21 set 2016

Vá com calma, porque vai passar.

Post por Isabela Kanupp às 23:39 em Maternidade

Existe uma cobrança gigantesca na nossa sociedade para que sejamos mães perfeitas. Isso começa desde a gravidez: você tem que estar ali dentro da caixa do que todos esperam de você! Tem que tomar cuidado, mas também não pode fazer “corpo mole” porque “gravidez não é doença”. Tem que estar completamente feliz e animada. Tem que falar com a barriga. Tem que cantar para a barriga. E se por acaso, seja pelo motivo que for, você não se encaixa em algo assim, até mesmo durante a gravidez, você já é taxada como péssima mãe.

Isso não acaba. Quando começamos a entender o mecanismo de todas essas coisas e o porquê de todas elas, tudo começa a fazer sentido. Nossa sociedade PRECISA que a gente se sinta culpada, porque somente assim consumimos cada vez mais para compensar esse “buraco” que a culpa faz. Transformar esse sentimento de culpa em aceitação e autocrítica é um processo muito demorado, é uma desconstrução enorme, porém é completamente possível.

Entretanto, quando você está ali, com o seu bebê no colo, com toda aquela rotina que você sempre foi acostumada de ponta cabeça, encarando seus monstros internos, seus medos e inseguranças, você não conseguirá racionalizar e sim… você se sentirá uma bosta por coisas que depois você verá que são pequenas.

calma

 

Claro que sempre queremos o melhor para nós e para os nossos filhos, temos os nossos desejos de “perfeição”, queremos que saia como planejamos. Nos informamos, pesquisamos, estudamos para saber o que será melhor desde a gestação até toda a criação dos nossos filhos, porém, nem tudo sai como o planejado. E não sai como o planejado por muitos motivos, o principal é porque não é só querermos.

Muitas de nós, por mais que queiramos amamentar, não temos a informação necessária para fazer e acontecer, e mesmo quando temos a informação, podemos não ter apoio, podemos ter outros fatores externos que influenciam no nosso desempenho na hora de amamentar. E no fim, pode não dar certo.
Demorei muito para entender que me culpar não resolveria as coisas, principalmente quando elas já não tinham saído como eu esperava. Se culpar não resolve absolutamente nada. O tempo e a energia que gastamos nos culpando, podemos gastar de uma maneira bem melhor, até mesmo, procurando entender e desconstruir questões que influenciaram para não sair como esperávamos, e então assim, tentar fazer diferente da próxima vez.

Eu não pretendo ter mais filhos, então aquilo que gostaria de ter feito diferente com a Beatriz, não terá como tentar acertar de uma próxima vez. O que posso fazer é buscar melhorar sempre, para que quanto mais o tempo passe e ela cresça, menos essa sensação de que “saiu fora do que eu esperava” diminua. Claro que não temos controle de tudo e nunca teremos, mas acredito que podemos ajustar nossas expectativas e nossa visão do que idealizamos.

Não existe um manual da mãe perfeita e, na real, não existe mãe perfeita. Essa ideia de que por sermos mães sabemos de tudo e acertamos sempre, além de ser um mito, não ajuda ninguém. Nem mesmo nossos filhos.
Somos humanas e como todos somos passíveis de erro. Se livrar dessa necessidade de acertar sempre, além de preservar nossa sanidade mental, ainda torna tudo mais leve e consequentemente melhor para todos.

Para começarmos a desconstruir essa ideia de que temos que acertar por sermos mães, é preciso entender que isso surge da sociedade que nos exige perfeição, a mesma sociedade que responsabiliza mulheres mães por tudo, que joga toda a carga de ter um filho apenas para a mulher.

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Sabemos que no começo é muito difícil entender tudo o que ocorre com a gente quando nos tornamos mães. Não é algo mágico, é algo bem real e humano. A pressão – proveniente da mesma sociedade – aumenta, as responsabilidades mudam, nosso corpo muda. No começo podemos nos sentir completamente perdidas, mas saiba que vai passar. Aquele sentimento de que estamos fazendo tudo errado, de que somos a pior mãe da face da terra, vai passar. Tenha calma. Tenha compreensão com você, com seu tempo, com sua adaptação.

A maternidade é um longo trajeto – e irreversível – no qual teremos muito tempo para errar, aprender, acertar e tentar fazer melhor.

