa mais tempo o trabalho doméstico é seu, isso seja verdade e que não há outra maneira de ser feito isso. Não temos como mudar se não acreditamos na possibilidade, se não temos modelos e exemplos. Se fomos criadas achando que a responsabilidade da casa e dos filhos é da mulher, e não temos conhecimento de que existem opções, de que dá para fazer diferente. Dá sim.

divisão do trabalho doméstico

Algo muito comum na minha família – e isso faz parte de toda a questão de crescermos ouvindo e sendo influenciado por aquilo – são mulheres que criticam duramente outras mulheres por algo que não deveria ser dirigido apenas às mulheres.
“Olha como a fulana deixou essa casa, que porca”, e eu toda paciente explico que bom, não era obrigação somente da fulana, mas também do companheiro dela, que vivia na mesma casa, e se a casa está assim a responsabilidade é dos dois.

Fazer esse trabalho de mudar nossa visão e mudar a visão do outro em relação a isso é um trabalho árduo, de conscientização, de possibilidades, e até mesmo de confrontar, confrontar aquilo que fomos ensinados – e claro, nossos pais -, e justamente por isso pode ser muito difícil romper com alguns pensamentos. Afinal, indiretamente estamos reconhecendo que nossos pais, avós, e pessoas queridas, nos ensinaram de maneira equivocada. Porém, apesar de ser uma mudança difícil, principalmente quando falamos dos detalhes, é uma mudança muito recompensadora e benéfica para todos.

Quantas de nós, mulheres mães, não chegam ao fim de um dia tão exaustas e cheia de tarefas acumuladas? Não, isso não é normal. Estamos sobrecarregadas. E se estamos sobrecarregadas é porque alguém não tem feito a parte que lhe cabe e estamos fazendo a nossa e a desse alguém. Quem é o adulto que também deveria ser responsável por isso?

Essa semana vi uma publicação que ilustra muito essas questões colocadas aqui, a diferença entre executar uma tarefa doméstica e se responsabilizar de fato por aquela atividade. Achei sensacional e super didático. Acredito que seja bem útil para esclarecer de forma simples o que buscamos quando falamos sobre a divisão das tarefas domésticas de forma igualitária.

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28 mai 2017

As feministas raivosas.

Post por Isabela Kanupp às 11:35 em Feminismo

Há um tempo eu tive contato pela primeira vez com esse termo de forma pejorativa para fazer referência às feministas mais radicais – no conceito de ir a raiz, não adeptas da teoria. Por incrível que pareça, meu contato não foi lendo pessoas de direita, fascistas ou conservadoras, que querendo ou não esperamos esse tipo de atitude, mas sim vindo de outras mulheres que também se reivindicavam feministas.

Quando escrevi o texto “O elitismo e a meritocracia no meio ~humanizado~” – um texto crítico em relação a militância na humanização do parto – , eu sofri diversos tipos de retaliações, e inclusive, foi somente ai que percebi o porque de ninguém tocar nesse assunto. Foi em meio a essas retaliações, que eu descobri que parar a grande parte das pessoas envolvida nessa militância, eu era conhecida como uma “feminista raivosa”, dito como forma de menosprezar ou descreditar a minha militância feminista.

feministas raivosas

 

Demorei muito tempo para entender algumas questões que me incomodavam, e muito mais tempo para conseguir escrever sobre isso, porém hoje eu entendo que sim, a raiva é necessária e nem sempre sentir raiva é algo negativo, as vezes é apenas a reação mais apropriadas em determinadas situações.
Não me envergonho por sentir raiva, por não me conformar com a opressão na qual vivemos, por não me calar diante de elitismo e do discurso meritocrático. Sinto raiva sim, e não há outra maneira de me sentir, sendo eu uma mulher mãe, pobre, e eu luto contra todo o tipo de opressão – muitas que sinto diariamente -, inclusive, contra esse discurso meritocrático e elitista que faz parte da visão capitalista. Até mesmo porque além de feminista, eu sou comunista.

Colocar a raiva como um sentimento negativo, ou algo que devemos ter vergonha de sentir, é apenas mais uma forma de controle, que aparentemente aprendemos muito com nossos opressores. Nessas horas vejo como é importante repetirmos sempre para termos a consciência de que somos seres humanos, que mulheres, que mulheres mães, são seres humanos, que sentem, choram, se frustram, ficam felizes, sente raiva, etc, como qualquer outro ser humano. Colocar que alguém não pode sentir raiva, ou que quando alguém sente raiva desmerece toda a sua trajetória, desmerece tudo que foi dito,  é de uma certa maneira, não ver aquela pessoa como um ser humano. É desumanizá-la.