Tenha calma, vai passar.

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19 set 2016

Precisamos falar sobre o “movimento” childfree.

Post por Isabela Kanupp às 02:06 em Feminismo

childfree

 

Estou para escrever esse texto há muito tempo, mas me faltava paciência para falar sobre o assunto. Todo ano o tema ressurge e é ótimo falarmos sobre isso, principalmente se formos ver pelo viés de que nenhuma mulher precisa ser mãe. Deveríamos – como sociedade – já termos avançado nesse debate há tempos, mas claro que em uma sociedade machista, qualquer coisa que diz respeito a liberdade e autonomia da mulher só regride e não progride. Mulheres que não querem ser mães existem e mulheres que nunca quiseram ser mães, mas são, também existem.

Entendo, respeito e irei defender toda a mulher que não quiser ter filho, a minha posição sobre isso não é de hoje. Ninguém, absolutamente NINGUÉM precisa ser mãe para ser feliz, realizada ou completa. Nenhuma mulher tem obrigatoriedade de ser mãe, não temos que “cumprir esse papel biológico”, muito menos seguir conselhos cristãos de povoar a terra. A terra já está muito bem povoada.

A questão central é o direito da escolha da mulher e irei defendê-lo sempre.

Porém precisamos pontuar algumas questões.
O “movimento” childfree tinha tudo para dar certo e inclusive, ser aderido por mulheres mães, afinal, nem toda mulher engravida porque quer, nem toda mulher é mãe por escolha. O movimento childfree deveria englobar todas essas questões, como a questão da legalidade do aborto, falando sobre maternidade compulsória e a romantização do ser mãe. Inclusive, é o que acontece em boa parte do mundo em movimentos como esse.

Infelizmente o que vemos não é isso. É muito fácil encontrar no facebook páginas sobre mulheres childfree, onde a grande maioria das publicações é voltada para ofender mulheres mães e seus filhos, destilar misoginia e expor mulheres mães. Muitas delas, que nem queriam ser mães, mas são. Também são compartilhadas diversas questões problemáticas que só colaboram para a desinformação das pessoas, coisas como “só engravida quem quer”. Um movimento com potencial de conscientizar mulheres a se prevenirem para não ser mães, conscientizar mulheres de que todos os métodos anticoncepcionais são falhos, serve justamente para o contrário, destila desinformação.

Se mulheres childfree não querem ter filhos porque sabem das privações que mulheres mães sofrem, deveriam focar sua luta no sistema patriarcal, e não em situações individuais de mulheres que já se tornaram mães – por desejo ou compulsoriamente. Afinal, a culpa da maternidade ser como ela é, não é das mulheres mães, mas sim do sistema no qual vivemos.

childfree

Como disse há muito tempo gostaria de tocar nesse assunto, pois todo ano o tema surge. Principalmente no mês de maio, mês que se comemora o dia das mães. Junto com isso, surgem as “mães de pet”, que posteriormente escreverei sobre, e que em geral, surge junto com essas páginas childfree, apenas pregando ódio as mulheres mães.

Resolvi escrever sobre isso hoje, pois há um tempo tenho no meu facebook um homem escritor bem conhecido nessa internet, e que hoje compartilhou uma página sobre childfree, falando sobre a importância de falarmos sobre a não maternidade e as escolhas das mulheres. Porém, uma página bem infeliz, que destila misoginia. Foram avisá-lo, falando sobre como essas páginas são cheias de ódio, discursos vazios – apesar da ideia ser boa, novamente ressalto que precisamos falar sobre o assunto – e de como essas páginas eram ofensivas com mulheres mães, que são estruturalmente oprimidas na nossa sociedade machista.
Quando questionaram e apontaram que mulheres mães se ofendem com a questão do Childfree, não por terem feito uma escolha diferente (que nem sempre é escolha), mas pelo discurso ser carregado de misoginia e ódio à criança, a pessoa que publicou isso, comentou que “não era ranking de opressão”. Queria elucidar uma questão: a maternidade carrega uma enorme carga de opressão, porém, a não maternidade não. Mulheres que não querem ser mães, sofrem pressão social, mas não opressão. Uma mulher não mãe não é excluída de espaços públicos, não é impedida de frequentar sua faculdade, não tem sua autonomia retirada, muito menos sentem necessidade de tutelá-la, seu corpo não se torna (mais) publico do que já é por ser mulher e por aí vai.

childfree

Existe uma enorme diferença entre opressão estrutural e pressão social.
Nenhuma mulher perde o emprego por não ser mãe, ou em uma entrevista de emprego ouve que “não é o perfil da vaga” (mesmo preenchendo todos os requisitos) somente por não ser mãe, acontece em casos como gordofobia, racismo, lesbofobia, mas não por não ser mãe.

Vivemos em uma sociedade onde a grande maioria das mulheres são mães de forma compulsória, seja porque nenhum método anticoncepcional é 100% seguro, seja porque o aborto é ilegal no Brasil. Pouquíssimas mulheres engravidam porque querem, porque desejam, porque escolheram engravidar, e mesmo dentro desse nicho de pouquíssimas mulheres, ainda assim, temos que avaliar até onde foi essa escolha, já que somos levadas a crer desde pequenas que a maternidade é nosso destino biológico e social, nosso dever como mulher.
childfreeDevemos entender que discurso contra mulheres e contra crianças (que também é uma classe oprimida), jamais será libertador. Destilar ódio contra crianças, chamar essas crianças de “catarrentos” – como vocês podem notar, na maioria dessas páginas childfree -, jamais será algo pró-mulher ou algo feminista. Justamente porque não vê a criança como uma classe oprimida, justamente porque quando se exclui crianças, quando destila ódio a crianças, você está fazendo o mesmo com suas mães, você está excluindo suas mães. Porque sim, na nossa sociedade, mesmo nós não querendo e lutando muito para isso mudar, crianças ainda são vistas – e em geral são – responsabilidade apenas da mãe. Se você exclui uma criança de um ambiente, consequentemente estará excluindo sua mãe também.

Essa noção de libertação individual não é compatível com o feminismo como mudança social. Porque não é possível você ser coerente dentro do feminismo, realmente ter prática feminista, se você quer sua liberdade oprimindo outras mulheres.

 

É possível ser childfree e não cometer nada disso, e não oprimir mulheres mães. É possível a construção de um movimento sério onde lute pela libertação de todas as mulheres, onde lute pela escolha de todas as mulheres. Mas essa não é a realidade do movimento childfree atualmente.

Atualmente é muito mais fácil você encontrar textos embasados e bem argumentados falando sobre childfree de mulheres que, pasmem, são mães. Justamente porque muitas dessas mulheres não desejavam ser mães, porém agora que são de forma compulsória, conseguem passar a mensagem sobre escolha sobre o seu corpo, maternidade compulsória e outros temas que deveriam estar também dentro do childfree, de forma mais empática e sem oprimir outras mulheres.

childfree

Ser childfree não tem relação com odiar crianças, mas sim com não querer ser mãe. Páginas que destilam ódio contra crianças, que pregam a violência contra a criança, não deveriam ser vistas como de fato childfree, mas apenas como mais uma página misógina.

É preciso não confundir a ideia de não querer gerar uma criança, de não querer ser mãe, com a ideia de odiar crianças.
Dentro do próprio movimento feminista vemos isso: o fato de você ser uma feminista que não quer ser mãe, não significa que você tem que cagar e andar para mulheres feministas que já são mães. Quando você reproduz conceitos como “quem pariu Matheus que o embale”, mesmo que somente em forma de atitude, você está reproduzindo a mesma ideia machista da nossa sociedade, de que o filho é responsabilidade apenas da mulher e não de toda uma sociedade.

Você quer realmente disseminar a ideia – excelente! – de que nenhuma mulher tem que ser mãe? Existem ótimas maneiras de se fazer isso, inclusive, falando sobre a opressão que é ser mãe, falando sobre como é difícil ser mulher na nossa sociedade, falando sobre como os métodos anticoncepcionais são falhos, de como a maternidade compulsória é construída desde a infância de nossas meninas. Se dizer childfree, dizer que você tem autonomia sobre seu corpo e sua vida, mas reproduzir misoginia e machismo, não é coerente. 

É necessário e urgente falar sobre o assunto, mas com responsabilidade e sem reproduzir opressão contra mulheres.

 

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17 set 2016

Guest Post: Dica de loja baratinha – Por: Nanza Brito.

Post por Isabela Kanupp às 03:14 em Guest Post

Oi minhas lindas!