O que me envergonha são mulheres agindo como nossos opressores, separando, classificando e rotulando (para ser mais fácil de dominar) entre boa e má feminista, feminista legal e feminista chata, feminista aceitável e feminista raivosa, apenas porque o discurso não agrada esse grupo de pessoas, apenas porque o discurso das feministas más, chatas e raivosas, questiona os privilégios sociais que esse outro grupo possui.

Particularmente não acredito que teremos uma revolução social baseada em bondade e condescendência com quem nos oprime. O amor pode ser revolucionário, mas amar quem nos oprime, quem sustenta a opressão que sofremos, não. Essa visão de paz, amor e luta com flores não me contempla, mas acredito que muitas mulheres acabam aderindo, justamente porque, está incutida a ideia de que mulheres tem que ser dóceis e meigas. Sabe, o feminista sem deixar de ser feminina? Então.
Mulher não pode ser mais enfática, mulher não pode ser objetiva, mulher não pode ser raivosa!
A real é que estamos tão acostumados com aquilo que nos foi imposto e condicionado, que acreditamos ser algo natural de nossa essência. E claro, qualquer mulher que se atreva a fugir desse estereótipo da mulher calma, doce, paciente, etc, será uma mulher raivosa e histérica. 

feministas raivosas
Eu particularmente acredito que a raiva seja um combustível transformador! Tanto na questão pessoal, quanto na questão política. A raiva também é o reflexo da nossa indignação e pode ser o passo da mudança. E claro, é absurdamente opressor querer controlar como mulheres se sentem, é absurdamente desumanizador tentar controlar como as pessoas se sentem e como elas devem se sentir.

Por fim, essa insistência em classificar feministas entre boas feministas e más feministas, entre a feminista dócil namastê e a feminista raivosa, só estamos reforçando os estereótipos de gênero e o sexismo que existe na nossa sociedade. Estamos apenas reforçando que a mulher até pode se empoderar e ter voz, desde que seja uma voz meiga, dócil e suave.

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21 mai 2017

A luta contra o consumismo na infância e o capitalismo.

Post por Isabela Kanupp às 10:20 em Feminismo, Maternidade

consumismo na infancia

 

Desde que a minha filha nasceu o debate sobre consumismo na infância foi muito presente nas nossas vidas, seja pela questão ideológica que eu escolhi, ou até mesmo antes disso, que já era muito presente esse debate na blogosfera materna.

Minha posição em relação a isso é muito clara, e desde sempre escrevi sobre a questão do consumismo na infância e como isso é nocivo e pode distorcer a visão de todos nós dentro dessa sociedade capitalista no qual vivemos.
Porém, de um tempo para cá, eu vejo cada vez mais uma enorme confusão entre combater o consumismo e combater o consumo. Muitas pessoas por não ter informação de fato sobre a diferença entre consumo e consumismo acabam se afastando da ideia de luta contra o consumismo por acreditar que não se pode comprar nada, ter nada e que se comprar algo para o filho o estará estragando para todo o sempre.

É preciso também falar sobre a diferença entre a teoria e a prática e como, às vezes, a prática se torna muito difícil dentro de uma sociedade capitalista.
De maneira geral, o combate ao consumismo na infância é jogado como responsabilidade dos pais, e muitas vezes nos cobramos para além do necessário – e temos a tendência de acreditar que temos que banir o consumo – e nos culpabilizamos, por nossos filhos, principalmente quando maiores, mostrar uma tendência consumista. Ignoramos – e somos levados a ignorar – o fato de que crianças são influenciáveis e recebem influências de diversos locais, amigos, família, escola.

Atualmente o que vejo dentro da blogosfera materna anticapitalista como um todo, é um combate ao consumo e ao consumismo, porém de uma forma totalmente elitizada e sem nenhum tipo de recorte de classe.
Precisamos entender – e aprender a dialogar – que para as classes mais baixas, o consumo tem outro valor e que apenas esse discurso que não contempla essa realidade e não dialoga com ela, não basta por não ser eficaz.