Hoje vim trazer um post de dica para vocês de complemento do meu video, que espero que vocês assistam AND se inscrevam no meu canal ein?

 

Pretendo sempre trazer dicas de compras em sites que eu confio e compro, e que tenho certeza que vocês vão adorar, mas se por acaso não gostarem do que eu comprei, vale a pena dar um confere la no site né? vai que é tem produtos do seu gosto?

A Posthaus, é em especial um site que eu amo, compro muito lá.

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Nanza Brito é mãe, mulher, fotógrafa e blogueira. Você pode conferir todos os textos dela aqui.

 

17 set 2016

Casa da Coruja – { Projeto Mães e Mulheres Empreendedoras }

Post por Isabela Kanupp às 03:00 em Mães Empreendedoras

Conheço a Gabi faz muito tempo, ela é uma inspiração para mim em muitos sentidos. Há um tempo conheci o trabalho dela com o crochê, ela enviou para a Beatriz um ursinho muito fofo e maravilhoso. É um trabalho incrível, de uma qualidade impressionante. E hoje ela vai contar um pouco da história dela e de como começou a empreender, surgindo assim a Casa da Coruja. :)

 

 


 

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Eu sou a Gabriela, mãe da Mônica (3 anos) e da Camila (que chega em novembro). A paixão pelo crochê vem de criança. Aprendi esta arte – assim como bordado, tricô e outras “coisas de mulherzinha” – com minha avó materna, achava que não tinha muito talento para a coisa, até que, há alguns anos, descobri os amigurumis, que são bonequinhos feitos de linha e eles  conquistaram meu coração.

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Quando estava grávida da minha primeira filha decidi fazer as lembrancinhas de nascimento usando a técnica. Depois disso uma amiga me pediu um orçamento para eu fazer as lembrancinhas da filha dela, fiz alguns bonequinhos para a Mônica, outros para dar de presente… Daí fui atrás de aprender a fazer sapatinhos, toucas, casacos, brinquedos e tudo o que me vinha à cabeça! Acabei encontrando no hobbie uma alternativa de renda extra e assim nasceu a Casa da Coruja!

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Para conhecer alguns de meus trabalhos acesse o face da casa – facebook.com/casacoruja – e a minha loja virtual no portal Elo7 –www.elo7.com.br/casadacoruja.
Se você tem uma ideia e gostaria de fazê-la em crochê entre em contato pelo email gabriela.dandrea@gmail.com, solicite um orçamento e curta o prazer de ter uma peça exclusiva e diferenciada, feita com carinho e muita dedicação!

 


 

O Projeto Mães e Mulheres Empreendedoras é uma forma de incentivar o empreendedorismo feminino, trazendo para cá produtos e serviços que tem relação com o público do blog. Divulgamos apenas aquilo que acreditamos, confiamos e conhecemos. Incentive você também a independência financeira dessas mulheres, consuma produtos e serviços de mães empreendedoras. <3

Para conhecer mais o projeto e saber como participar, é só entrar em contato conosco através do nosso email. 

05 set 2016

Ninguém precisa ser mãe para descobrir o amor ou ser completa.

Post por Isabela Kanupp às 17:46 em Feminismo

 

Dia desses eu estava no instagram e uma amiga me enviou uma publicação de outra blogueira. A publicação era a opinião dessa blogueira, sobre uma reportagem que havia passado acredito eu no Fantástico. A reportagem era a respeito de mulheres que não queriam ser mães, e justamente por isso, buscavam alternativas para não engravidarem, como por exemplo a laqueadura – ligamento das trompas.  

No caso, a blogueira emitiu sua opinião dizendo que achava uma decisão como essa, principalmente tomada na faixa dos 20 anos, algo muito precipitado. Afinal, a vida muda, os sonhos mudam, os objetivos mudam. Enfim, a opinião dela gerou muita polêmica e eu também me manifestei no instagram, ela respondeu, rolou um debate muito saudável e eu decidi trazer esse questionamento para cá.

ser mãe

Quem acompanha o blog já há algum tempo, sabe que eu nunca quis ser mãe, assim como nunca quis me casar, ou qualquer coisa que as pessoas colocam como “sonho de toda mulher”. Mas, como nem tudo está no nosso controle, como nenhum método contraceptivo é 100%, eu engravidei e veio a Beatriz.
Beatriz surgiu na minha vida quando eu tinha recém completado 19 anos, eu não fazia a menor ideia do que fazer da minha vida e de como cuidar de um bebê, muito menos como educaria uma criança. Até então, tem dado tudo certo, mas toda essa minha experiência com a maternidade não mudou em nada a minha visão em relação a ela: se pudesse voltar no tempo, não seria mãe.  

Dizer isso não muda em nada o amor que eu sinto pela minha filha, amo a Beatriz, reconheço o papel transformador que a maternidade teve na minha vida, mas para além disso, reconheço também toda a questão da opressão que a maternidade é, reconheço também todas as limitações que a maternidade trouxe para a minha vida, e assim como qualquer outra pessoa, tenho o direito de expressar a visão que eu tenho dela, não… não vale a pena. O sorriso é bonito, mas o sorriso não muda tudo.  

Já falei diversas vezes da romantização que rola na maternidade e como isso é nocivo e papel fundamental para mantermos mulheres sendo mães de forma compulsória. Ninguém nos conta as coisas negativas da gestação e da maternidade, e quando ousam a nos contar algo, contam como se fosse algo bacana, algo que valesse a pena, como um sofrimento necessário para pegarmos uma recompensa no final.  
Toda essa romantização da maternidade começa desde muito cedo na nossa vida. Crescemos acreditando que, por sermos mulheres, temos que ser mãe. Que nós temos um instinto para ser mãe e que nada na vida fará com que sejamos completas se não formos mães.

A verdade é que ninguém precisa ser mãe para ser feliz, completa, amar intensamente e verdadeiramente. Somos muito pouco incentivadas – ou quase nada – a sermos alguém além de sermos mães, por isso, muitas vezes não vemos como ser realizada ou “bem sucedida” se não for para gerarmos e parirmos uma criança. Mas na realidade, temos potencial para muitas coisas e nem todo mundo quer ser mãe. E está tudo bem.

Na nossa sociedade ainda é muito chocante vermos mulheres que tem autonomia sobre o seu próprio corpo e toma suas decisões baseadas apenas nos seus quereres, essa nossa visão é fruto de uma realidade machista e patriarcal no qual vivemos, onde a mulher é sempre tutelada ou serve para suprir a vontade de terceiros. Temos nossas vontades, desejos, sonhos, metas e muitas vezes, ser mãe não está incluso nesse pacote.
Apesar de todo o preconceito que existe na nossa sociedade com mães jovens, ainda assim, estamos mais acostumados e adaptados a aceitar uma mãe que engravidou – mesmo não querendo, mesmo nas piores circunstâncias – aos 19 anos, do que aceitar que uma mulher da mesma idade possa tomar a decisão de não ser mãe nunca.

ser mãe

Muitas pessoas argumentam que a laqueadura é um processo irreversível, e justamente por ser um processo irreversível talvez seja “cedo demais” uma mulher na faixa dos 20 anos tomar essa decisão. Porém, pouco se fala sobre o processo irreversível de ser mãe. Ser mãe também é para a vida toda. Essa mulher, querendo ou não ser mãe, terá de ser para toda a vida, lidar com os julgamentos da sociedades, as expectativas, a culpabilização e toda a responsabilidade que recai apenas para cima dela (mesmo ela não tendo engravidado sozinha).

Acredito que não somente como formadoras de opinião, mas também como mães, temos que ter a noção de responsabilidade que temos ao falar algo. Quando retratamos a maternidade apenas pela nossa régua, ignorando todo o peso que a maternidade tem, todo o julgamento social que sofremos, estamos sim influenciando outras mulheres e nem sempre de uma maneira positiva. 
Ser mãe para você pode ter sido a experiência mais maravilhosa do mundo, você realmente pode ter se sentido realizada e “se encontrado” na maternidade, mas essa não é a realidade da maioria e muito menos é benéfico para as – futuras – crianças envolvidas nessa relação.

Eu fico muito assustada quando leitores do blog me dizem que graças ao blog tiveram desejo de ter um filho. Fico muito assustada mesmo, porque essa jamais foi a intenção. Sei que vocês que acompanham veem as coisas positivas em relação a maternidade – que no meu caso, tem também -, mas eu também exponho toda a questão negativa e eu fico realmente assustada de ver que pessoas que, ainda podendo escolher, escolheriam ser mães diante de todo esse contexto.