Quando comecei a ter contato com essa militância anticonsumismo, muito se via sobre o combate dentro das escolas ao consumismo desenfreado de marcas que além de tudo, não fazia bem a saúde. Lembro nitidamente do caso da Kibom e seu freezer de sorvete nas escolas, algo que hoje, ao meu ver, continua sendo tão absurdo quanto antes, porém hoje também consigo ver o porque naquela época aquilo não me atingia: minha filha sempre estudou em escola púbica, na periferia, onde algo assim é tão surreal que  nem sabíamos que era possível existir  – um freezer de sorvete dentro de uma escola -, aqui na nossa realidade o consumismo nos atinge de outra maneira e não como um freezer bonito da marca famosa de sorvete.

consumismo na infancia

É preciso enxergar o que é consumismo para enxergar como ele nos atinge dentro da nossa realidade e não foi através de um freezer de sorvete em escolas que eu comecei a ver como o consumismo estava presente na minha vida.
Comecei a enxergar isso no meu primeiro emprego após o nascimento da Beatriz, onde eu ficava em média 12 horas entre trabalho e transporte longe de casa e associava consumir com preencher minha ausência. Sempre comprando coisas desnecessárias para a Beatriz, na esperança de que amenizasse a minha ausência naqueles momentos do dia.
Comecei a enxergar como o consumismo me atingia na gravidez da Beatriz, onde achava que iria morrer se não tivesse um kit berço, que na época custava menos de R$150 e nem em sonho eu tinha condições de comprar. Antes mesmo de ser mãe já me sentia uma péssima mãe por não poder comprar algo que, hoje sei, é totalmente dispensável.

 

O fato é que o consumismo atinge as pessoas dentro do seu contexto de diferentes maneiras, e justamente por isso, combatê-lo também depende desse contexto e por isso é preciso fazer recorte de classe.
Para a mulher mãe pobre, o peso de comprar algo para o filho após 12 horas distante de casa é totalmente diferente de comprar a mesma coisa para uma mulher em outro contexto.
O que vejo dentro dessa luta contra o consumismo, composta em sua maioria por mulheres brancas de classe média e alta, é o combate ao consumo do pobre. É lutar contra o consumismo fiscalizando o consumo do pobre.
A mim, esse consumismo de sorvete Kibon nas escolas nunca atingiu. Eu, mulher pobre, mãe solo, não sei o que é isso. Se o que é o consumismo simples, a propaganda no meio do jornal na televisão, a criança fazendo birra no meio do centro comercial da cidade porque viu um produto made in china.
Esse consumismo gourmetizado, que mães classe média sempre reclamam, também é reflexo do que essa mesma classe média alta sustenta.

É muito mais fácil ser conta o consumismo se você sempre deteve o poder de consumir.
Se para você a linha entre consumo e consumismo sempre esteve clara, porque era só uma questão de controle e não de compensação, já que esse poder sempre esteve em suas mãos.

Existe uma grande diferença entre a vlogger mirim que tem coleção de Baby Alive e a criança pobre que a mãe parcela em 12x algumas bonecas para ela. É consumismo em ambas as famílias, mas o peso é outro e a forma de combatê-lo também.

Quando falamos de consumismo na infância, não é sobre crianças, já que elas não detêm poder aquisitivo. Então o combate não é as crianças, a conscientização não é somente sobre as crianças, mas sobre os seus pais, com o foco do combate na estrutura que sustenta a isso. E existe uma enorme diferença entre os pais que ganham dois salários mínimos e estão trazendo o consumismo para dentro de suas casas e os pais que ganham dez salários mínimos. Então a forma de conscientização e/ou combate, também tem que levar em conta esses fatores do contexto de cada família.

consumismo na infancia

Não podemos exigir uma infância livre de consumismo enquanto somos adultos consumistas. Enquanto vemos necessidade de trocar de celular a cada lançamento, mesmo distante da nossa realidade financeira. Assim como não se pode cobrar uma responsabilidade apenas da família e culpabilizar os pais, enquanto a propaganda voltada para o público infantil ainda é vista com bons olhos.
Enquanto ainda que seja apenas uma parte dessa grande engrenagem, quem clama contra o consumismo infantil, é uma parte da população que sempre teve o direito de consumir e mesmo sendo uma pequena parte de toda estrutura, é também quem ajuda a mantê-la.
Se estamos militando sem fazer um recorte de classe, nossa militância não tem eficácia. Não há mudança se essa mudança não for para todos.