Já contei aqui no blog diversas vezes o porque a maternidade é uma forma de aprisionar as mulheres e excluí-las de espaços sociais e políticos, e como que hoje, sendo mãe, lutamos para que esses locais sejam nossos novamente. É uma luta árdua e nada fácil. Também já falei de como a sociedade coloca a maternidade e os cuidados de um bebê como algo instintivo da mulher, quando na verdade isso é apenas uma desculpa para explorar a mulher e tornar a paternidade facultativa. É um trabalho de formiguinha para desconstruir a visão romantizada da maternidade, visão essa que não prejudica somente as mulheres mas também seus filhos.

ser mãe

Geralmente quem fala sobre o “lado b” da maternidade é taxada como amarga, mal amada, pessoa que não ama os filhos, pior mãe do mundo. Sinceramente, eu não me importo mais. Mas garanto a vocês que tirar esse peso de ser uma mãe que está adorando tudo – mesmo quando não está -, é algo muito bom mesmo, alivia e faz com que a gente exerça a maternidade de uma forma mais leve, possível e real.  

Eu sinceramente não quero mais ser mãe, não pretendo ter mais filhos – pelo menos, não nos próximos 15 anos e não biológicos – e a pressão em relação a ter outros filhos, para mim, não é tão grande. Até mesmo porque eu não sou casada, não vivo com o pai da Beatriz, então em geral as pessoas se assustariam justamente se fosse o contrário.
A maternidade não me realizou como mulher e não me completou. Tenho muitos outros planos, desejos e sonhos e em geral, são coisas que não tem a menor ligação com ser mãe ou com a minha filha. Meus desejos são meus, para o meu crescimento. Se trouxer algo de positivo para dentro da minha maternidade ou para a vida da minha filha, é apenas uma consequência.

Há um tempo eu aboli da minha vida a visão de que eu tenho que fazer algo por mim porque também será para a minha filha. Sabe aquela ideia de “você precisa fazer uma faculdade, pela Beatriz”, não é pela Beatriz que eu preciso fazer uma faculdade, é por mim, é porque (no caso) é meu sonho. Se isso trará algum benefício para a Beatriz, se isso será de uma certa forma um exemplo a ser seguido para a Beatriz, isso será apenas a consequência. A motivação tem que ser a nossa melhora, porque não deixamos de ser um individuo (com desejos, sonhos, e tudo mais) porque nos tornamos mães. 

ser mãe

Tenho consciência – e experiência – de que quando nos tornamos mães realizar nossos sonhos pessoais se tornam muito mais difíceis, principalmente porque a sociedade não é justa e não abre espaço para as mães. Em geral estamos sozinhas e temos que nos virar nos trinta, aguentando ainda o preconceito da sociedade e como nós somos barradas de frequentar diversos espaços porque estamos sempre com nossos filhos a tira-colo. Porém, se você se tornou mãe e não se sente realizada apenas sendo mãe, se acalme, isso é completamente normal e você não é uma péssima mãe (ou mulher) por isso.

Você não precisa se contentar, se realizar e ser feliz apenas por ser mãe!  

Sabemos também que a pressão para a mulher ser mãe é gigantesca, principalmente para mulheres que estão em relacionamento heterossexuais. Ignorando toda a vontade daquela mulher, todas as possibilidades de realização para além da maternidade. Você não é anormal, “defeituosa” (juro, já li isso!), ou qualquer outra coisa pejorativa por não ter vontade de ser mãe e se opor a maternidade. Você não tem que “dar um filho para o seu marido” para vocês serem de fato uma família e se você está em um relacionamento com um homem que usa isso de chantagem com você, entenda que esse relacionamento não é bom para você, não é saudável. 

Já passou da hora de entendermos que ninguém precisa ser mãe somente porque nasceu apta a gerar. Que essa ideia é apenas um reflexo de uma sociedade machista, que impõe dois pesos e duas medidas diferentes para homens e mulheres, afinal, os homens também nascem aptos para “serem pais”, partindo dessa mesma lógica, e nem por isso existe a pressão social para que eles sejam. Justamente o contrário, a sociedade somente endossa o abandono paterno e justifica a ausência do exercício da paternidade.

 

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