Enquanto estamos debatendo sobre o freezer da kibon nas escolas infantis que custam o dobro do salário do mês de uma mãe solteira, enquanto estamos debatendo como o consumismo é desenfreado visto que a nova tendência é ir para outro país fazer o enxoval apenas por questão de status, mulheres pobres comprometem boa parte do seu salário comprando coisas bacanas para os seus filhos, porque os filhos da patroa tem, porque fica muitas horas distante de casa e precisa compensar essa ausência de alguma forma.
Esse combate ao consumismo que a classe média que sempre foi abastada se indigna não me contempla. Esse combate ao consumismo, que tem origem no capitalismo, vindo de pessoas que se beneficiam e sustenta o sistema capitalista não me contempla. Eu não quero fazer parte do mesmo grupo que prefere pagar três salários mínimos em uma escola, para seu filho ter uma educação diferenciada dos demais, ao invés de lutar por educação digna e de qualidade para todos.
Essa luta anticonsumismo elitista, além de ser incoerente, não abraça as dores da maioria das famílias.

Que mais famílias tenham acesso à informação de qualidade, que mais mulheres possam se sentir acolhidas nas suas dores, que a luta anticapitalista – e também anticonsumismo – dialogue com quem nunca teve acesso ao consumo, que seja com empatia. Que a busca pela liberdade distante do consumismo seja algo para além das escolas caras dos filhos de quem sempre pode consumir, que seja algo que contemple a realidade distante deles.

Não podemos lutar de forma eficaz contra o consumismo na infância se não lutarmos contra o capitalismo como um todo.

 

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26 fev 2017

Gravidez não é doença, mas é debilitante!

Post por Isabela Kanupp às 13:26 em Feminismo, Maternidade

Muitos já conhecem história de como eu descobri a minha gravidez, basicamente, descobri com 24 semanas. Uma gravidez que aconteceu por falha no anticoncepcional e que foi “assintomática”. A realidade é que os poucos sintomas que eu senti no início da gravidez, eu associei com outros fatos, até mesmo porque era i m p o s s i v e l eu estar grávida, afinal, tomava anticoncepcional.
Mesmo tendo associado com outras coisas (“minha gastrite atacou”, “devo ter comido algo que fez mal”), não tive enormes desconfortos e talvez justamente por isso demorei para descobrir que estava grávida.
Mais para o final da gestação sentia pequenos incômodos, principalmente na questão de me locomover: eu fiquei enorme e minha noção espacial sumiu totalmente.
Porém, nada disso se compara com o que já me relataram e algumas gravidezes que acompanhei de perto. Acredito que a minha gestação está inclusa no que chamamos de uma gravidez tranquila.

gravidez

Dizem por aí que a gravidez é um momento maravilhoso! Que estamos gerando uma vida e que temos que ser muito grata por tudo isso. A verdade é que isso não passa do que chamamos de romantização da maternidade.
Claro que você pode achar esse momento lindo e maravilhoso, mas isso não muda o fato de que seu corpo está mudando, que você está tendo uma chuva de hormônios, que provavelmente você irá aumentar o seu peso e tamanho e que tudo isso gera desconforto físico, mal estar, desanimo. E o principal: você não precisa aguentar tudo isso com um sorriso no rosto.

Gravidez não é doença, não mesmo. Mas uma gestação pode nos acarretar diversas limitações, um cuidado redobrado com a nossa saúde e muita indisposição. Não é doença, mas muitas vezes pode nos deixar debilitada. E mesmo que a sua vizinha esteja fazendo faxina com 40 semanas de gestação, VOCÊ NÃO É A SUA VIZINHA.

São pessoas diferentes, organismos diferentes, contextos diferentes. Assim como quando toda uma família fica gripada, nem todos tem os mesmos desconfortos, na mesma intensidade.

Existe uma cobrança gigantesca para que estejamos super dispostas na gravidez e amando tudo. O que ninguém nos conta é que são pouquíssimas as mulheres que se sentem verdadeiramente dispostas durante esse período e que é impossível amar tudo, principalmente quando se trata de uma mudança tão grande como uma gravidez.
Ficamos emocionalmente abaladas e vulneráveis, não somente pelo nível de hormônios que mudam, mas porque cada uma de nós passamos pela gravidez em uma situação particular de nossas vidas, cada uma com seu contexto, com seus medos, suas dores, seus traumas. Estamos ali, na espera, sabendo que tudo irá mudar completamente e quase nunca estamos preparadas para isso, justamente porque existe uma romantização e tudo é muito nebuloso.

Uma grande parte das mulheres passa pelo período da gravidez sozinhas, mesmo que essas mulheres sejam casadas ou estejam com o pai do bebê, a gravidez é um momento muito solitário. Vivemos em uma sociedade machista e isso reflete em tudo o que nós fazemos e vivemos, na gravidez não é diferente.
Justamente por ser um processo que ocorre no corpo da mulher, muitos homens acreditam que não tem que participar, não tem que fazer a parte deles ou acreditam que a parte deles restringe à questão financeira, quando na verdade vai muito além disso.
Também tem o fato de que muitos amigos se afastam quando engravidamos, consciente ou inconscientemente por não saberem lidar com a situação, por ser algo novo para eles também, o que faz com que a solidão aumente.
Tudo isso somado ao fato de estarmos vulneráveis emocionalmente, faz com que toda a situação não seja a coisa mais agradável do mundo.

A sociedade nos cobra, a família nos cobra, os amigos nos cobram. Existe a romantização da maternidade, o mito de que a gravidez é algo mágico e maravilhoso. E além de termos que passar por tudo isso sozinha, ainda somos julgadas se falarmos como realmente nos sentimos na gravidez, então muitas mulheres guardam todo esse desconforto para si e tenta se convencer de que tudo está maravilhoso, ou pior, que o problema é com ela.

gravidez

Eu comecei a me sentir deslocada na gravidez – e isso se estendeu por boa parte dos primeiros anos de vida da minha filha -, justamente por não ter com quem dividir tudo o que eu sentia. Mesmo já existindo grupos de maternidade na época, ainda era focado muito na questão de mudanças e desenvolvimento do bebê e pouco sobre as mudanças que nós mulheres passamos e sentimos. Não que tenha mudado muito hoje, porém vejo que felizmente hoje conseguimos um pouco mais de espaço para falar sobre a gravidez de forma sincera, mesmo que isso ainda esteja restrito a grupos ou meia dúzia de amigas que não irão nos julgar.

Lembro que na gravidez eu sentia vontade absurda de ter uma conversa franca sobre tudo o que eu estava passando, mas não era possível. Eu não conseguia ter momentos que, até então, eu considerava momentos que toda grávida passa, como conversar com a barriga.
Parece bobo, mas eu era cobrada e me sentia péssima. E isso tudo me amedrontava mais ainda: será que não amo minha filha? Será que ela se sentirá rejeitada? Será que eu tenho algum tipo de problema?
Tudo isso gerou uma pressão totalmente desnecessária para o momento, uma cobrança para além de todas as outras que já temos.

Assim como eu não conseguia conversar com a minha barriga – e achava isso absurdamente esquisito -, eu também não conseguia me achar a pessoa mais bonita do universo. Estava bem longe disso na verdade.
Mesmo com toda a ajuda hormonal desse momento (cabelo ficou maravilhoso e coisas do gênero) eu me sentia um lixo. Tenho pouquíssimas fotos gravida – foto da barriga semana a semana então, jamais -, justamente porque eu não aceitava tudo aquilo, me sentia péssima e hoje só me arrependo por não ter recordações em foto desses momentos.

Hoje por mais que eu entenda que a minha gravidez foi “tranquila” em relação a mobilidade – eu saia, fazia minhas coisas, me sentia disposta quase sempre -, eu vejo que os fatores psicológicos foram avassaladores e muito mais profundos. Assim como entendo que muitas mulheres não pretendem mais ser mães justamente porque a gravidez é um momento muito complicado.

Precisamos com urgência parar de tratar gravidez como um momento mágico e santificar mulheres gravidas. Como se a partir daquele momento todos nossos problemas tivessem desaparecido, como se tudo fosse maravilhoso e tivéssemos que sorrir sempre.  Mesmo grávidas ainda somos humanas, ainda somos mulheres, ainda sentimos, ainda ficamos tristes, ainda temos nossos problemas para além da gestação, ainda somos seres humanos com quereres.

Da mesma maneira que a sua gravidez possa ser maravilhosa e tranquila, da sua vizinha com o mesmo tempo de gestação pode não ser. Seja compreensiva, seja empática, não gere cobranças para além do que já somos cobradas, nem para você e nem para ela. Compartilhem experiências, ouça o que ela tem para dizer, tente buscar soluções para os desconfortos seus e dela. Se unam. Nós mulheres já somos julgadas e cobradas a todo momento e por todos, não precisamos engrossar esse coro.

Entenda que todas nós somos diferentes, somos indivíduos únicos e que por mais que estejamos passando pelo mesmo momento que outra mulher, esse momento pode se manifestar de maneiras diferente para as duas. E acredite, você não é anormal por não fazer o que “toda-grávida-faz”. Você não ama menos o seu bebê, você não será “menos mãe” do que quem conversa com a barriga. Sua bagagem, sua vida, seu histórico de vivências é algo único e não tem como comparar com a experiência de outras mulheres.
Acolha, mas não se esqueça que você precisa SE acolher também.

Tente não se cobrar tanto. Muitas de nós acreditamos que não vamos conseguir ter vínculo com o bebê se não conversarmos com a barriga e nos forçamos a uma situação desconfortável. Porém, vínculo é algo que se constrói de diversas maneiras!
Tente não dar ouvidos a quem tenta te comparar, você é única e só você sabe como está sendo essa experiência de gravidez para você. Sei que é difícil, mas tente se cercar de coisas boas, momentos que te façam feliz, tente relaxar dentro do possível e fazer o que você goste e te traga felicidade. Você estando feliz e tranquila, ajuda demais em todo processo. Principalmente em aliviar o peso de um momento que nos deixa tão vulneráveis.

E acredite: tudo passa! Sei que parece que o primeiro trimestre não passará nunca, mas passa. Sei que parece que a gravidez será eterna, mas não será. TUDO PASSA! O segredo é tentarmos transformar essa caminhada em algo mais confortável possível para nós.

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14 fev 2017

Maiara de Marco Fotografia – {Projeto Mães e Mulheres Empreendedoras}

Post por Isabela Kanupp às 11:44 em Mães Empreendedoras, Sem categora

 

 

O nascimento de um filho nos traz enormes transformações internas e externas. Sabemos que toda a rotina muda, mas os sonhos e objetivos também. A maternidade nos traz outras perspectivas das situações e todo esse momento de evolução interna faz com que a gente comece a tirar aqueles projetos das gavetas.

 

Maiara de Marco

Essa também foi a trajetória da Maiara, graduada em Engenharia Biotecnológica, mudou de cidade após se formar e resolveu dar um novo rumo para sua vida profissional.
Mãe da Amelie de 1 ano e 9 meses, transformou a fotografia que era apenas um interesse em sua profissão, encantada com a possibilidade de eternizar momentos únicos.

 

“O intuito é que, com o meu trabalho, eu consiga eternizar momentos únicos e especiais da sua vida também. Meu objetivo é capturar a espontaneidade, a alegria, a intensidade e a beleza presentes em cada momento, pois, para mim, uma bela fotografia é aquela que transmite sentimentos.”

Maiara de Marco

 

E sabemos o poder da fotografia para eternizar, não é mesmo?
A Maiara é um amor e transmite muito isso no seu trabalho. Trabalho esse muito variado, desde fotografia de família, gestante, acompanhamento mês a mês, como também para eventos especiais. Registrando tudo com muito amor e sensibilidade.

Maiarademarco3

Compartilho da visão de que a fotografia é uma maneira incrível de eternizar momentos, e não somente isso, como uma excelente maneira de registrar a história e a história de nossas famílias. Tenho comigo um enorme arrependimento de ter pouquissimas fotos gravida e dos primeiros meses da Beatriz e isso faz uma diferença enorme!

Encontrar uma fotógrafa que capte a essencia do momento também nem sempre é uma tarefa fácil, ainda mais em um momento onde estamos tão sensíveis. Justamente por isso adorei o trabalho da Maiara, pois transmite uma sensibilidade e um bom gosto incrível.

Maiara de marco

 

Para quem é de Campinas e Região vale a pena conferir o trabalho dela, tanto no site quanto no instagram e conhecer um pouco mais dessa mãe fotógrafa! <3

 

Serviço:

Maiara de Marco Fotografia
Contato: (19) 971616160
Site: maiarademarco.com.br
Facebook: Maiara de Marco Fotografia
contato@maiarademarco.com.br